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CRÍTICAS

Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes -Sensualidade, erotismo e visual exuberante em uma adaptaçao pessoal até demais de um clássico de amor impossível

Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes -Sensualidade, erotismo e visual exuberante em uma adaptaçao pessoal até demais de um clássico de amor impossível
  • Publishedfevereiro 9, 2026

O barulho cinematográfico do ano já tem data para começar: na próxima quinta-feira teremos a estreia mundial de uma nova adaptação para as telonas para o clássico literário de 1847, O Morro dos Ventos Uivantes. De autoria de Emily Brontë, a conflituosa história de amor de Cathy e Heathcliff retorna aos cinemas, com a direção de Emerald Fennell e tem como maior mérito o título original da obra, Wuthering Heights, ter seu nome grafado entre aspas, já que é praticamente uma livre adaptação do quase bicentenário livro.

Um certo dia, Mr. Earnshaw, retornando de viagem de Liverpool, traz consigo um menino órfão para sua morada no Morro dos Ventos Uivantes. Garoto tímido e chucro, logo vira uma espécie de irmão ou quase um boneco de Cathy, filha de Earnshaw, que inclusive batizou o garoto com o nome Heathcliff, seu falecido irmão. Os dois crescem como bons amigos, tendo como refúgio um penhasco com suas pedras e rochas, onde os dois fazem juras de amor e fidelidade. Mas a vida vai passando, o pai de Cathy é um jogador e alcoólatra que vive tratando mal o menino, sempre sob a vista compenetrada de Nelly, a governanta do local. Já adulta, Cathy, ambiciosa e querendo mudar de vida, acaba chamando a atenção de Edgar Linton, um vizinho próximo, rico e educado, que mora com Isabella, uma espécie de pupila dele. Heathcliff passa a ficar desesperado com a perda de Cathy, ainda mais sabendo que ela vai casar com Edgar, mas sua fuga desesperada se dá antes de ouvir da voz da amada dizendo que ela realmente o ama. Anos depois, com Cathy já casada, Heathcliff volta aos Morro dos Ventos Uivantes, dessa vez como proprietário. Volta rico, educado e com muito amargor e desejo de vingança, bagunçando de vez a vida do interior de Yorkshire.

Como disse na apresentação do texto, as aspas no título são muito bem colocadas porque Emerret Fennel, com direção e texto seu, faz quase uma livre adaptação do livro de 1847. Ela suprime e condensa personagens, muda etnias e personalidades, mas o principal: acaba com a essência de Heathcliff. Na obra original, ele é um amargo e vingativo jovem calejado pela vida, que pela sua paixão doentia por Cathy, chega a se autodestruir, anular, mas aqui não, vai de um menino maltratado para um adulto rancoroso que volta com sede de vingança, é todo dono de si, manipulador, sedutor, arrogante por vezes, bem diferente do Heathcliff do livro, um homem calejado e sofrido por amor. Cathy também tem sua personalidade mudada. De uma menina mimada, mas ao mesmo tempo generosa, quase uma bipolaridade de sentimentos, e com estilo dominadora e mandona, e muitas vezes passional, acaba no filme se entregando e virando presa fácil para Heat. O que me intriga é exatamente isso, uma mulher com a personalidade de Cathy jamais cairia nas mãos e lábia do ex-amante tão facilmente. Mas é apenas uma livre adaptação, que logicamente vai desagradar os fãs da obra e pessoas como eu, que ainda suspiram com O Morro dos Ventos Uivantes de 1939m no monumental e fiel filme de William Wyler.

Não basta ter mudado a personalidade na urgência de modernizar a trama, ainda transforma a relação entre Heathcliff e Cathy, que era quase uma impossível idealização, num filme semierotico, onde o sexo é mote principal, não só do casal, mas do local, com direito a sadomasoquismo à moda do século 18, muitas cenas quentes, mas com moderação, e nosso amigo Heathcliff praticamente vira um garanhão sedutor, cobiçado e que tem as mulheres da região (que eram poucas) na mão. Quase um filme de sexta sexy com ares de superprodução. E superprodução sim, podemos afirmar que ele é. Desde a reconstituição da época, o figurino caprichado que Cathy usa, apesar de acusado de anacronismo por alguns especialistas, as paisagens bucólicas e campestres, todas pontuadas por uma fotografia excepcional de Linus Sandgren, com planos abertos belíssimos, enquadramentos simétricos e câmeras no alto das cenas, usando cores vivas que combinam com a releitura do clássico. A trilha original de Anthony Willis é realmente bonita e ajuda a pontuar a tensão nos momentos mais densos e dramáticos do filme e a inserção de canções modernas de Charli XCX, por mais chata que seja sua voz, também combinam com o clima desejado pela diretora, com toques melancólicos e eletrônicos pontuando o drama nos confins britânicos.

Margot Robbie cumpre bem o papel de Cathy, numa atuação coerente com a nova adaptação, mas longe do brilho de outras atuações recentes. Jacob Elordi é mais dono do filme que Margot, tendo sua mutação do sofrido e calejado Heathcliff para o sedutor e sádico novo homem, mas por alguns momentos chega a beirar a canastrice. Hong Chau faz a governanta Nelly, e nessa adaptação tem mais destaque, quase como uma espécie de mediadora do embate do casal, apesar de não se entender o porquê de ter uma oriental na Inglaterra do início do século 19. Shazad Latif é Edgard, o traído marido de Cathy, mas quem tem um trabalho mais desafiador com direito a imitar cachorro e comer na mão do marido é Alison Oliver, no papel de Isabella, que de uma menina inteligente e promissora, passa a ser capacho de Heathcliff. E sobre a química do casal, enfim, visualmente por vezes funciona, os dois estão no auge do esplendor da beleza e com certeza vão provocar suspiros, mas no fundo do fundo falta uma ligação maior que possa causar lágrimas e veracidade à paixão arrebatadora e doentia dos dois.

Se fosse me perguntar se O Morro Dos Ventos Uivantes (“Wuthering Heights”, 2026) é um filme bom, eu diria que é longe de ser uma bomba, mas não me tocou. Abusam com maestria dos recursos visuais, com imagens deslumbrantes, tem um elenco afiado, mas por muitas vezes se transforma quase num 50 Tons de Cinza ambientado no interior da Inglaterra pré-vitoriana. Carece de alma, sofrimento e angústia que eram o mote do livro de Brontë. Ousa numa inversão de personalidade dos clássicos personagens, escancara a sensualidade dos protagonistas e usa algumas modernices certeiras que tendem a seduzir as novas gerações para prestigiar essa história de amor. Não posso negar que é um filme autoral, com uma visão particular de Emerald Fennell, o que por si só já é de aplaudir, ainda mais se ajudar as pessoas a procurarem as outras adaptações, e principalmente, lerem o livro, já cumprirá o seu papel.

Written By
Lauro Roth