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CRÍTICAS

Crítica – O Gênio do Crime

Crítica – O Gênio do Crime
  • Publishedmaio 7, 2026

Em 1969, um livro de estreia tornou seu autor um dos maiores sucessos da literatura infanto-juvenil brasileira. João Carlos Marinho tinha 34 anos e era um advogado quando lançou O Gênio do Crime, o primeiro de uma série das Aventuras da Turma do Gordo, onde intrépidos aventureiros adolescentes se envolviam e resolviam casos e mistérios cabulosos. Outro estreante nas telonas teve a incumbência de adaptar essa obra do final dos anos 1960 para os tempos atuais. Lipe Binder, com vasta experiência na televisão, dirige O Gênio do Crime (2026), com estreia marcada para essa quinta-feira.

Como em toda a época de Copa do Mundo, mais até que os modorrentos jogos e a cada vez mais distante relação do brasileiro com sua seleção, o álbum de figurinhas é o que faz a cabeça da gurizada. E no colégio Três Bandeiras não é diferente. Gordo é um garoto apaixonado por mistérios e detetives, tendo como ídolo o Mr. Mistério, que tem um programa do gênero na televisão. Graças à suspeita de falsificação de uma figurinha de Vinicius Júnior, o menino e seus amigos, Pituca, Edmundo e Berenice, acabam tentando descobrir quem é que está enganando a molecada com as figurinhas falsas, que pode provocar a ruína da empresa fabricante Escanteio. A turma se embrenha pelas ruas de São Paulo em busca de quem seria o gênio do crime por trás dessa falsificação.

A adaptação desse clássico de quase 60 anos por Lipe Binder é uma gratíssima e inesperada surpresa. O roteiro adaptado por Ana Reber mantém a turma e as figurinhas, mas transfere a trama para os dias de hoje. O que surpreende é que o filme se passa em 2026, mas tem toda a cara do filme dos anos 1970 e 1980, uma aventura à moda antiga, com uma gurizada sem medo e o mais incrível: sem celular. 

Chega a ser surreal ver jovens de 12 e 13 anos quase não usando o aparelho móvel e deixando de lado redes sociais, jogos e inutilidades para se meterem nas ruas do centro de São Paulo, usando ônibus e táxis (sim, táxi e nada de uber) atrás dos vilões da trama. Algo tão inusitado quanto ver um pré-adolescente sem celular, é vê-los andar livremente pelo centro de São Paulo, mas enfim, isso é que dá o charme à trama. Desde a família do Gordo, que tem pais com cara de pais da Turma da Mônica, ao ídolo juvenil, no caso um detetive da televisão, misturado a muito  futebol, figurinhas ganhas no bafo, marshmallow na fogueira, tudo tem um tom nostálgico e impensável para o mundo atual, mas que fica muito legal na tela grande como seria se o mundo ainda fosse assim. E a película também mantém características de filmes que hoje seriam problemáticas, como namoros precoces, pais estimulando o relacionamento, apelidos, bandidos armados, pessoas jogadas no ácido, um heroi que está sempre bebendo whisky, mesmo na frente da molecada (e dirigindo também), fugindo do estilo das produções de hoje que chegam a pedir desculpa se feriram alguém com alguma cena forte ou comportamento inadequado.

A turma funciona bem, os atores Francisco Galvão que é o João, vulgo Gordo, Samuel Estevam que é o craque da bola Edmundo, Bella Alelaf como Berenice, a menina do grupo, e Breno Caneto como o atrapalhado Pituca. Mesmo com atuações às vezes forçadas, a gente pega apreço pela turma esbanjando uma deliciosa química. Marcos Veras é o detetive Mr. Mistério, que faz o papel sem graça de sempre. Ailton Graça está bem como o dono da Editora Escanteio, mas é Douglas Silva como Caique, o professor de Educação Física do colégio Três Bandeiras, que tem a melhor atuação adulta do filme.

O Gênio do Crime é uma agradável e corajosa adaptação de um clássico da literatura nacional, fugindo das chatices e não-me-toques de produções atuais. Um filme que se passa em 2026 mas é puro sangue 1984, uma turma à moda antiga, uma história que envolve um caso de falsificação que mexe com uma paixão nacional, no caso as figurinhas da Copa, discute ética, ganância e desafronta. E não tem medo de pegar pesado em cenas mais violentas, mesmo envolvendo uma turma de adolescentes. E o principal do filme: além de ter uma trama bem encaixada, que instiga a gente investigar juntos com a turma, mostra como um mundo sem telas e com relacionamentos de amizade reais nos faz pensar mais, sonhar mais e viver a vida de verdade.

Written By
Lauro Roth