Crítica: O Último Jogo

Chega a ser curioso que o país que mais joga futebol no mundo (não necessariamente o que mais gosta) não tem uma filmografia vasta ou de qualidade sobre o esporte bretão. Na verdade uns alegam que realmente o futebol é um esporte de grande dificuldade de ser filmado, mas a carência de bons títulos na nossa história pode ser um lapso mesmo. Filmes como Asa Branca – um Sonho Brasileiro, de 1981, sobre o sonho de ser um craque da bola, mesma temática do bom Linha de Passe, de 2008, O Casamento de Romeu e Julieta, de 2005, que com humor brinca com a rivalidade entre corinthianos e palmeirenses. Diria que Boleiros (1998) com seus ótimos esquetes contados a mesa de um bar, talvez seja o melhor filme sobre o tema juntamente com Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986), que teve a ousadia de ter Didi Mocó como treinador, craque e Pelé como um jornalista goleiro. Bons documentários sobre as façanhas dos grandes clubes do país também pipocaram muito, mas ainda são produtos de clubes para torcedor. Tentando talvez enriquecer o acervo de filmes sobre futebol, estreia o longa O Último Jogo (2021) de Roberto Studart.

O filme narra a rivalidade histórica entre duas cidades separadas por uns 9 km. De um lado a brasileira de Belezura e do outro lado uma cidade argentina. As duas cidades vivem uma intensa disputa entre os times de futebol rivais e ao saber que a cidade brasileira, que abriga um polo moveleiro, tende a sumir do mapa com a saída da fábrica, tem no próximo fim de semana a chance de disputar o último jogo contra os hermanos, jogo que pelo caráter, tem tudo para ser uma guerra. Uma grande esperança surge pra cidade brasileira quando chega Belarmino, o fantasista, craque de malabarismos com a bola, que com sua mulher roda de cidade a cidade pra mostrar sua técnica. O treinador do time de Belezura vê aquilo como uma nova chance pra reforçar o time, mas a cidade toda tem que se mobilizar e convencer o “craque” a ficar na cidade até domingo.

Um grande jogo até que tenta ser um bom filme. Mas infelizmente não consegue mesmo prender a atenção e desperdiça uma boa ideia num filme médio. Não pode se culpar a direção de Studart. Ele consegue, ao menos nas cenas de futebol, uma boa sincronia e belas tomadas, algo raro nos filmes do gênero, mas o filme naufraga mesmo é nas atuações fora de campo e no roteiro assinado pelo próprio Studart. O filme tem cara de minissérie da Globo dos anos 1990, início dos anos 2000, baseado em obras literárias, com um humor nonsense sem graça, personagens forçados demais e o principal: uma falta de realismo mesmo, em nenhum momento nos identificamos com os tipos do filme, a impressão é que se o mesmo roteiro fosse filmado no outro lado de Belezura, com os toques humanos, realistas e humor peculiar dos argentinos, o filme teria um resultado diferente.

O filme abusa de clichês até ultrapassados e piadas extremamente sem graça e até de mau gosto mesmo. Enfim o cara chega com uma grande expectativa devido à ideia do filme, mas acaba completamente decepcionado. Talvez um dos erros seja o excesso de fantasia e até surrealismo e a falta de identificação geográfica de onde seria essa tal fronteira e rivalidade entre cidades, deixa tudo extremamente falso e aborrecido. Aliás, nem a tão falada rivalidade Brasil x Argentina na bola é bem retratada no filme, talvez o jogador do time argentino seja o mais parecido com a realidade e junto com o ex-médico que narra as partidas comparado o lance a tumores e doenças sejam os únicos que se salvam, tendo dignas atuações.

Também não posso deixar de dar mérito à partida final, muito bem dirigida, com boa verossimilhança, dentro do possível, dos meandros de uma peleja de futebol, com jogadas ríspidas, belos lances, defesas de goleiros, ainda com um final bem interessante, fugindo do comum. Pena que para chegar ali o filme perdeu mais de uma hora em uma enrolação sem fim. Uma lástima que O Último Jogo decepcione tanto, em um cartel de filmes de futebol tão escasso. Acredito que o filme pouco irá acrescentar a esse minguado cardápio e o país que mais gosta de jogar bola ainda carece de filmes bons que passem para as telas a verdadeira emoção e sentimento das quatro linhas.

Lauro Roth