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CRÍTICAS

Crítica – Davi: Nasce um Rei

Crítica – Davi: Nasce um Rei
Créditos: divulgação
  • Publishedjaneiro 11, 2026

A produtora Angel Studios tem como objetivo disseminar os ideais da fé cristã, especialmente entre o público infantil, e para isso, produziu uma animação muito honesta, ainda que não seja perfeita. Davi: Nasce um Rei (David, 2025) nasce com o objetivo de contar a história bíblica do Rei Davi para uma nova geração.

Quando o gigante Golias surge para intimidar o povo de Israel, um jovem pastor chamado Davi é quem decide enfrentar o impossível. Enquanto tenta encontrar forças para cumprir o seu destino apontado por Deus, Davi embarca em uma jornada que culmina em uma batalha por sua identidade e pela sua fé.

Créditos; divulgação

Davi: Nasce um Rei é uma animação tecnicamente muito bem acabada. É evidente que a equipe dos diretores Brent Dawes e Phil Cunningham trabalharam com muito esmero e carinho para entregar uma obra que se sustentasse para além dos ideais religiosos por trás do longa. Com um design de produção muito bem resolvido, o filme entrega uma estética que salta aos olhos pela sua beleza. Os traços da animação criam personagens visualmente marcantes e com um carisma visual notável. 

No entanto, um aspecto negativo sobre o design dos personagens é o fato dos dois vilões filisteus, Golias e Aquis, serem retratados como homens com traços e trejeitos femininos, a ponto de usarem maquiagem nos olhos, por exemplo. O contexto importa, e por Davi: Nasce um Rei ser um longa abertamente cristão, ao apostar na dualidade de bonzinhos honrados serem retratados por homens viris e os pecadores malvados por homens afeminados, o longa pode corroborar com uma visão homofóbica que uma parte específica da religião cristã prega, tenha sido essa a intenção ou não.

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Se o aspecto gráfico entrega um bom resultado, o mesmo não pode ser dito do aspecto musical. Apesar de tomarem um tempo de tela considerável, as canções acabam se tornando um tanto genéricas, mesmo que sejam efetivas dentro de seu propósito de disseminar uma mensagem. Porém, o grande problema das músicas é narrativo: as cenas musicais desaceleram o ritmo do longa, tornando-o um pouco cansativo em vários momentos. O que acaba sendo uma oportunidade perdida, porque faz sentido a história do Rei Davi, um músico, ser contada através de um musical, no entanto a execução dessa ideia não foi das melhores. 

Se Davi: Nasce um Rei gasta um tempo considerável em cenas musicais, em outras o filme resolve seus clímaxes de forma apressada, como na batalha entre o exército de Israel e os Filisteus. Em outro momento, na batalha entre Davi e Golias, por ser um ponto tão central da história, era de se esperar um pouco mais de ação, não por parte de Davi, que é construído muito consistentemente como um pastor que evita recorrer à violência sempre que possível, mas sim por parte de Golias. No final das contas, ao construir a cena da batalha 90% calcada em diálogo entre os dois rivais, o perigo fica mais caracterizado por ameaças do que por ações por parte do gigante.

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Inclusive, os diálogos do filme também não são os pontos mais altos no roteiro de Dawes e Cunningham. Excessivamente quadrados e com tentativas de comédia pouco criativas, as linhas de diálogos acabam se tornando apenas explicações dos estados emocionais dos personagens e declamações dos ideais cristãos, tornando-se pouco envolventes e não conseguindo contribuir efetivamente para a construção de relações profundas entre os personagens. 

Já a construção de arcos narrativos é bem desenvolvida pelo roteiro. Especialmente o arco de Davi, torna-o muito consistente e com uma evolução muito bem definida narrativamente. Dawes e Cunningham conseguem levar o personagem de um ponto A a um ponto B emocional de uma maneira empática, e que gera uma conexão real com o público. A todo momento, nós conseguimos entender as inseguranças e as motivações internas de Davi para superar seus medos e obstáculos. 

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Davi: Nasce um Rei é uma animação com a intenção clara de disseminar uma narrativa específica, e não esconde isso em momento nenhum. E para embalar o seu discurso, cria um filme tecnicamente muito bem-feito, ainda que um pouco raso e não tão bem resolvido se olharmos para algumas escolhas do roteiro em si. Ele é o que é, e de uma maneira bem competente.

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Written By
Guilherme Pedroso