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CRÍTICAS

Crítica – Minha Mãe Sandra

Crítica – Minha Mãe Sandra
Divulgação
  • Publishedmarço 5, 2026

Há várias formas de educar sobre um problema de saúde pública, e um filme pode ser uma ótima oportunidade de alertar o público através da emoção. E é com o objetivo de educar sobre a depressão e alertar sobre os perigos da doença, que KK Araújo trata sobre a dor do luto em seu longa Minha Mãe Sandra (2026).

Após perder parte de sua família em um acidente, Sandra entra em um processo de luto que evolui para uma depressão. Vendo a sua mãe se isolar cada vez mais, Valentina utiliza-se de toda a sua força para incentivar que Sandra procure tratamento médico para tratar uma doença silenciosa e avassaladora. 

A diretora KK Araújo toma uma decisão estética ousada: a de utilizar a narração durante todo o filme, sem que possamos ouvir os diálogos entre os personagens em momento algum. Se por um lado essa aposta ajuda a criar um senso de isolamento em relação ao mundo externo, fazendo um paralelo com a depressão que acomete Sandra, por outro, na maior parte do longa, a narração torna o filme cansativo e frio. O texto, muitas vezes em um tom excessivamente educacional, toca em pontos importantes e tem a sua função de alerta em relação à depressão, mas o fato é que ele não é efetivo em criar uma conexão empática entre público e personagens. 

Bianca Rinaldi no papel de Valentina e Laura Lorenzetti no papel de Sandra entregam performances com impacto, porém, esvaziadas por essa desconexão causada pela escolha estética do filme. A todo momento estamos assistindo aos personagens reagindo às situações, sem ouvirmos o que estão dizendo, sem que possamos de fato nos aproximar deles. Nas cenas em que as imagens estão ilustradas pelo silêncio, essa escolha até funciona de alguma forma, porque representa como a depressão faz com que o depressivo se isole completamente do mundo externo, sofrendo quase uma privação dos sentidos. Mas nos momentos em que os planos são ilustrados por narração e principalmente por música, as cenas ficam mal ajambradas, já que a todo tempo ocorre uma desconexão involuntária entre os elementos visuais e os sonoros. 

Outro aspecto que não valoriza muito as atuações são as escolhas de planos. Muitas vezes estáticos e longe dos atores, eles tornam o filme ainda mais morno. No entanto, há planos instigantes em Minha Mãe Sandra, principalmente os que utilizam os espelhos dos apartamentos para representar a complexidade do estado mental dos personagens; ou em uma cena específica em que vemos Laura Lorenzetti em um close, mostrando toda a dor que Sandra está passando naquele momento. 

No entanto, até os planos instigantes acabam esbarrando em aspectos técnicos. A cinematografia do filme é bem abaixo do esperado, pois além dos já mencionados planos estáticos e, em alguns momentos, fora de foco, o tratamento de cor não valoriza as imagens construídas, sendo sempre muito lavadas e sem contraste. A mixagem de som de A Minha Mãe Sandra também não ajuda, com músicas tendo transições secas de uma cena para outra, estando muito altas na mixagem ou até não casando bem com o que está sendo representado em tela. A edição também é confusa, sendo muitas vezes não linear, o que, neste caso, é mais um elemento que contribui para uma falta de imersão do público nessa história. 

Minha Mãe Sandra tem boas intenções ao querer educar sobre a depressão, porém, tem seu objetivo atrapalhado por apostas estéticas pouco efetivas, por problemas técnicos aparentes e por uma frieza causada pelo resultado dessa soma de escolhas narrativas e cinematográficas. No final das contas, Minha Mãe Sandra acaba não conseguindo contar uma história poderosa e importante de maneira efetiva, e isso era imprescindível para o objetivo do longa de emocionar e educar. 

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Written By
Guilherme Pedroso