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CRÍTICAS

Crítica – Código Preto

Crítica – Código Preto
  • Publicado em: março 13, 2025

Talvez por ser um dos diretores que mais filmaram nos últimos 40 anos, o estadunidense Steven Soderbergh, devido à demasia de produções e por abraçar diversos gêneros num somatório de obras, a irregularidade é sua marca. Eu sou um dos que adoram Sexo, Mentiras e Video Tape (1989) e até O Estranho (1999), mas não consigo engolir com mesmo entusiasmo seus sucessos comerciais como Traffic (2000) e Onze Homens e um Segredo (2001). Erin Brockovich (2000) talvez seja um dos caminhos do meio do realizador, aliando seu talento para contar fortes histórias com diálogos robustos e um tino comercial. Nessa semana, Steven nos apresenta seu filme de espiões e agentes ingleses, esbanjando classe e galhardia. Código Preto (Black Bag, 2025) é uma das estreias da semana nos cinemas brasileiros. 

Tendo Londres como cenário, somos apresentados a um casal de agentes ingleses, Kathryn e George. Os dois vivem numa bela e confortável casa, onde tem seus problemas, como qualquer casal normal. Um dia, George acaba desconfiando que um artefato chamado Severus, que tem poder de manipular códigos nucleares, pode causar um colapso atômico e pode ter caído em mãos erradas por traição de um agente. George e sua esposa, então, convidam quatro colegas para um jantar em sua casa para tentar descobrir quem pode ser o traidor. Mas ele acaba ficando mesmo desconfiado de sua esposa, que com viagens misteriosas e contas suspeitas, pode estar envolvida. O agente secreto tem que correr contra o tempo para evitar que a Rússia não sofra um ataque.

Soderbergh nos apresenta um thriller de espionagem internacional com agentes elegantes, com muita classe e que transbordam erotismo. Mas quem espera um filme empolgante com reviravoltas, ação e locações à la James Bond, sinto em informar, mas Código Preto é o filme errado. Conhecido por saber conduzir diálogos inteligentes, trabalhando a câmera com closes penetrantes nos seus personagens, parece que nesse filme o diretor apelou pro humor e o pastiche. Muito sexo e conversa fiada nos dão a impressão que a vida dos agentes secretos é uma eterna terapia de casal. Desde o casal principal, Kathryn e George, ela sempre num pedestal de arrogância despejando hostilidade e ele numa eterna cara de paisagem, numa falta de química gritante, aos coadjuvantes Clarissa, Zoe, Fred e Rege, num eterno jogo de traição e supostos hormônios à flor da pele, supostos porque o filme jamais se entrega para o erotismo explícito.

Não posso negar que o filme começou bem, o jantar à luz de velas dos seis e seus jogos verbais, em que se expõem cara a cara é bem interessante, mas pena que no decorrer da semana (o filme se passa numa semana), mas o verdadeiro mote da trama é mal trabalhando, parece que o tal pen drive que pode levar o mundo para os ares é apenas um detalhe sem importância e ao menos no segundo do ato do filme ele se perde, beirando à monotonia, com colóquios modorrentos e passividade dos envolvidos na trama.

Tecnicamente é um filme bem filmado, com uma fotografia em demasia escura nos embates na casa do casal misturados com a clara e asséptica nas dependências do serviço secreto, provocando um contraste de ambientes importante para a trama. E é claro, os closes precisos de Steven, focando os rostos enigmáticos dos personagens é outro atrativo da película, mas realmente não é suficiente para criar a tensão almejada. Cate Blanchett sempre elegante, conduz de maneira fria com seu ar blasé, forçando demais no sotaque inglês, sendo mais caricata que cativante. Michael Fassbinder também passa o filme todo na dele, com uma atuação discreta, talvez querendo fugir do estereótipo clássico do agente charmoso e invencível. Falando em agente, ainda temos uma homenagem ao Pierce Brosnan, nosso eterno 007, que interpreta um divertido chefão do sistema de espionagem. Do grupo dos quatro agentes coadjuvantes, destaco Marisa Abela como a divertida e humana Clarissa.

 Se o roteiro de David Koepp começou bem, empaca no segundo ato e no terceiro que se perde de vez. Em quase como uma homenagem à Agatha Christie, toda a trama é explicada ao espectador e aos personagens, em flashbacks excessivamente didáticos. Uma resolução sem sal de uma trama que poderia ser muito bem explorada mas acaba mal elaborada. 

Código Preto, talvez  por explorar mais a vida cotidiana e realista de agentes secretos com um humor, por ora sarcástico britânico e outras vezes sem graça mesmo, carrega certo mérito de fugir da mesmice, mas peca em se concentrar na sexualidade  dos personagens, seus problemas de relacionamentos e puladas de cerca, deixando como segundo plano o que mais zelamos num filme de espionagem: salvar de uma vez o mundo!

Written By
Lauro Roth