Crítica – Pinóquio
Mais um filme adaptando Pinóquio. Na verdade, neste caso, adaptando Buratino, a versão soviética de Pinóquio, escrita por Aleksey Nikolayevich Tolstoi, e publicada com muito sucesso em 1936. Em 2026, sob a perspectiva ocidental, há um certo cansaço pré-existente em relação a qualquer adaptação que seja do boneco de madeira, já que é uma história tão conhecida e repetida diversas vezes. Esse é o principal desafio enfrentado por Pinóquio (Буратино, 2026) ao tentar agradar o público ocidental.
Após receber uma chave mágica, Gepeto abre uma porta secreta escondida atrás de sua lareira. Na sala secreta, o velho carpinteiro faz um pedido: um filho. O desejo quase se torna realidade, mas no último momento, a dona da chave, Tortila, a Tartaruga, chega à casa de Gepeto e interrompe o processo. Porém, após a interrupção, o carpinteiro percebe que um tronco que está encostado no canto de seu quarto começa a se mover. Gepeto então decide talhar um boneco de madeira daquele tronco que realmente havia ganhado vida, nascendo assim: Pinóquio.

O que mais chama a atenção em Pinóquio, dirigido por Igor Voloshin, é o seu visual. O design de produção é bem resolvido e eficiente em criar personagens visualmente marcantes. Os cenários, apesar de não serem brilhantes, cumprem seu papel de serem um ambiente vivo para que os personagens possam florescer. A fotografia não é excepcional também, tendo aquele visual com cores dessaturadas, em alguns momentos até cinzentas, muito alinhada com uma cinematografia clássica dos filmes de fantasia infanto-juvenil dos anos 2000. No entanto, ela também funciona ao criar um clima imersivo naquele universo. O visual do personagem Pinóquio, propriamente dito, também é efetivo em entregar um protagonista fofo, altruísta e carismático.
Seguindo a linha de “não é brilhante, mas funciona ao que se propõe” está também o roteiro. Pinóquio tem uma narrativa bem direta e simples, porém, muito coesa. O arco do protagonista é claro e bem fechado em si mesmo, assim como os temas do filme, que não são muitos, e nem são profundos, mas, dentro de suas simplicidades, são bem desenvolvidos. Os personagens secundários não passam disso, mas servem ao propósito principal de ajudar a carregar o arco de Pinóquio. Além disso, são inegavelmente carismáticos, nem tanto pelas performances dos atores mas pelo impacto visual que causam.

Há uma escolha por um estilo de atuação caricata, o que até casa bem com a estética geral do longa, que em alguns pontos possui uma estrutura parecida com uma peça de teatro, porém esse estilo de atuação pode ser distrativo se não for executado com excelência, e essa distração ocorre por vários momentos em Pinóquio. O grande destaque positivo em termos de atuação é a performance de Fyodor Bondarchuk como o tirano Karabas Barabas, dono do teatro da cidade. Bondarchuk constrói um vilão unidimensional e divertidíssimo em sua crueldade caricata, sendo uma presença ameaçadora que eleva a tensão da segunda metade do longa.
Os pontos mais fracos do filme são os números musicais. As músicas não são boas e as coreografias são desajeitadas e sem graça. O ponto positivo é que não são cenas longas, então o martírio não dura muito, mas de qualquer forma, elas atravancam o filme e só passam a sensação de que quando Pinóquio tenta sair do simples, as engrenagens se desencaixam, e o filme para de funcionar por um momento.

No geral, Pinóquio é singular o suficiente para trazer um frescor à história do famoso boneco de madeira. É um filme simples, divertido e que tem um potencial para agradar principalmente as crianças, que é seu público-alvo. A aventura divertida e direta que Pinóquio se propõe a ser, neste caso, basta para se fazer um filme honesto e cativante.
