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CRÍTICAS

Crítica – O Senhor dos Mortos

Crítica – O Senhor dos Mortos
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  • Publishedmarço 13, 2026

Um dos aspectos mais fascinantes da arte é analisar como uma obra interage com o mundo. Um filme não existe no vácuo, e a forma como ele é percebido depende do contexto, das obras que vieram antes, e de como a sociedade percebe a realidade naquele momento. Esse aspecto é perceptível ao analisarmos O Senhor dos Mortos (The Shrouds, 2024), filme mais recente de David Cronenberg, que nunca foi lançado comercialmente no Brasil e que fará parte da seleção da Mostra Farol, que acontecerá no CineSesc em São Paulo. 

Após a morte por câncer de sua esposa Becca, o empresário Karsh criou a Grave Tech, uma empresa funerária que utiliza tecnologia para criar túmulos que transmitem em tempo real, para os celulares dos clientes, o corpo em decomposição. Karsh utiliza os serviços da própria empresa para observar obsessivamente os restos mortais de Becca. Ao mesmo tempo em que está em processo de luto, o empresário trabalha para expandir a sua empresa para outros países, no entanto, seus planos sofrem um revés quando um suposto ataque terrorista ocorre no cemitério da Grave Tech, onde vários dos túmulos são vandalizados, inclusive o de Becca. Karsh então se envolve em uma suposta trama de crimes, espionagem e traição.

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Tecnicamente, O Senhor dos Mortos é bem feito. As cenas são bem filmadas e bem atuadas; a fotografia do filme cria um clima de suspense que é efetiva em deixar o espectador em alerta; e as cenas em que Cronenberg aposta no Body Horror, ao mostrar corpos mutilados e em decomposição, são impactantes. Porém, pelos temas tratados no filme, o que acaba saltando aos olhos é o texto, o que acaba sendo um problema já que é um dos pontos baixos do longa. 

Ao tratar sobre obsessão, perversão sexual, morte, intrigas internacionais e teorias da conspiração, o longa como um todo passa uma sensação de ser consideravelmente antiquado. Não por tratar dos assuntos de uma maneira fora do tom ou problemática (até porque isso faz parte da discussão proposta), mas por serem assuntos já muito retratados em obras cinematográficas, inclusive na carreira do próprio Cronenberg. O filme até consegue tocar de uma maneira um pouco mais relevante no tema do luto de Karsh, mas até isso acaba diluído  pela obsessão sexual que o personagem tem pelo corpo da falecida esposa. É natural que as perversões de Karsh tomem conta do filme por ser um aspecto central, no entanto o texto é tão caricato que essas bizarrices se tornam um pouco bobas: o filme a todo tempo está querendo chocar o espectador, mas acaba fazendo-o sem substância alguma. Os temas não geram reflexões aprofundadas e O Senhor dos Mortos acaba se tornando só uma curiosidade sobre perversão. 

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É curioso que um filme que quer tratar sobre as obsessões mais pervertidas dos seres humanos tenha um texto tão ingênuo em relação a como o mundo funciona, desde a tecnologia até questões geopolíticas. O uso de Inteligência Artificial; a falta de privacidade em um mundo conectado digitalmente; a atuação de ativistas ambientais; a espionagem da China sobre o ocidente; tudo é apresentado e discutido de uma maneira estereotipada e oca, fazendo com que O Senhor dos Mortos tenha a profundidade de um pires. Dentro disso, o destaque negativo é a suposta trama internacional que Cronenberg tenta construir. Parece produto das teorias das conspirações mais toscas da internet (inclusive, outro tema raso do filme: a paranoia dos teóricos). O mundo vive um caos político e social tão grande nos dias atuais que as bobeiras que o roteiro de O Senhor dos Mortos tenta retratar não entretém de maneira alguma, porque dão uma impressão de desperdício ao filme. Existiriam problemas reais que poderiam gerar boas discussões dentro dos temas que o longa discute, porém, Cronenberg prefere apostar em tramas conspiratórias irrelevantes, e por isso, desinteressantes.

O Senhor dos Mortos deixa impressão de que se fosse lançado nos anos 90 poderia ser visto como um filme audacioso, que chamaria atenção pelo bizarro, mas que agora nos anos 2020 parece que não consegue acompanhar as bizarrices do mundo real. 

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Written By
Guilherme Pedroso