Crítica-Isso Ainda Está de Pé? Crise conjugal tratada com maturidade e sensibilidade
Existem pessoas que procuram ajuda na terapia, outros nos amigos, alguns se afundam no álcool ou nas drogas, mas Bradley Cooper, mais uma vez atrás das câmeras, nos mostrou que às vezes exorcizar os problemas em forma de comédia stand-up pode ser uma terapia para lidar com a crise do quase fim de um relacionamento. Essa é a premissa de Isso Ainda Está de Pé (Is This Thing On?, 2025), que tem estreia nos cinemas nesta quinta, pós carnaval.
O casal Alex e Tess, depois de mais de 20 anos e dois filhos, estão com o relacionamento por um fio. Tentam as últimas cartadas, mas a separação é uma realidade. Uma noite, depois de se separaram após um evento, Alex resolve ir a um clube de stand-up, mas como está sem dinheiro, acaba se inscrevendo para dar uma palhinha no show e externa seus problemas para a plateia, como uma forma de soltar para fora suas angústias interiores. Ele sempre foi um cara muito comunicativo e divertido, mas nunca tinha se dado oportunidade de ousar dessa maneira, expondo ao público com humor franco sua situação. Ao mesmo tempo, ele tem que se adaptar à nova realidade e juntar os cacos de seu relacionamento em frangalhos, jamais desistindo de reconquistar Tess e ter mais uma chance com sua amada, que também resolve retomar sonhos antigos, como trabalhar novamente com vôlei, mostrando que além de dar uma nova chance, eles precisam se reencontrar com suas paixões pessoais.

A inspiração para o filme, segundo Bradley Cooper, foi a maneira como o comediante John Bishop entrou para o mundo da comédia. Essa história foi contada para o ator Will Arnett, que junto com Cooper e Mark Chappell, criaram a premissa para esse maduro e sensível drama. Usando e abusando de uma câmera frenética e inquieta e closes profundos, mais uma vez o diretor explora a sensibilidade de relacionamentos em imagens que marcam a alma. Toda a angústia de Alex está ali na sua fisionomia acabada, nos seus gestos, na sua maneira de lidar com a finitude de um duradouro relacionamento. O mesmo vemos no rosto de Tess, uma mulher que ainda quer retomar os sonhos, tem paixões, mas está calejada com uma situação quase insustentável. Isso Ainda Está de Pé é um drama maduro, adulto e realista sobre crise conjugal, de quem ainda se ama, mas não sabe como manter a chama acesa e a possibilidade de manter essa relação. Um casal que se ama demais, mas que mesmo assim demonstra toda a fragilidade dos problemas que o tempo vai acumulando e desgastando relações tão bonitas e genuínas.

Will Arnett está ótimo no papel de Alex. Um homem fraturado emocionalmente, que só se vê livre dos seus fantasmas expondo sua vida para a gente da noite que acompanha seus shows. Mas longe de querer ser um profissional do ramo, Alex apenas quer desabafar, contando com a cumplicidade de estranhos. Além disso, é um bom pai e insiste firmemente na manutenção do relacionamento mesmo às vezes se dando por vencido, cansado e quase jogando a toalha na situação. Laura Dern é sempre ótima, dessa vez como a doce e decidida Tess, envolta em uma nova proposta de vida, mas sabendo que para isso precisa de cooperação e uma renovada vida, mesmo que isso mexa com sua família. E como um filme de Bradley Cooper não vai ter um Bradley Cooper, não é? Ele faz o arrogante ator Balls, um amigo e conselheiro de Alex, mas que seu umbigo acaba transferindo todos os dramas do casal para o lado, devido a sua onipresença e insegurança.

Isso Ainda Está de Pé é mais que um filme sobre crise conjugal, trata a seriedade do assunto com sutileza e maturidade, não derrapando para caminhos óbvios como aventuras e traições baratas naquela sensação falsa de liberdade. Provoca reflexão, emociona, joga baldes de realidade e sentimento em um caro tema para o cinema de hoje em dia que são os filmes adultos. Nunca a letra da música que embala a trama, Under Pressure, do Queen, é tão ilustradora, em que os personagens ainda continuam fornecendo amor, mas ele está tão rachado e despedaçado e por que isso? Mas é um filme que nos dá esperança e mostra que enquanto houver chama que mereça ser preservada, sempre valerá a pena insistir nela.
