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CRÍTICAS

Crítica – Zico: O Samurai de Quintino

Crítica – Zico: O Samurai de Quintino
Zico no início de carreira no Flamengo, em 1971.
  • Publishedabril 27, 2026

Zico é inegavelmente uma das maiores lendas do futebol mundial. Tendo participado de três copas do mundo; ganhado a libertadores, o mundial e quatro campeonatos brasileiros com o Flamengo; além de ter tido um papel imprescindível na profissionalização do futebol no Japão, o jogador certamente merecia um documentário de alto nível sobre a sua carreira. 

O doc acompanha Arthur Antunes Coimbra, o Zico, ao longo de toda a sua vida: desde a infância até os dias atuais, mostrando como o Galinho lida com o legado deixado por seu futebol, tanto no Brasil, quanto no Japão. O documentário se apoia em imagens de arquivo e em depoimentos de amigos, jornalistas, familiares, outras lendas do futebol e do próprio Zico. 

O diretor João Wainer faz uma escolha de realizar um recorte geral da carreira do jogador: Zico – O Samurai de Quintino (2026) se propõe a passar por 50 anos de carreira em uma hora e quarenta. Não é um trabalho fácil e obviamente o resultado acaba resumindo bastante a história de Zico, fazendo com que momentos como a passagem do jogador pelo clube italiano Udinese, por exemplo, vire quase uma nota de rodapé. Mas no final das contas, essa escolha faz sentido pelo contexto do lançamento do filme. Se fazia falta um documentário que retratasse a história de Zico de com um alto nível de qualidade, com O Samurai de Quintino essa necessidade foi suprida. O filme celebra a carreira do Galinho enquanto apresenta o legado da lenda para uma nova geração. 

Zico O Samurai de Quintino utiliza muito bem as ferramentas que possui para contar a sua história. Os aspectos do jogador mais ressaltados pelo longa são seu senso de humanidade, sendo sempre muito atencioso com as pessoas à sua volta, além de seu senso de responsabilidade e profissionalismo. O filme nos relembra a todo momento quem é Arthur para além de Zico, através dos amigos e da família do jogador. Nesse âmbito, os grandes destaques são os depoimentos dos filhos do Galinho: com uma grande carga de honestidade, os testemunhos de Arthur, Bruno e Thiago ajudam a construir o caráter humano, para além da lenda.  

Dentro da construção narrativa, o momento mais coeso é a passagem de Zico pelo futebol japonês. Nesse ponto, João Wainer consegue amarrar muito bem o conceito do documentário: colocando Zico como um samurai. É o ponto da carreira do jogador em que o documentário, acertadamente, mais se debruça, já que a ida de Zico ao Sumitomo Metals (atual Kashima Antlers), um clube à época semi-amador, resume tão bem os seus valores: a humildade, o senso profissional, o impacto extra-campo causado por ele, e a genialidade revolucionária de seu futebol. João Wainer pergunta: O que faz uma lenda do futebol brasileiro ir defender um clube semi-amador do Japão? E então deixa a própria história do Galinho responder.

Mas a grande força do documentário reside nas imagens de arquivo. Os vídeos tratados e restaurados, aliados à voz de Jorge Ben Jor cantando o hino do Flamengo, ilustram com perfeição a genialidade do Galinho de Quintino. É um privilégio emocionante podermos assistir aos lances de Zico com essa qualidade de imagem, como se estivéssemos em pleno Maracanã. E nesse ponto, o som é importantíssimo. Na coletiva de imprensa sobre o filme, João Wainer conta que a produção do documentário chamou a torcida organizada Raça Rubro-Negra para regravar as músicas cantadas pela torcida nos anos 70 e 80. Desta forma, a equipe de ZicoO Samurai de Quintino teve a possibilidade de mixar o som da torcida com o objetivo de transformar as salas de cinema em estádios. E funcionou. É impactante a força com que o som da torcida acompanha as imagens de Zico em campo. Esse tipo de cuidado é perceptível por todo o filme.

A expectativa sobre um documentário desse porte, onde a história de uma figura tão importante para a paixão de tantas pessoas é contada, era enorme, no entanto o diretor João Wainer conseguiu atingir as altas expectativas com maestria. Que ZicoO Samurai de Quintino seja um pontapé para que a história do Galinho seja cada vez mais discutida, em livros, filmes, matérias jornalísticas, etc. Se tem um jogador que merece ser lembrado pelo o que foi dentro de campo e para o que é fora das quatro linhas, esse alguém é Zico.

Written By
Guilherme Pedroso