Crítica: Rampage - Destruição Total - NoSet
Cinema

Crítica: Rampage – Destruição Total

Uma das características mais bacanas do cinema é a capacidade de praticar constantemente sua autorreferência. Uma das razões que levam isso a acontecer é o caráter cíclico de certas temáticas e estilos, que de tempos em tempos encontram um novo fôlego diante de uma geração nova. Outra coisa que acontece bastante é que quando a própria indústria percebe que uma fórmula já está se repetindo, ela volta para si mesma em forma de paródia. São obras que se sustentam a partir de uma autoanálise de seu próprio estilo, ou como dizemos: “esse é um filme que tem consciência de estar satirizando o gênero a que pertence”.

Sempre recorro a essa ideia quando vejo a figura de Dwayne Johnson, o “The Rock”, já que o antigo wrestler e jogador de futebol americano tem se tornado cada vez mais a cara do tipo puro de ação não muito preocupado com a seriedade, aquele que, fora qualquer outra coisa, se apoia majoritariamente nas características que definem esses tipos de filme. Hoje em dia é uma versão moderna do “brucutu” dos anos 1980, só que mais humanizado e politicamente correto; e é dessa maneira que vem sendo continuamente utilizado nos últimos anos, seja numa tentativa mais séria como em Terremoto: A Falha de San Andreas, ou como um personagem claramente caracterizado como uma amalgama de referências do gênero na franquia Velozes e Furiosos.

O que nos leva a seu novo trabalho, Rampage: Destruição Total, baseado num jogo de 1997 cuja premissa é basicamente (leia-se: unicamente) destruir a maior quantidade possível de prédios e casas para passar de fase através do comando de feras gigantescas. Na versão cinematográfica, Davis Okoye (Johnson) é um ex-combatente especialista em gorilas que cuida de George (Jason Liles, por captura de movimentos), um exemplar raro albino com quem desenvolve bastante proximidade. Quando um acidente com uma nave em órbita na Terra faz com que um misterioso composto químico caia nos arredores de um parque florestal, George começa a sofrer mutações quando entra em contato com a substância. Agora instável e muito maior, o animal representa um perigo para a população, fazendo com que Davis tenha de correr para salvar as pessoas e o próprio gorila das mãos do agente Russell (Jeffrey Dean Morgan), contando com a ajuda da Dra. Kate Caldwell (Naomie Harris), uma geneticista que trabalhava para uma corporação chefiada por Claire Wyden (Malin Akerman) e seu irmão Brett (Jake Lacy).

Com um início promissor, o longa comandado por Brad Peyton (cuja parceria com The Rock já vimos em Terremoto: A Falha de San Andreas) parece estabelecer um tom seguro do que quer nos primeiros 20, 25 minutos. A sequência que abre a narrativa numa estação espacial é bem coreografada e tensa o suficiente para que um senso de perigo seja impresso no espectador logo de cara, no que parecia uma mistura consciente de filme de monstro com uma dose necessária de suspense. Aliás, a expressão “filme de mostro” cai bem no 1º ato, já que as ameaças apresentadas ganham urgência e um visual imponente, além de serem apresentadas através de algumas outras boas sequências que funcionam justamente por não abandonar essa pitada de seriedade necessária para dar alguma tensão à narrativa. Fora isso, a relação do protagonista com o gorila também surge agradável graças ao bom humor e o senso de camaradagem entre eles – o que também não deixa de funcionar pelo fato de se tratar de dois “brutamontes de coração” que exibem uma bela amizade.

Se essa última parte pareceu clichê é porque, infelizmente, a narrativa começa a decair no exato momento em que opta pelo caminho errado, o famoso “está se levando a sério demais”. Se alguns elementos iniciais pareciam prever uma verve mais satírica, bastaram poucos minutos para que Peyton demostrasse não saber estar produzindo uma espécie de comédia involuntária. Mas a culpa também recai sobre o roteiro escrito à três mãos, que já começa a denotar sua incapacidade de trabalhar o tom dos personagens logo ao apresentá-los. Se esperávamos ao menos o inegável carisma de Dwayne Johnson, o texto rapidamente faz o protagonista depender de uma variação binária baseada numa tentativa rasa de caracterizá-lo como “o homem que não se dá bem com sua espécie e por isso convive com animais” e uma rápida transformação para o herói altruísta. Tudo piora pelo fato do ator, mesmo como dito anteriormente, carismático, pouco consegue fazer termos de alcance dramático para que seu personagem não parece justamente uma paródia deslocada em uma proposta desajeitada. Vemos na tela o The Rock, não o personagem, o que, novamente, funcionaria melhor caso o filme tivesse uma proposta mais sólida que se justificasse.

O mesmo acontece com o restante dos personagens. Se a Dra. Kate era para ser uma exemplar feminina forte, a tentativa fracassa antes mesmo de começar, já que basicamente sua personagem serve como um artifício de exposição do roteiro e um apoio bastante passivo para o protagonista – o que não surpreende pela “preocupação” que o diretor tem com as mulheres no longa ao incluir uma delas andando de shorts em uma floresta, transformando o fato no alvo da piada feita com a personagem de Karen Gillan na recente versão de Jumanji, o que só mostra como regredir vários passos quando comparado a um filme lançado a poucos meses com uma proposta parecida, só que bem sucedida. Já o “vilão” de Dean Morgan remete imediatamente aos maneirismos usados para compor o seu Negan, de The Walking Dead (as inclinadas do corpo com as risadinhas sarcásticas) e os outros antagonistas ainda enveredam mais para a caricatura – neste momento esperei ver Akerman terminar de transformar Claire numa quase Cruela Cruel; quanto ao seu irmão Brett, dificilmente qualquer espectador o enxergará como nada além de um alívio cômico completamente fracassado.

O que é importante salientar é que todas essas caracterizações poderiam funcionar num outro contexto, mas Peyton e seus roteiristas insistem, principalmente a partir do 2º ato, em usá-las numa trama que jamais consegue resgatar a sensação de perigo de seus minutos iniciais. Os personagens ruins, com backgrounds jogados em rápidos diálogos expositivos, demolem a nossa conexão com a história e tudo passa a acontecer sem o menor senso de urgência. O cineasta ainda faz questão de pesar a mão na direção em um roteiro que já é maniqueísta através de sequências que parecem saídas de uma novela, com uma trilha sonora imperativa e um desequilíbrio entre a comédia e o drama (a tentativa, ao menos), o que pode ser visto, por exemplo, num flashback que mostra o encontro de Davis e George, que, inclusive, termina com uma terrível frase de efeito cuja utilização só reforça a incapacidade de Peyton em perceber seu humor involuntário.

Numa estrutura que também não foge do clichê – há os blocos narrativos separados em núcleos (os militares, os heróis e os vilões) – o filme vai gradativamente caindo num exercício tedioso de gênero, e nem o elemento “monstros gigantes” vs “uma grande cidade” empolga. Se no início algumas sequências funcionaram pela tensão construída, o restante descamba para uma derivação da derivação. Sem inspiração ou inventividade visual, as feras mutantes chegam num timing ruim e ainda encurraladas entre duas grandes produções atuais. Vale lembrar que seu lançamento foi antecipado para não competir em bilheteria com Vingadores: Guerra Infinita, mas também chega logo depois de Círculo de Fogo: A Revolta, cuja ação e concepção artística deixa ainda mais claro a falta de intensidade aqui. Sim, o diretor merece pontos por não transformar a condução de sua obra num caos desordenado presente em tantos outros exemplares, mas essa obrigação não a torna mais empolgante.

Juntando tudo isso ao fato de que a trama não sobrevive muito a uma análise mais cuidadosa (repare como há várias inconsistências na relação entre o que é apresentado para os personagens e suas ações), Rampage: Destruição Total resulta em uma narrativa sem força para despertar nosso envolvimento emocional, ou mesmo de puro entretenimento. A indecisão no tom da história e sua consequente escolha equivocada acaba acusando um desencaixe total entre a intenção de divertir pela autorreferência e conquistar pelo exercício de gênero. Vale apontar que não é o caso de afirmações do tipo “ahh é só um filme feito para divertir”, o que só ajuda a perpetuar a ideia equivocada de que determinados gêneros não tem têm a obrigação de terem um bom roteiro e uma boa direção. Exigir o mínimo para um “filme pipoca” só traz benefícios e faz com que o próximo seja melhor.

Afinal de contas, é perfeitamente possível juntar as duas coisas e não subestimar continuamente o público.

Nota:

Trailer

Data de lançamento: 12 de abril de 2018 (1h 55min)

Direção: Brad Payton

Elenco: Dwayne Johnson, Naomie Harris, Malin Akerman, Jeffrey Dean Morgan, Jake Lacy, Joe Manganiello, Marley Shelton, P.J. Byrne

Sinopse: Davis Okoye  é um primatologista (Dwayne Johnson), um homem recluso que compartilha um vínculo inabalável com George, um gorila muito inteligente que está sob seus cuidados desde o nascimento. Quando um experimento genético desonesto é feito em um grupo de predadores que inclui o primata, os animais se transformam em monstros que destroem tudo em seu caminho. Agora Okoye tenta conseguir um antídoto e impedir que seu amigo provoque uma catástrofe global.

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