Crítica – Era Uma Vez Minha 1ª Vez
O universo adolescente é um dos mais férteis de boas histórias. Algumas obras traduzem muito bem o sentimento adolescente; outras claramente são feitas por adultos que estão tentando escrever personagens jovens, em que o produto final acaba ficando inadequado, não se conectando com o seu público-alvo. Já a escritora Thalita Rebouças consegue criar personagens que conversam com o público infanto-juvenil de uma forma profunda. Quem diz isso não sou eu, mas os números de vendas de seus livros. Para se ter uma ideia, seu último livro, Diário de uma Garota Esquisita, lançado em 2025, vendeu 25 mil cópias, o que, para o contexto do mercado literário brasileiro, é um número de sucesso. Não é de se surpreender que Era uma Vez Minha 1ª Vez (2026), filme adaptado do livro homônimo escrito por Thalita Rebouças, tenha personagens adolescentes tão reais e honestos.
Era Uma Vez Minha 1ª Vez aborda de maneira leve, madura e descomplicada as descobertas e os ritos de passagem da juventude. A história acompanha quatro amigas — Teresa, Clara, Tuca e Patty — que têm pressa e decidem criar um pacto: perder a virgindade antes da noite de formatura do colégio, apenas para descobrirem que o despertar da sexualidade acontece de forma única para cada uma.

O que primeiro chama a atenção em Era Uma Vez Minha 1ª Vez é como o filme é bem feito. Os aspectos técnicos são todos muito bem trabalhados e, com isso, desde o primeiro momento estamos completamente imersos naquela história. Não há uma única falha técnica que nos distraia do que realmente importa. A cinematografia é simples, sem muita firula, mas isso serve muito bem, porque nos ajuda a focar nas inseguranças e amizades entre essas jovens.
A construção das personagens se dá por uma junção de aspectos. Primeiro, pelo roteiro de Thalita Rebouças e João Paulo Horta, que escrevem diálogos que, com uma exceção aqui e ali, poderiam de fato sair da boca de jovens reais. Ainda no roteiro, os temas trabalhados são muito relevantes para esse universo adolescente. As inseguranças vividas pelas quatro amigas são muito comuns nessa fase da vida, principalmente entre meninas, e por isso são muito relacionáveis e importantes de serem discutidas. A direção de Claudia Castro também cumpre um papel muito importante ao direcionar o elenco para uma atuação muito natural e simpática. Além de o roteiro conseguir criar personagens muito distintos e reconhecíveis, o que faz com que nos identifiquemos com cada uma delas com muita facilidade, em nenhum momento ficamos com aquela sensação de “quem é mesmo essa pessoa?”.
E, claro, a performance do elenco em si é o fator principal para a consolidação dos personagens em tela. Em especial, as quatro protagonistas — Letícia Braga, Castorine, Lívia Silva e Duda Matte — são ótimas atrizes que entregam performances extremamente carismáticas. Além disso, elas conseguem traduzir muito bem a complexidade de suas inseguranças ao estarem em um momento de muitas descobertas e, ao mesmo tempo, de perda da inocência, uma experiência pela qual todo mundo já passou ao entrar na vida adulta. O maior destaque nesse aspecto é Letícia Braga, uma ótima atriz que é muito versátil em mostrar diversas facetas de sua personagem, Teresa, com sutileza e explosão na medida certa. Ela entrega liberdade, rebeldia, fragilidade, força, ranzinzice e bom humor, o que torna Teresa muito concreta e conectável.
Era Uma Vez Minha 1ª Vez, apesar de tratar de temas importantes, é um filme deliciosamente leve, engraçado e divertido. Para o público-alvo, eu só posso imaginar como o filme deva bater de uma forma diferente, porque conversa com o momento emocionalmente turbulento em que estão vivendo; mas, mesmo para quem já passou dessa fase da vida, há a nostalgia de uma época em que as maiores preocupações que você poderia ter eram passar de ano, pensar na festa de formatura e saber quando iria perder a virgindade (óbvio que isso dentro de um recorte social de classe média, é importante que se diga).
Era Uma Vez Minha 1ª Vez é um filme extremamente relacionável, redondinho em termos de arcos narrativos e motivações de personagens, e uma delícia para quem quer ter uma hora e meia de boa diversão.
