Crítica – Pequenas Criaturas
É comum ouvirmos falar sobre o tédio de Brasília durante os anos 70 e 80. Uma cidade historicamente jovem, à época, parecia não ter desenvolvido ainda uma personalidade em relação ao entretenimento e à vida cultural, aspecto tão característico de uma grande metrópole. Claro que, olhando em retrospecto, sabemos que havia, sim, uma vida cultural muito relevante explodindo em Brasília na virada dos anos 70 para os 80. Inclusive, um dos filhotes dessa explosão cultural, a banda Legião Urbana, também comentou sobre o marasmo da cidade em sua música “Tédio (Com um T Bem Grande pra Você)”. Em Pequenas Criaturas (2025), vemos uma família recém-chegada a Brasília tentando se adaptar às particularidades da cidade, enquanto mãe e filhos lutam para se conectar entre si, superando a ausência de um pai negligente, as inseguranças da adolescência e as frustrações de uma vida melancólica.
Em 1986, recém-chegada à capital com o marido e os dois filhos, Helena vê sua rotina ser abalada quando seu esposo parte em uma viagem de trabalho, deixando-a sozinha em uma cidade desconhecida. Enquanto enfrenta a solidão e as frustrações de uma vida que não escolheu, ela busca redescobrir sua própria identidade. Ao mesmo tempo, seus filhos vivem os desafios e as descobertas da juventude. André, adolescente, experimenta as primeiras paixões e percebe as tensões crescentes entre os pais; já o pequeno Dudu transforma o cotidiano em uma sequência de aventuras, amizades e aprendizados.

Dado todo o contexto da Brasília de meados dos anos 80, é muito interessante como Pequenas Criaturas consegue construir um clima muito condizente com a ideia do que era a capital brasileira à época, ao menos para a classe média. Os tons amarelados da paleta de cores passam um clima agradável de verão, ao mesmo tempo em que os planos longos dão a sensação de monotonia do cotidiano. Essa junção transmite a sensação do estado de existência daqueles personagens que, embora possuam uma vida tranquila em termos materiais, carregam uma crescente frustração com uma vida vazia de grandes emoções.
Isso analisando de maneira superficial, pois, quando o filme começa a se aprofundar na psique de seus personagens, vemos que todos eles são vítimas de traumas. Helena (Carolina Dieckmann) é vítima de seu marido, que não só a força a viver uma vida pequena diante do que ela merece, como ainda a trai. Seu filho, André (Théo Medon), é vítima de uma família desestruturada e de uma vizinhança pouco amigável; já o amigo de André, Marcão (Acauã Alves), é vítima da tragédia da morte do irmão mais novo, e assim por diante. No final das contas, as frustrações acabam sendo derramadas na cidade, pois é mais fácil culpar Brasília do que encarar problemas tão sérios de frente. O único personagem que parece não ser impactado por nada à sua volta é o caçula de Helena, Dudu, interpretado por Lorenzo Mello. Fã de Planeta dos Macacos e de colecionar tampinhas de refrigerante, Dudu está a todo momento vendo a vida com leveza, talvez por ser muito novo para perceber as tensões crescentes à sua volta. Lorenzo, inclusive, rouba completamente a cena. Seu personagem é um alívio cômico que consegue levar as cenas mais densas para um lugar de leveza de maneira hilária. Apesar do destaque de Lorenzo Mello, o elenco como um todo está muito bem, com destaque especial para Carolina Dieckmann, que consegue dar muito peso a uma Helena complexa e cativante.

Todas as atuações estão muito bem amarradas pelo roteiro de Anne Pinheiro Guimarães (também diretora do filme), que entrega um texto realista, profundo e, ao mesmo tempo, engraçado na medida certa. Talvez o único ponto negativo de Pequenas Criaturas seja o personagem de Milton, que, apesar de muito bem interpretado por Fernando Eiras, tem um arco que flerta com um tema muito sério e, no final das contas, fica fora de tom quando levamos em consideração a conclusão de sua história. Mas esse ponto não é o suficiente para estragar o filme.
Anne Pinheiro Guimarães constrói um longa contido que consegue emocionar através de personagens marcantes. Com uma fotografia linda, um roteiro muito interessante e belas atuações, Pequenas Criaturas impacta por sua beleza estética e temática, enquanto faz um retrato de uma cidade icônica durante uma década igualmente marcante.
