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CRÍTICAS

Crítica – O Diabo Veste Prada 2

Crítica – O Diabo Veste Prada 2
(L-R): Miranda Priestly (Meryl Streep) and Andie Sachs (Anne Hathaway) in 20th Century Studios' THE DEVIL WEARS PRADA 2. Photo by Macall Polay. © 2025 20th Century Studios. All Rights Reserved.
  • Publishedabril 29, 2026

Em 2006 o cinema nos presenteou com uma das maiores e adoráveis vilãs do século 21. E não estou falando de uma personagem de filmes de herois ou terror e sim de uma alta executiva de uma prestigiada revista de moda. Meryl Streep entregou todo seu talento para dar vida a Miranda Priestly, temida e hiper exigente chefona da revista de moda Runway, que faz a personagem de Anne Hathaway, Andy Sachs comer o pão que o diabo amassou com seus mandos e desmandos. O filme O Diabo Veste Prada foi um sucesso, criou uma legião de fãs pelo mundo e quando parecia enfim ter se tornado um clássico cult, Hollywood, 20 anos depois, resolveu mexer nele e produzir sua continuação com a mesma equipe, elegância e time de atores do primeiro. E com direção novamente de David Frankel, O Diabo Veste Prada 2 (The Devil Wears Prada 2, 2026) é a estreia badalada da semana nos cinemas. 

20 anos depois, o mundo editorial mudou demais. Inteligência artificial, redes sociais, influenciadores digitais, redução de custos e desvalorização do jornalismo mudaram o cenário. É lógico que a Runaway, icônica revista que no papel é mais fina que um fio-dental, segundo a própria Miranda, devido à escassez de anúncios, também está em crise. Uma das soluções foi trazer de volta Andy Sachs, que perambulou nessas duas décadas por todo tipo de jornalismo, ganhando prêmios, notável por matérias e furos jornalísticos, mas sofre na pele com os colegas a falta de oportunidades e desemprego. Então, aceita dar uma nova cara à revista, desgastada por uma Miranda cada vez mais decepcionada com o mundo moderno. Para piorar, um grupo quer comprar a editora e o futuro da revista está por um fio. Miranda, Nigel e Andy têm que se adaptar a esses novos tempos, sobreviver e equacionar o mundo fashion com a velocidade e descartabilidade da mídia moderna.

Se no primeiro filme vemos uma crítica ao mundo da moda, seus excessos, assédio moral e toxicidade do ambiente, David Frankel, de volta a direção com roteiro de Aline Brosh McKenna, diminui um pouco os holofotes da elegância do mundo fashion e passa a sua crítica à sobrevivência do jornalismo em tempos de vídeos curtos e influenciadores digitais. Inclusive pega leve nos tais influencers, que aos milhares comandam no que pode viralizar, alavancar ou enterrar um produto ou carreira. Em era de geradores de conteúdo que não tem conteúdo, pessoas como Andy, Miranda e o próprio Nigel têm que se virar nos trinta para sobreviver e manter a revista de pé. Só Emily que viu que o mercado da moda não dava mais dinheiro e resolveu entrar no varejo ao trabalhar para grandes marcas. 

Mas mesmo tocando forte nesse espinhoso tema do futuro do jornalismo e de como saber se inserir no novo mundo, o filme não dispensa o glamour, continuando seu belo desfile de moda, não perdendo a elegância e a essência do primeiro filme. E também, na contramão de algumas produções atuais, utiliza cenários belos e reais, desde a sempre charmosa Nova York a locais como a clássica e elegante Milão e o paradisíaco Lago Como na Itália. Mas não tem como vermos uma continuação de um filme tão cultuado e não ficarmos felizes com a volta do quarteto de personagens do primeiro filme. 

Meryl Streep continua esbanjando talento e mesmo suavizando um pouco nas suas maldades e desdenho, continua impagável nas suas feições sutis e frases sempre ferinas. Mesmo sendo sabotada a todo tempo e com dificuldades de entrar nos novos tempos, jamais sai do salto alto, esbanjando elegância e poder, mas adaptado aos novos tempos. Anne Hathaway também nos apresenta uma Andy mais madura e confiante, mas ao contrário da aposta da ex-chefe no primeiro filme, manteve sua essência conciliadora e humana nos 20 anos que passaram e usa toda essa experiência jornalística para manter a revista em voga. Stanley Tucci, o Nigel, também continua com a mesma essência elegante, mas com cada vez mais autonomia e poder, só que ao contrário de Miranda, continua sendo um grande conselheiro e agregador. Emily Blunt, como Emily Charlton, é que deu a virada maior no filme, mãe de dois filhos e cada vez mais ambiciosa e disposta a qualquer coisa para ganhar dinheiro e viver bem.

Estruturalmente o filme lembra o primeiro, com uma sempre presente trilha sonora, tomadas que parecem videoclipes, planos curtos e montagem ágil, o que me deixou um pouco decepcionado foi a fotografia, pois muitas vezes tem cara de filme feito para a televisão, diminuindo a beleza e o impacto visual das imagens. E mesmo fazendo uma crítica a esses ligeiros tempos, o roteiro também não vai muito além da apreciação expositiva dessa era refém das redes, não atravessando sinais e nem propondo soluções. O roteiro diverte com muitas frases de impacto e seu bom humor, que provoca gargalhadas constantes, ainda mais assistindo numa sala de cinema, afinal, a alegria contagia. Um filme que, como o primeiro, ainda tem seu ar de sessão da tarde, o que não é nenhum problema!

O Diabo Veste Prada 2 cumpre muito bem seu papel, uma sequência digna, atual, que continua sabendo usar muito bem o protagonismo e carisma dos seus personagens, que sempre foram a cereja do bolo da trama, que no caso aqui, mesmo com o jornalismo em crise e a importância da mídia na moda, na corda bamba, jamais perdem a cativante elegância. 

Written By
Lauro Roth