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Crítica: Acossado (Jean-Luc Godard, 1960) Roubando o cinema mundial à primeira vez

Foi um dos expoentes da Nouvelle Vague na França, no final da década de 1950 e ao longo da década de 1960, ao lado de diretores como François Truffaut e Eric Rohmer. Acossado, seu primeiro longa, é um dos marcos do movimento. Desde então, mantém um trabalho constante no cinema.

A expressão Nouvelle Vague foi lançada por Françoise Giroud, em 1958, na revista L’Express ao fazer referência a novos cineastas. Grande parte colaboradores da crítica de cinema na revista Cahiers Du Cinéma. De fato, sobre a sétima arte e as exigências de um cinema de autor – postulando a importância decisiva do realizador na autoria do filme – se lançam na criação do que consideraram ser o cinema. Assim, o diretor e roteirista Jean-Luc Godard cria o exemplo máximo do estilo cinematográfico francês e obra referencial aos cineastas ao redor do mundo como o seu primeiro trabalho.

Michel (Jean-Paul Belmondo) roubou um carro, após uma perseguição policial, troca tiros e mata o perseguidor, restando fugir a pé. Chegando em Paris, sem dinheiro e procurado por seus crimes, pratica pequenos furtos e cobra dívidas para juntar dinheiro suficiente para ir a Roma e revê a estudante de jornalismo de Soborne e americana jornaleira do New York Herald Tribune Patricia (Jean Seberg), seu interesse romântico. Mas conforme o seu cerco em Paris aumenta, sua liberdade exige ações ainda mais radicais.

Inspirados em acontecimentos reais e com tratamento de roteiro feito por François Truffaut, o longa possui um estilo visual único pelo uso intenso de cortes bruscos de edição. As cenas de uma única tomada são cortadas gerando dois planos e uma transição brusca entre eles. Ou seja, durante o ato dos personagens, avança a história sem preservar o continuísmo das cenas gerando desorientação temporal e espacial. No filme, é para enfatizar o contexto da história através das relações entre os personagens e seu lugar naquele universo, não deixando informações desnecessárias interferirem na atenção do público.

Além disso, o filme faz muita referência aos film noir. Começando pelo protagonista, para interpretar Michel, Belmondo se inspirou no ator hollywoodiano Humphrey Bogart, além da pouca iluminação, trilha sonora erudita moderna, muitas cenas externas na cidade grande, figurino de detetive e o suspense criminal. Já Seberg teve que reprisar seu papel anterior em Bom dia, tristeza (1958, Otto Preminger) ao estar no limiar entre a boa moça e a dama fatal. Inclusive, os clichês visuais são satirizados com os diálogos longos entre o casal protagonista, o motorista conversando enquanto dirige sem olhar para o trânsito e a quebra da quarta parede ao invés da típica narração em off em primeira pessoa.

Sucesso de crítica e de público, Goddard recebeu o Jean Vigo na França e o Urso de Prata de Melhor Diretor em Berlim pelo longa, ganhou um remake americano em 1983 dirigido e escrito por Jim McBride com Richard Gere no papel principal.

O movimento artístico era de baixo orçamento, os primeiros filmes eram caracterizados pela juventude dos seus autores, unidos por uma vontade comum de transgredir o cinema comercial. Os temas eram retalhos da vida de personagens típicas da conturbada época da revolução de Maio de 68. A moral subvertida estava presente nos diálogos e em uma montagem inesperada, original, sem concessões à linearidade narrativa fazendo jus aos mestres do film noir. As cenas focam o psicológico dos personagens, suas impressões cotidianas e banais. O sujeito sobrepõe a lógica das cenas.

Esse experimentalismo marcou o cinema e serviu de inspiração para a busca de novas formas audiovisuais de contar histórias por meio do gênero autoral pouco explorado nos circuitos comerciais pelo grande risco de recusa do público. Mas serve para demonstrar a importância dos filmes de autor para o avanço do cinema.

Sobre o diretor:

Foi um dos expoentes da Nouvelle Vague na França, no final da década de 1950 e ao longo da década de 1960, ao lado de diretores como François Truffaut e Eric Rohmer. Acossado, seu primeiro longa, é um dos marcos do movimento. Desde então, mantém um trabalho constante no cinema. Seu último filme, Adeus à Linguagem, filmado em 3D, tornou-se um marco, ao quebrar padrões ligados ao formato.

Roteiro: François Truffaut, Jean-Luc Godard
Fotografia: Raoul Coutard
Montagem: Cécile Decugis
Música: Martial Solal
Som: Jacques Maumont
Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger
Produção: Georges de Beauregard
Título original: À bout de souffle
Classificação indicativa: 14 anos

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