Crítica – O Frio da Morte – A arte de derreter um suspense promissor
Qual deve ser o limite para se submeter a qualquer abacaxi para se pagar as contas? Enfim, claro que quando a geladeira está vazia a gente faz qualquer sacrifício, mas chega a ser surpreendente Emma Thompson, que já nos proporcionou papeis inesquecíveis em filmes como O Retorno a Howards End, Vestígios do Dia e Razão e Sensibilidade ter encarado o suspense de sobrevivência Frio da Morte (Dead of Winter, 2025), uma das grandes bombas lançadas no ano até então, com direção de Brian Kirk.
Barb, após ficar viúva, tem como desejo final do falecido marido, Karl, jogar suas cinzas no lago Hilda. Nesse local, há quase 50 anos, o casal teve um dos primeiros encontros de sua vida, que tem muita simbologia na vida dos dois. Só que além de enfrentar uma nevasca daquelas, no Norte do Minnesota, Barb, ao avistar uma cabana, descobre sangue na neve, depois presencia uma menina em fuga e amarrada, perseguida pelo dono do local. Lá descobre que a jovem foi sequestrada e que pode ser a única esperança da vida dela, já que junta-se ao dono da casa uma cruel mulher que pretende executar um plano para salvar sua vida e que irá custar a vida de Leah, a menina raptada.

Se o filme tem algum mérito, é a maneira precisa como o diretor Kirk nos apresenta aquela imensidão de gelo inóspito e pouco agradável daquela região do Norte dos Estados Unidos. Usando a natureza e seus perigos como cenário perfeito, influindo inclusive no psicológico, tanto das vítimas quanto dos algozes. Mas infelizmente tudo para por aí. O filme tenta, usando de flashbacks, contar a encantadora história de amor de Barb e Karl, que teve início nos idos dos anos 1980, e mostra como ela sempre foi uma mulher forte e aprendeu muito com seu companheiro a enfrentar intempéries selvagens. Menos mal, porque só assim para acreditarmos que uma simples foresteira iria atirar tão bem, fazer armadilhas infalíveis e conseguiria fazer pontos em si mesmo depois de levar um tiro. Quase que uma super Emma Thompson enfrentando o casal, a cruel e doentia mulher da jaqueta roxa e seu marido banana, o cara da jaqueta camuflada.
Pode-se pensar que a ausência de filhos na vida do casal pode ser a justificativa de tanto zelo de Barb com a personagem de Leah, a menina sequestrada que está com o fígado cobiçado, mas é pouco verosímil que ela se arrisque tanto para tentar ajudar uma desconhecida, ainda mais em um local ermo como as redondezas do tal lago. Mas o que se passa em mais de uma hora são várias situações confusas, em um roteiro preguiçoso, recheado de pequenos absurdos, em uma história que se perde, naufraga sem rumo, torna mais fria que dá medo, com perdão do trocadilho, onde boas ideias vão ficando à deriva. Um suspense que até tenta começar bem, mas acaba caindo no lugar comum enxertando a história de vida de Barb para justificar os atos heroicos do presente e uma dupla de vilões que beiram o caricato. Emma Thompson, grande atriz que atua com dignidade, num papel físico e intenso, mas acaba se perdendo na lambança da história que vai minguando com 90 minutos de trama, assim como sua atuação que vai se apagando. Judy Greer, a vilã da jaqueta roxa, também começa bem, mas acaba beirando à psicopatia quase sobrenatural, com uma personagem que sofre um bocado mas está sempre de pé, contrariando até a condição física que motiva toda a trama do filme.

Em resumo, fica difícil acreditar qual a razão de uma atriz do quilate de Emma Thompsons se expor por pouco mais de uma hora e meia num filme tão irregular, e que mesmo com um cachê dos bons, não justifica a fadiga. O Frio da Morte é mais um daqueles filmes que vão mofar nos streamings da vida e a capacidade de ser esquecido vai ser tão grande que provavelmente será apenas uma nota de rodapé na vasta filmografia da atriz britânica, além de entrar cedo para o rankings dos piores filmes do ano que assisti em 2026.
