Crítica – Coração Partido
Coração Partido (Tvoyo serdtse budet razbito, 2026) não é o que parece em muitos momentos. Se em uma cena você pode estar rindo da relação inusitada entre os dois protagonistas, na próxima você estará desesperado, preocupado com a integridade física de uma personagem. Essa dicotomia torna o filme memorável, mas não necessariamente de uma maneira positiva.
O longa acompanha Polina, uma adolescente que tenta recomeçar a vida em uma nova cidade, mas logo se torna alvo de bullying na escola. Tudo muda quando Bars, o aluno mais temido e misterioso do colégio, oferece proteção em troca de que ela siga suas próprias regras. O que começa como uma amizade de conveniência evolui para uma relação intensa e emocionalmente complexa.

A verdade é que Coração Partido possui vários problemas. O maior deles, entretanto, é a variação brusca de seu tom. O filme, que tem totalmente a cara de romance adolescente, a todo momento parece que quer ser mais profundo do que realmente consegue. Para isso, Coração Partido trafega de uma cena fofinha de namorados levemente disfuncionais para uma cena em que a protagonista está sendo enforcada pelo padrasto (sim, não é exagero). Abuso parental que ameaça virar feminicídio é um assunto de extrema importância; porém, utilizar esse tema apenas como uma forma de chocar em um filme de romance adolescente tira muito do peso e da gravidade do que está sendo retratado. Até porque o tema não é exatamente discutido e aprofundado, apenas existe para que no final simplesmente desapareça, quando, narrativamente, for conveniente que isso aconteça.
Quando o filme trata sobre bullying, assunto que ao menos possui um fechamento mais conclusivo dentro da narrativa, Coração Partido esbarra nos mesmos problemas: o tom sobe muito rápido e de maneira muito intensa. As cenas em que Polina é vítima de suas colegas de sala são extremamente pesadas e desconfortáveis, o que acaba pesando o clima sem agregar ao debate das problemáticas daquilo que está ocorrendo em tela. É o desconforto apenas pelo desconforto, e que ainda por cima não combina com o resto do que está sendo contado.

Talvez esse aspecto não causasse tanto incômodo se o filme fosse um primor técnico, mas a verdade é que não é. A fotografia é a mais cafona possível, parecendo que todo take saiu de um videoclipe com poucos objetivos artísticos; o roteiro é cheio de clichês que acabam existindo em um ambiente muito estranho por conta de seu problema de tom; e a maioria dos conflitos narrativos que são abertos ou não são fechados de maneira satisfatória, ou simplesmente são esquecidos. Para não dar spoilers, não vou nem entrar em detalhes sobre as reviravoltas do final do longa, mas o que posso dizer é que são absolutamente mal construídas. Já sobre as atuações, talvez seja o que mais funcione em Coração Partido. Não que as performances sejam um primor, mas todo o elenco de protagonistas possui certo carisma que carrega boa parte da graça dos melhores momentos do longa.
Há sim um mérito em tentar fazer algo diferente e um pouco mais adulto para o gênero, porque, de fato, Coração Partido não é um filme esquecível, e talvez seja melhor para ele que não seja. No entanto, não temos como ignorar que a má execução ao colocar para discussão temas tão sérios e relevantes acaba fazendo de Coração Partido um filme incômodo de uma forma não reflexiva, e incômodo sem reflexão acaba nos entregando apenas um choque vazio.
