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CRÍTICAS

Crítica – Obsessão

Crítica – Obsessão
  • Publishedmaio 14, 2026

Segundo o dicionário Houaiss, desejo é um substantivo masculino que representa a vontade, anseio ou ambição por algo. Quem nunca desejou buscar a felicidade (por mais abstrato que seja o termo), ser rico, viajar sem freio pelo mundo ou até desejar uma pessoa, mesmo sabendo que suas chances de ficarem com ela eram quase nulas? Mas também tem o lado complicado do desejo, que às vezes, mesmo conquistando, ele pode lhe trazer um grande problema, e é isso que acontece com a vida de um tímido atendente de uma loja de música, que apaixonado por uma amiga acaba tendo seu sonho realizado, mas sua vida virada de cabeça para baixo. Obsessão (Obsession, 2025) é o filme de terror de Curry Barker, que estreia essa semana e já é um dos melhores do ano.

Bear é um típico jovem com pinta de perdedor para os padrões estadunidenses, que trabalha numa loja de instrumentos musicais. O rapaz é tímido demais, e com pouca autoestima e traquejo com as mulheres, pede dicas para seu grande amigo Ian para conquistar Nikki Freeman, uma amiga de infância e colega de trabalho dos dois. Ao visitar uma loja de artigos esotéricos, ele acaba comprando um salgueiro do desejo, que se quebrado após fazer um pedido, este se realizará. Um dia Bear testa, e da noite para o dia, a garota fica completamente apaixonada por ele, desejo do rapaz. Só que a paixão se revela doentia, possessiva,regada à ciúme e violência, transformando Nikki em uma ameaça tanto para o rapaz quanto para os seus amigos.

Com direção e roteiro de Curry Barker, e usando aquela premissa que temos que ter cuidado com o que desejamos tanto, Obsessão, mesmo que lançado ano passado, chegando aos cinemas em 2026, já pode entrar em um dos melhores filmes do gênero com estreia neste ano. Um terror que evita sustos fáceis e mistura com maestria timidez, desejo, ciúme, dependência, violência explícita, e é claro, uma pitada de sobrenatural. E por mais que seja um filme de terror, o diretor consegue por vezes até provocar risos tímidos, devido aos exageros da personagem Nikki com seu amor desenfreado por Bear. E tudo isso com aquele clima de terror juvenil estadunidense, em um filme que não precisa de mais de quatro personagens pra nos prender na história. O mérito de provocar desconforto e carregar um suspense crescente, que por mais que imaginávamos o que poderia acontecer, acaba surpreendendo e chocando. 

Muita violência explícita ocasionada pelos impulsivos atos de ciúme e codependência da personagem funcionam bem e por mais que provoque mal estar, não vemos exagero e sangue barato em cena. Muita choradeira, auto flagelo e reações absurdas fazem parte dessa crítica em forma de terror de relações possessivas, exageros de dependência afetiva e o quanto amar demais não é amar. A trilha sonora que provoca arrepios e pontua na medida certa cada cena, assinada por Rock Burwell, é um show à parte e misturada àquele tipo de fotografia típica das produções da BlumHouse do Taylor Clemons e a exploração dos interiores sombrios, que aliam com perfeição a trama simples mas muito bem formulada de Barker, cineasta oriundo da internet e que acostumado a tirar leite de pedra com filmes de 800 dólares, agora com um orçamento generoso mantém a simplicidade que dá certo. 

O quarteto de atores está bem, desde o amigo dubio de Bear, Ian, interpretado por Cooper Tomlinson, a amiga do casal Sarah, Megan Lawless, no meio do fogo cruzado, servem de escada dramática para o casal principal. Michael Johnston, como Bear, passa toda a insegurança de um cara com dificuldade de relacionamento e vai do céu ao inferno no relacionamento almejado que acaba se tornando uma tormenta. Mas é com Inde Navarrette, como Nikki, que o filme toma outro rumo. Ela consegue só com um olhar desconcentrar qualquer um, seu comportamento bipolar faz com que ela vá do choro sofrido à dominação abusiva em segundos, numa atuação fantástica, levando o filme como a hipnotizada e incontrolável Nikki.

Obsessão nos lembra aquela velha lição, que às vezes nossos sonhos mais almejados são meras ilusões e mostra que uma história de terror bem contada, usando um tema tão comum como um relacionamento pode provocar mais do que sustos e sim uma boa reflexão sobre o quanto uma relação abusiva e de extrema dependência pode se transformar num verdadeiro show de horrores, literalmente…

Written By
Lauro Roth