Crítica – Michael – Um longo videoclipe exaltação e simplista sobre o Rei do Pop
Confesso que a cada vez que uma cinebiografia musical de alguém muito famoso é anunciada, me dá um frio na espinha. Até porque vejo dois grandes problemas em fazer filmes de homenagem a artistas, primeiro a chapa branca que a suas vidas são contidas, até porque geralmente familiares estão envolvidos na produção; e segundo: é impossível sintetizar em duas ou três horas a vida de qualquer pessoa, imagina então de uma celebridade. Por isso sou mais afeito a filmes que pegam um recorte da carreira, ou por que não um dia na vida de tal artista? Mas eles insistem e nós assistimos não é? E a bola da vez é Michael (idem, 2026), com direção de Antoine Fuqua, que tenta, em pouco mais de duas horas, contar a vida do maior artista pop da história, Michael Jackson.
Nessa primeira parte da vida do astro (teremos uma continuação), a jornada começa em Gary, Indiana, cobrados por uma disciplina severa pelo pai Joe Jackson, os manos acabam formando os Jackson Five, onde o menino Michael acaba se destacando e virando astro nos anos 1970. Ele começa a dar seus passos solo ao lado do produtor Quincy Jones com os discos Off The Wall e o fenômeno Thriller, até a sua definitiva saída dos Jackson Five e sua carreira decolar com disco Bad, em 1987.

Como esperado, nos 127 minutos de duração, o diretor Fuqua nos apresenta um empolgante videoclipe com um rico recorte da carreira de Michael Jackson. Direção de arte esplêndida, uma música mais empolgante que a outra, um recorte do fim dos anos 1960 até 1988 da vida do Michael feito com muito esmero, e pasmem, com fidelidade cronológica. Mas se quisermos matar a saudade de um dos maiores gênios da história, o YouTube está aí para nos mostrar os melhores momentos de sua vida. Infelizmente, o roteiro de John Logan é um grande apanhando de ótima cenas de ótimos momentos da vida do cantor, muitas vezes não dando tempo para nos recompormos de um número apresentado após o outro.
Se esperarmos um filme para tentarmos entender um pouco a persona Michael Jackson, em nenhum momento temos algo de novidade. Estão ali os eternos problemas com o pai violento, ganancioso e explorador, o desprezível Joe Jackson, numa caricata interpretação do ótimo Colman Domingo. Por mais que o ator tenha se esforçado, o maniqueismo como é apresentada a relação entre o super virtuoso Michael versus o pai autoritário soa forçada demais, em cenas que beiram o constrangimento. A tal síndrome de Peter Pan do artista também é apresentada de uma maneira simplista demais, com metáforas didáticas, compra de animais e brinquedos, mas jamais é confrontada e tratada como uma nociva patologia regada a traumas mal resolvidos e pouco tratados. Em suma nada de novo no front do que já sabíamos do artista. A falta de bons coadjuvantes também acaba deixando a experiência um tanto vazia e personalista, uma aura quase de santo ao eterno menino Michael.

O sobrinho do próprio Michael, filho do mano Jermaine, faz bonito no papel do tio. Jaafar Jackson é muito parecido com o tio, desde a voz, o olhar e caprichou no trabalho de emular os passos do famoso tiozão. Mas como não é ator e o roteiro não pedia grandes esforços, o que se sobressai mesmo são os passos de dança, os trejeitos e a persona do Michael Jackson que empolga e impressiona.
As recriações dos grandes momentos da carreira impressionam e vão arrepiar até quem não é fã, como foram feitos os clipes de Beat It, a coreografia das gangues, à dança dos zumbis de Thriller e até o último show do Victory Tour dos Jacksons 1984. Os detalhes, o trabalho de edição e as antológicas músicas fazem o espectador bater os pés no chão no ritmo contagiante numa volta aos 1970 e 1980. Mas como falei antes, é muito pouco para uma carreira tão gigante, e uma prova que a carga dramática na película é um ponto baixo é que no famoso acidente num comercial da Pepsi nos anos 1980, tudo soa tão artificial e sem alma que chega a constranger quem está assistindo.

Michael é uma bela homenagem visual e musical para o rei do pop. Vai emocionar os fãs, que podem matar saudades do ídolo com os números musicais minuciosamente recriados com perfeição, e naquele amontoado de hits contagiantes fica difícil não se empolgar, mas pena que o filme é apenas isso, carece de um roteiro que explora não só o lado artístico genial do cantor, mas sim suas fraquezas, traumas e ações. Tirasse esse tom de santidade na sua persona e apresentasse (ou ao menos tentasse) quem era o verdadeiro Michael Joseph Jackson, o garoto de Gary que mudou a música pop mas nunca soube entender direito tudo isso, coisa que o filme passou longe…
