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CRÍTICAS

Crítica – Precisamos Falar

Crítica – Precisamos Falar
  • Publishedsetembro 21, 2026

Um dos grander males da sociedade brasileira é a lógica de impunidade do muro de casa para dentro. Para os outros, a lei tem que ser imposta de forma violenta, enquanto para os meus filhos, não. Esse é o tema central de Precisamos Falar (2024), dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, que terá a sua estreia comercial em 26 de setembro de 2026.

Após um ataque brutal cometido por seus filhos adolescentes contra uma mulher em situação de rua, dois casais veem suas vidas desmoronarem. Confrontados com uma verdade insuportável, eles precisam decidir entre proteger os próprios filhos ou entregá-los à Justiça. Enquanto o crime expõe privilégios, omissões e diferentes visões de mundo, as relações familiares são colocadas à prova, e cada personagem é obrigado a enfrentar a pergunta que ninguém quer responder: qual é o limite entre o amor e a responsabilidade?

Precisamos Falar é um filme extremamente redondo. Todos os aspectos se encaixam para entregar uma obra muito interessante, desde os técnicos — como som e cinematografia — até o roteiro e as atuações. O roteiro funciona bem porque trata de temas muito atuais na sociedade brasileira de uma forma realista, ainda que descarada. Talvez a própria realidade ajude ao criar tantas figuras caricatas dentro das discussões políticas, mas o fato é que os personagens são muito reconhecíveis. Os tropos da família de classe média, seja de esquerda ou de direita, estão muito bem retratados no longa.

Isso se dá muito também pelas atuações. É impressionante como as performances estão fantásticas, inclusive entre os atores mais jovens. Alexandre Nero e Marjorie Estiano representam dois reacionários que nos causam um nível de raiva impressionante (ou talvez você concorde com eles, o que não é meu caso). Isso porque eles têm uma atuação muito natural, porém com um toque explosivo muito interessante. Do lado do casal mais progressista, Emílio de Mello e Hermila Guedes entregam performances um pouco mais engessadas. Eles não estão mal — bem longe disso —, mas algumas linhas de diálogo soavam um pouco mais como um discurso pronto do que como uma fala natural. No entanto, o grande destaque é a atuação dos atores mais jovens: dos quatro já citados nós já esperamos grandes atuações, mas as performances dos filhos geram uma surpresa positiva. Guilherme Cabral e Cauê Campos estão ótimos, mas faz-se necessário destacar especialmente a atuação de Thiago Voltolini. Ele entrega Michel, um adolescente semipsicopata e racista, com uma potência que carrega muito do peso emocional do filme. Muito de Michel vem de seu pai, Alexandre (personagem de Alexandre Nero), e Voltolini consegue emular trejeitos de Nero sem parecer uma imitação. Além disso, ele traz uma sutileza da atuação de Marjorie Estiano (que interpreta sua mãe, Sandra), fazendo com que Michel se torne um personagem muito real e verossímil.

O roteiro sabe brincar muito bem com a situação tensa e trágica que é retratada. Desde o primeiro minuto, o nível de tensão cresce progressivamente até o clímax, deixando-nos sem conseguir relaxar por um segundo, porque sabemos que a qualquer momento a tragédia pode escalar ainda mais. No entanto, o final do filme é um tanto anticlimático. Isso contribui para o realismo, porque, afinal, a vida real é anticlimática muitas vezes; porém, no caso de Precisamos Falar, essa decisão dá uma esvaziada no arco narrativo como um todo, visto que esperávamos uma resolução mais catártica após toda a construção de tensão do longa.

Apesar desse ponto, Precisamos Falar é um ótimo filme que consegue desenvolver seus temas com uma história envolvente e emocionalmente pesada. Com atuações fantásticas e marcantes, a obra consegue causar um impacto muito grande e ficar na cabeça por dias após o fim da projeção.

Written By
Guilherme Pedroso