Crítica – O Velho Fusca
Essa crítica conterá uma confissão, de crítico para leitor: quando a gente vai assistir um filme sabendo que dessa experiência sairá um texto de análise, é tentador que coloquemos uma super-lupa para achar erros técnicos e pontos a melhorar no longa. Mas e quando o filme, mesmo não sendo um primor, no final, emociona o crítico? Como é que faz?
Junior é um garoto sensível que está tentando encontrar o seu lugar no mundo, enquanto luta contra as dificuldades de ser um jovem sem grana e com uma inadequação social. O jovem acredita que bastaria ter um carro para resolver as suas questões e para conquistar Laila, a garota pela qual é apaixonado, por isso a sua obsessão se torna tomar posse do velho Fusca que está abandonado na garagem de seu avô. O problema é que o pai de Junior não tem uma boa relação com o Vovô há muitos anos. Junior então precisa superar os desentendimentos familiares, a personalidade explosiva de seu avô e um velho motor de Fusca para poder chegar mais perto de entender a si mesmo.

O Velho Fusca (2026), dirigido por Emiliano Ruschel, tem a pretensão de ser uma comédia simples, leve e emocionante, e em partes, o filme consegue atingir seu objetivo. O problema é que o longa, em sua simplicidade, acaba se tornando um filme um pouco óbvio demais, seja pelas escolhas em sua estrutura narrativa, pela construção de sua cinematografia ou pelos seus diálogos clichês. Ruschel parece seguir à risca as suas referências para entregar uma produção construída dentro de uma fórmula pré-estabelecida do que funciona no gênero, o que tem um resultado dúbio, porque ao mesmo tempo em que O Velho Fusca não surpreende em sua maior parte, também consegue ser minimamente efetivo em divertir pelo senso de familiaridade que causa no espectador.
Tecnicamente O Velho Fusca é um filme bem honesto. A fotografia e a mixagem de som entregues são competentes, e constroem uma obra audiovisual de bom nível. Apesar de em alguns momentos o longa ter uma aparência levemente de TV (mas TV de qualidade, é importante que se diga), as cenas externas, com o Rio de Janeiro emoldurando os personagens, entregam belas imagens e conseguem passar uma sensação de jovialidade e de leveza, características que conectam muito bem com o estado de espírito dos protagonistas e do clima geral do longa. No entanto, tecnicamente o filme peca pontualmente na montagem e na grande parte da utilização da trilha sonora incidental. Além de alguns erros de continuísmo nos cortes, a montagem também não é efetiva em construir a catarse emocional de alguns momentos-chave do filme. Há duas cenas específicas, por exemplo, que envolvem socos na cara, que perdem impacto por uma montagem confusa e picotada demais. Já a trilha incidental, além de não ter muita força, nos momentos mais emocionais tenta manipular o público de uma maneira desmedida, distraindo, inclusive, o espectador da performance dos atores. Vários desses momentos se beneficiariam do silêncio ao invés de uma música altíssima na mixagem.

O ponto alto de O Velho Fusca é o personagem do Vovô, muito pela atuação de Tonico Pereira, que consegue transformar um personagem com um texto consideravelmente odiável em um senhor rabugento mas com carisma. Inclusive, o personagem do vovô e tudo o que o envolve é onde longa consegue surpreender de fato. Primeiro de uma maneira negativa, já que as falas problemáticas do Vovô não são suavizadas, sendo realmente absurdas. Mesmo que as piadas inadequadas do Vovô sejam problematizadas pelos outros personagens, elas estão inseridas num contexto de alívio cômico, o que gera um descompasso no tom de O Velho Fusca. Apesar dessa questão, o personagem interpretado por Tonico Pereira é o trunfo do longa até a nível emocional. Se o longa é óbvio em muitos aspectos, a construção da relação de Junior com seu avô é praticamente perfeita: é uma relação muito palpável e que serve para discutir vários temas como choque de gerações, misoginia, solidão e etarismo, desaguando numa catarse emocional surpreendentemente impactante.

O Velho Fusca não é um filme perfeito e nem um clássico instantâneo, mas emociona. Emociona com leveza, com humor, e com melancolia. No final das contas, é para isso que serve o cinema, a música, a pintura, a literatura, enfim, é para isso que serve a arte. Seguindo por essa lógica, cumprindo o seu papel, O Velho Fusca é, sem dúvidas, uma obra de arte.
