Hamnet – A Vida Antes de Hamlet
Uma tragédia pessoal pode ser digerida de várias formas. Existem os que entram num casulo hermético da depressão e preferem se isolar. Outros se curam rápido, e mesmo com seus traumas seguem a vida, levantando a poeira como podem. Outros vivem em estado catatônico e vivem apenas por viver. Alguns transformam isso tudo em arte. E um desses alguns, na visão de Chloé Zhao, foi William Shakespeare. E essa passagem de sua vida foi transposta para as telonas em Hamnet – A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025).

O filme nos leva para o século 16, onde Agnes, uma jovem marginalizada da cidade inglesa de Stratford, que uns consideram uma bruxa, conhece o jovem Shakespeare. O encontro dos dois, na floresta, faz o futuro dramaturgo contar uma história para ela, que junto a uma profecia da moça, fazem os dois se apaixonar. William, que é forçado pela família a continuar a sua função no trabalho braçal, se rebela, casa com Agnes e a pedido dessa se manda pra Londres, onde terá mais futuro com suas peças e histórias. Agnes acaba ficando em Stratford e cria os filhos do casal, Suzana e seus gêmeos Hamnet e Judith, que quase morreram no parto. Já famoso, William volta à sua cidade, mas a peste assola a Europa, William no seu retorno vê que seu filho acaba morrendo, fato que racha o casal e vai mudar a vida dos dois para sempre.

Chloé Zhao volta com grande estilo nesta adaptação de Maggie O’Farrel, do livro homônimo de 2020, que fez muito sucesso ao tratar como o luto e as dores pessoais podem servir como combustível para fazer arte. E Zhao, depois do fracasso comercial de Eternos, onde foi entrar na nebulosa terra dos fãs idiotas da Marvel e seus super heróis, nos premia com um dos filmes mais sensíveis e ao mesmo tempo pesados do ano. Pesado por que a tragédia jamais cicatriza e mesmo o nebuloso tema da perda de um filho, que aqui não poupa drama e densidade, alia com maestria a sensibilidade na direção caprichada de Zhoe. Muita gente vai sair aborrecida do cinema com suas alegorias, seu teatro filmado e o ritmo, principalmente no segundo ato, que é de um arrasto para poucos. Partindo da perspectiva de como cada um enfrenta o seu luto, Agnes busca na natureza e seus elementos suas saídas e William se afunda na escrita e usa como inspiração para sua famosa obra a morte de seu filho.
E precisamos falar sobre quem dá vida a Agnes, Jessie Buckley, que se entrega de corpo e alma numa atuação fascinante, com a sorte de ter Chloé a dirigindo, desde seus partos dolorosos, sua conexão com árvores, falcões e o seu habitat e a sua tristeza devastadora de ver seu filho sucumbir à peste bubônica que assolou a Europa naqueles tensos anos. Uma atuação vigorosa e humanista que tem tudo para concorrer e (por que não?) levar prêmios. Paul Mescal não brilha tanto, mas nos apresenta uma versão humana e dolorosa de Shakespeare, que transforma de sua dor pessoal, seu mundo ruído, em uma obra de arte, desconstruindo sua história pessoal num universal texto que até hoje é idolatrado. A fotografia de Lukasz Zal, onde cada passagem do filme tem um enquadramento, que nos remete a quadros de arte, todo o close é de uma densidade dramática que tira dos atores, principalmente de Jessie, um realismo tocante, onde cada suspiro, franzida na testa e suor fazem o espectador sentir junto o drama cortante dos personagens. A trilha de Max Richter também cresce conforme a história vai se desenvolvendo, principalmente em cenas como a despedida de Shakespeare e Hamnnet e a arrebatadora cena final, em que a peça Hamlet é apresentada pela primeira vez. Inclusive essa cena lacrimejante da obra sendo encenada, com certeza tem o dedo e tempero do mais puro de Steven Spielberg, um dos produtores do filme.

Hamnet trata com maturidade e transforma em arte coisas tão dolorosas como a perda de um filho e como isso abala um casal e que cada pessoa trata de maneira diferente um quadro de perda e um luto tão profundo. E Zhao, sem grandes rodeios, ao seu modo, mesclando melancolia, conflito e muita afetividade, sem cair jamais pra pieguice, utiliza um personagem tão emblemático como Shakespeare para isso, num filme onde quem brilha é sua esposa Agnes, que mistura misticismo, amor e elementos da natureza para enfrentar seu desalento e que como diria seu próprio marido na frase da sua peça famosa, o resto é silêncio…
