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CRÍTICAS

Crítica – O Caso dos Estrangeiros

Crítica – O Caso dos Estrangeiros
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  • Publishedfevereiro 25, 2026

Em um mundo onde há um esforço organizado, de uma corrente de pensamento muito influente, para desumanizar imigrantes, faz-se muito necessário um combate a esse tipo de pensamento tão perigoso. E é na tentativa de humanizar refugiados de guerra que o diretor Brandt Andersen fundamenta o seu longa de estreia, O Caso dos Estrangeiros (I Was a Stranger, 2025).

Em meio à Guerra Civil Síria, as histórias de uma médica, de um poeta, de um contrabandista humano e de um capitão da guarda costeira grega se cruzam, enquanto os personagens tentam buscar alternativas para fugir da área de conflito em buscar uma vida melhor.

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O Caso dos Estrangeiros usa como trunfo os temas fortes que tem à tratar. As dificuldades passadas por pessoas que precisam fugir de suas terras natais por questão de sobrevivência é um dos assuntos mais relevantes da atualidade. O fato de o filme apresentar esses temas tão importantes de uma maneira bem digna, por si só dá força para o filme, quase que dando um propósito para a existência da produção.

No entanto, os “poréns” de O Caso dos Estrangeiros estão na execução técnica de alguns pontos, a começar pelo roteiro, escrito por Brandt Andersen. Ele escolhe contar a história dessas pessoas em linhas narrativas separadas, que em um determinado momento se cruzam entre si. Porém, Andersen não consegue fazer isso de uma maneira fluída, porque ele escolhe separar essas linhas narrativas em capítulos, fazendo com que o roteiro tenha uma dificuldade em estabelecer uma unidade, dando a impressão de, ao invés de um filme, estarmos assistindo a uma coletânea de curtas. Além disso, os ganchos nos finais de cada capítulo, que deveriam deixar o espectador na ponta da cadeira querendo saber o que irá acontecer a seguir, acaba sendo anticlimático, o que atrapalha na criação de uma conexão emocional com os personagens. 

O Caso dos Estrangeiros acaba por ter uma cinematografia e diálogos muito artificiais. A paleta de cores é a mais óbvia possível: na Síria temos aquele aspecto árido e aquela coloração amarelada tão recorrentes em filmes estadunidenses que retratam países árabes; enquanto as cenas da Grécia tem um tom azulado, para remeter a um aspecto mediterrâneo. Além disso, visualmente, o longa tenta fugir de mostrar cenas viscerais dos horrores da guerra, possivelmente para ser mais palatável e alcançar mais pessoas, além de o roteiro evitar se comprometer politicamente com qualquer ideologia que seja. O problema é que Brandt Andersen tenta compensar essa neutralidade tentando impactar emocionalmente através dos diálogos. Não seria um problema se fossem bem escritos, mas nesse caso, eles tentam forçar um sentimentalismo e acabam se tornando performáticos e piegas. Sabe quando uma frase que sai da boca de um personagem criança claramente foi escrita por um adulto? Isso, por exemplo, acontece inúmeras vezes em O Caso dos Estrangeiros

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Toda essa artificialidade faz com que os personagens sejam muito rasos, e a empatia que o público sente por eles está mais fundamentada no ambiente obviamente terrível em que eles estão inseridos do que por serem personagens multidimensionais e complexos. Talvez a única exceção seja Marwan, que tem uma complexidade um pouco maior, em uma boa atuação de Omar Sy.

Apesar dessas questões mencionadas, Brandt Andersen faz algumas escolhas interessantes, como em um plano sequência no início do longa em um dos momentos narrativos mais impactantes. Esse tipo de escolha salta aos olhos e faz com que O Caso dos Estrangeiros tenha um impacto estético notável. Em compensação, uma cena que envolve um barco tentando navegar uma tempestade é um dos pontos mais baixos do filme, sendo um momento muito importante para o roteiro, mas ao mesmo tempo, muito mal executado.

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A relevância dos temas tratados por O Caso dos Estrangeiros tenta segurar o filme na unha, porém, esbarra numa certa inexperiência natural de um diretor filmando seu primeiro longa-metragem. Um roteiro estruturado de maneira confusa, uma certa falta de coragem em ser mais explícito, e uma artificialidade não intencional acaba tirando bastante do peso de um filme que propõe discussões sociais de extrema importância. 

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Written By
Guilherme Pedroso