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CRÍTICAS

Crítica – O Drama

Crítica – O Drama
  • Publishedabril 3, 2026

Uma das frases mais famosas de Nelson Rodrigues: ”Se soubéssemos o que os outros pensam de nós, não daríamos bom dia a ninguém’’. Em suma, segredos jamais devem ser contados para evitar a fadiga, mas a personagem Emma, interpretada por Zendaya, acabou revelando algo quase irrevelável no filme O Drama (The Drama, 2026), de Kristoffer Borgli. 

Emma e Charles formam um feliz e belo casal que pretende fazer um casamento dos sonhos, afinal já vivem juntos, se amam, tem boas carreiras e querem consolidar a união em uma inesquecível festa. Em uma noite, os dois e mais um casal de amigos, que serão os  padrinhos, passaram do ponto na degustação dos vinhos do casamento e resolveram fazer um jogo em que cada um tem que citar uma coisa horrível e repulsiva que fizeram nas suas vidas. Emma acaba contando algo que literalmente tira o chão de Charlie, causa repugnância no casal de padrinhos e pode seriamente abalar o casamento dos dois.

Qualquer comentário ou crítica que revele o tal segredo antes de alguém assistir o filme pode estragar totalmente a experiência que é assistir O Drama. O diretor Kristoffer Borgli, que já tinha nos apresentado o excelente O Homem dos Sonhos, em 2023, mais uma vez toca em algumas feridas da sociedade contemporânea e deixa em aberto a questão de até que ponto conhecemos quem está do nosso lado e do quanto seus segredos e falhas do passado ainda podem ser considerados uma pecado perpétuo. Mais ou menos como a internet, que destrói reputações por postagens antigas, o drama do filme é exatamente esse, o quanto um passado pode manchar para sempre uma pessoa e qual a nossa capacidade de perdoarmos.

Mas a grande sacada do filme é que até chegar a revelação desse segredo, o diretor vai mostrando como foi construído o até então feliz relacionamento, com momentos como o primeiro encontro, a intimidade do casal, o bom humor da relação, e lógico, a preparação para as bodas, onde nada poderia dar errado. Até essa virada incrível que muda todo o rumo do filme. O que era um conto de fadas acaba virando um incômodo pesadelo, principalmente para Charlie. O filme acaba, daí em diante, causa um certo desconforto, recheado de piadas ácidas e situações absurdas, já que mesmo assim, as bodas estão com data marcada. Outro mérito do diretor que assina o roteiro é que ele não julga por completo o passado de Emma, ele vai apresentando pistas e passagens em que no fundo fica o julgamento ao critério do espectador, se algo do passado ainda pode perturbar e ser motivo de um cancelamento. Robert Pattinson está, como de praxe, excelente, mostrando toda a instabilidade emocional de Charlie pós-segredo revelado e mostra como a insegurança de ser surpreendido por quem se ama pode derrubar certezas. Zendaya é Emma, pivô da crise, dona de um passado nebuloso, que na inocência de ser franca demais, acabou virando alvo fácil para ser massacrada pelos outros, em mais uma atuação marcante. Os dois levam com maestria o filme de um relacionamento que vai desabando aos poucos e mostram em cenas marcantes, como a da sessão de fotografias, que condensa todo o desconforto do casal na frente das câmeras, no caso, da máquina fotográfica da profissional.

O Drama tem algumas questões um tanto tóxicas, dando a culpa quase total ao passado de Zendaya, que acaba sendo julgada quase que sem defesa pelo fato de ser mulher, sendo que todos os outros também tinham segredos cruéis e a falta de empatia e crença que as pessoas mudam acabam fazendo os personagens a condenarem sem dó.

Mas o filme serve como reflexão de o quanto estamos preparados para lidar com certas situações, se conhecemos bem quem dividimos nossas vidas e se temos empatia para perdoar e seguir em frente ou apenas seria melhor jamais conhecer os segredos mais íntimos de quem a gente ama, ao menos para dar bom dia sem medo…

Written By
Lauro Roth