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CRÍTICAS

Crítica – Dia D

Crítica – Dia D
  • Publishedjunho 10, 2026

Uma das grandes dúvidas que tenho sobre a sociedade é qual seria o impacto, no ano de 2026, se soubéssemos, com provas cabais, que existissem seres alienígenas. Em um mundo tão ególatra, individualista e que todos somos influencers, o impacto, ao meu ver, seria muito diferente se ocorresse antes dos anos 2000. Um mundo onde a indiferença prevalece e o umbigo é o que nos norteia, talvez os tais “marcianos” só mexeriam com a gente se tivessem uma conta no Tik Tok. Mas quem sabe muito mexer com nossa imaginação e com o universo é o Steven Spielberg, que volta a um tema que já nos emocionou muito em outras obras, com O Dia D (Disclosure Day, 2026), com a premissa de como seria o tal dia que descobríssemos que não estamos sozinhos.

Daniel Kellner, um gênio em segurança cibernética, está em apuros. Depois de anos trabalhando para uma ONG chamada Wardex, acaba roubando segredos que podem mudar o mundo e é perseguido junto com sua namorada Jane por Noah, chefe da corporação, a fim de que não revele os arquivos para o mundo. Em paralelo, Margareth, uma apresentadora responsável pela meteorologia de uma rede de TV no Kansas, ao vivo, tem um colapso e começa a balbuciar palavras estranhas. E depois desse fato descobre que tem o poder de ler a mente de quem cruza seu caminho. Sabendo que tanto Daniel quanto Margareth são especiais, Hugo, um desertor da Wardex e defensor de um mundo sem segredos da ufologia, sabe que os dois têm algo em comum e precisa uni-los antes que Noah os encontre, já que os dois juntos podem mudar para sempre a história da humanidade.

É sempre uma satisfação assistir algo novo do Spielberg. Talvez o cineasta mais icônico da história, que sempre soube dosar entretenimento, conteúdo e qualidade cinematográfica, volta com força mais uma vez nos forçando a olharmos para cima. Com o célebre Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de 1977, e o sublime E.T., Spielberg nos fez mexer com nossa imaginação de uma convivência pacífica com alienígenas. Se no primeiro filme fizemos contatos e algumas pessoas forma explorar e conviver com eles, no segundo ele mostrou como qualquer criatura pode ser amada e merece respeito, mas que o mundo dela ainda é sua casa, em Dia D ele expõe um mundo em colapso que às vezes apenas um chacoalhão e sinais de fora podem ser a salvação.

No mais maduro dos seus filmes com essa temática, nos apresenta uma intrincada trama, com uma corporação detentora da “verdade”, um grupo que a enfrenta quase que em frequência de guerrilha e um mundo em pé de guerra. Mas esse conflito mundial é brilhantemente colocado de lado em prol da história de duas pessoas comuns. O roteiro de David Koepp tem aquela atmosfera que só Spielberg sabe desenvolver, que todo os mistérios e traumas pessoais tem ligação com o passado e com uma reflexão que devemos voltar para onde tudo começou. Tanto Margareth quanto Daniel têm na infância o cerne de tudo que estão passando no momento. Daniel desenvolveu um dom matemático e facilidade com códigos na infância de maneira abrupta e Margareth tem um evento ocorrido em 1996 que mudou a sua vida, mesmo não se lembrando de nada – e as respostas estão no passado. A maneira como a trama é conduzida, os segredos e o embate entre Hugo e Noah nos prende de uma maneira incrível na cadeira, onde cada detalhe, cada frase e imagem podem ser a chave do segredo. Até as oníricas imagens envolvendo cervos e raposas com qualquer outro diretor soaria clichê e caricata, mas ligando aos animais uma conexão alienígena, através de imagens e fantasia sabem convencer e nos encantam.

Chega a ser covardia debater a qualidade técnica das imagens do gênio, só ele consegue, com suas tomadas precisas, seus planos sequências privilegiados e a condução de cenas de ação, como as perseguições de automóveis, o caminhão de bombeiro que fica invisível e uma das passagens que com certeza entrarão na história do cinema, que é a do trem se envolvendo com um carro, que é Spielberg até os ossos. Poucos sabem construir imagens que ainda encantam e causam deslumbramento no espectador e Steven nasceu para isso. E ainda contando com mais uma trilha super inspirada do seu escudeiro John Williams, com 94 anos compondo maravilhas, ainda que casam incrivelmente bem com a fotografia sempre marcante de Janusz Kaminski.

Temas como família e infância, presença constante na sua obra, estão ali no meio dessa guerra de informações e a busca da verdade. E até a religiosidade que talvez seria o dogma mais atingido se um dia tivéssemos a revelação de vida alien é tratado com respeito na presença da Madre superiora, que faz questão de dizer o Universo é mais que nosso próprio planeta e mais uma vez faz questão de nos alertar que a ameaça da Terra vem do próprio nativo, leia-se o homem, que continua em conflitos e guerras estúpidas e que o vem do céu pode ser a esperança de um mundo melhor, ou apenas uma constatação que não estarmos sós poderia ser nossa salvação. Emily Blunt está fantástica como Margaret Fairchild, a garota do tempo que tem sua vida bagunçada ao vivo e precisa buscar respostas, Josh O’Connor, como Daniel, se não brilha tanto como Emily, não deixa a desejar como o gênio da matemática atormentado por códigos e medo de ser pego pela corporação. O embate entre Colin Firth como Noah e Colman Domingo como Hugo é pontuado por grandes atuações dos dois, antagonistas, mas não inimigos, cada um com sua crença e responsabilidade para saber se o mundo está preparado ou não para a verdade. Eve Hewson é Jane, a ex-noviça que serve como o contraponto da fé cristã num mundo à beira de uma revelação. 

Mídia, religião, corporações, governo e informática são os pontos cruciais para o tal dia D e estão representados por pessoas num microcosmo montado por Spielberg para representar a complexidade de todo esse cenário. Talvez o filme peque demais em apostar em voltas desnecessárias, detalhes que não somam muito para a trama e por vezes parece confuso, mas nunca desinteressante, confesso que em duas horas tudo poderia ser resolvido, mas como vou discutir com um cara que fez Tubarão, Indiana Jones, E.T., Parque dos Dinossauros, A Lista de Schindler, Contatos Imediatos, O Resgate do Soldado Ryan e muitas outras obras-primas.

O Dia D é um Spielberg maduro, que não cai em armadilhas fáceis de produções recentes com humor sem graça e nonsense dos anos 2020, não deixa sua marca de lado com concessão e  provoca reflexão, mexe com nossos afetos, família, dogmas, pede respeito e o principal: jamais  deixa o espetáculo de lado. A tradição de mostrar grandes imagens, encantar o espectador, fazer de uma sessão de cinema  uma experiência para a vida e mexer com nossa fantasia, medos e certezas. Além de ser um exercício de “se” que todos nós já questionamos um dia: o que mudaria com nossa existência se descobríssemos que alienígenas vêm à Terra faz muito tempo? Eu acho que a primeira coisa, se os víssemos, não seria olhar nos olhos e sim filmar para postar nas redes, no narcisismo típico dos anos 2026. Spielberg vai mais além e fecha sua trilogia alienígena em grande estilo, mais uma vez mostrando que criaturas perigosas nascem todos os dias não em planetas distantes, mas nesse planeta azul que de tão insano, não merecia a visita pacífica e cordial dos tais extraterrestres. 

Written By
Lauro Roth