Crítica – Eles Vão Te Matar – Ação frenética de terrir e gore que cansa mais que empolga
Quando as ideias estão em falta, a solução, logicamente, é utilizar tudo o que já foi feito no gênero de ação e horror e juntar tudo num besteirol violento e com muito gore. Em suma, não sabe fazer medo, fazer rir, ou ao menos tentar, com tamanhos absurdos. Essa sensação de o cara assistir um filme que já foi visto mil vezes é o que me transpassa no novo filme do russo Kirill Sokolov, Eles Vão Te Matar (They Will Kill You, 2026), película que estreia nos cinemas nesta quinta-feira.
As irmãs Asia e Maria Reeves sofrem na mão de um pai abusivo e um acidente faz com que elas se separem por 10 anos. Depois de um período presa, Asia consegue um emprego num sinistro prédio em Nova York, onde irá trabalhar como empregada de um centenário local chamado Virgil. Trabalhando lá, tem a esperança que possa encontrar sua irmã. Já alojada, começa a desconfiar de certas coisas e começa a ser perseguida pelos esquisitos habitantes do local. A garota descobre que o prédio é usado para sacrifícios para o demônio e seus habitantes, em troca de imortalidade, venderam suas almas e precisam de carne fresca para rituais satânicos. Asia, então, tem que lutar em insanas batalhas para salvar sua vida e encontrar sua irmã, que também está nas mãos dos seguidores do capeta.

Sokolov não deixa a gente respirar um segundo, num filme que mistura Kill Bill e John Wick, com pitadas de filmes de adoração ao coisa ruim. Tudo isso num intenso ritmo de videogame, com lutas ensandecidas em coreografias impecáveis, com direito à muito sangue, cabeças se partindo, sangue e mais sangue (e olhos que andam sozinhos). Por uma hora e meia, e sem muitas explicações, apenas alguns flashbacks que explicam a origem das heroínas, somos submetidos a esse nonsense pastelão sanguinolento. Até aí não tem problema algum, mas por mais que o filme tenha apenas uma hora e trinta minutos, chega um momento que cansa, pois a falta de roteiro e o intenso estímulo visual, onde cada passagem parece uma fase de um jogo de um game, acabam perdendo o gás e se arrastam como os membros partidos dos tais imortais personagens de filmes. E ao contrário de outros títulos do gênero, como o recente Casamento Sangrento 2, que estreou semana passada, esse passa longe de provocar risadas, apesar do absurdo das situações. E muito menos medo, nem a tal trama que mistura sacrifícios, venda de almas, contratos com o coisa ruim e vida eterna, tudo isso num ambiente claustrofóbico e que tinha tudo para ser amedrontador, pouco funciona.

Até a crítica social, em que os ricos são porcos satanistas que servem para manipular, sacrificar e explorar as camadas mais pobres, e que a personagem Asia serviria mais ou menos como uma salvação para essa desigualdade, passam batido no mar de sangue e membros partidos do filme, onde a que melhor se sai mesmo é a atriz Zazie Beetz, que com uma atuação física e ensaiada, leva o quanto consegue o balé visual de intenso gore, mas de vazio total de texto e diversão. Patricia Arquette, que vive a governanta do prédio Virgil, e Heather Graham, sempre perdendo a cabeça, também fazem parte do elenco.
Eles Vão Te Matar é apenas mais um caso da ausência de ideias, onde juntar pedaços de tudo o que já foi feito, pegar um aparelho mixer e chacoalhar é a solução mais conservadora para errar menos. Com tanta referência, o público de terror, terrir e de ação parece satisfeito com o mais do mesmo. Um retrato de um mundo em que quanto mais imagens descontroladas é melhor, edição que não dá sossego, caos, roteiro sendo um mero detalhe (pra que, né?), pseudo-humor e violência gratuita em tom de farsa são o combustível perfeito para um filme, que mesmo assim, tem tudo para ser facilmente esquecido e não é nem culpa dele, ele até é bem feito, mas tem tudo para ficar no limbo da história ou como no tempo do VHS, aquele que ficava no canto da prateleira da locadora e às vezes por sorte era locado e com um cérebro no modo Homer até divertia.
