Crítica – Cinco da Tarde
A dor do luto pode se manifestar de muitas formas: por vezes, pode ser barulhenta e devastadora; por outras, silenciosa e invisível. No entanto, em todos os casos, a dor sempre estará presente, como se fosse uma sombra do enlutado. Cinco da Tarde (2023), dirigido por Eduardo Nunes e lançado comercialmente nos cinemas na semana passada, representa a sombra do luto em duas jovens.
Com a morte da avó, Anabel aproxima-se de Meiko, uma jovem e tímida vizinha. Aos poucos, essa singela aproximação mostra-se reveladora de sentimentos escondidos e semelhanças improváveis. Voltando ao apartamento da avó, Anabel encontra uma estranha presença que a faz compreender melhor o momento que está vivendo.

Cinco da Tarde é do tipo de filme que melhora após os créditos finais, por ser um longa de difícil digestão enquanto está sendo projetado. É um filme super lento, estático e silencioso. Só que todas essas escolhas fazem muito sentido. A forma como Anabel lida com a sua dor é contida; é como se ela reservasse toda a intensidade do que está passando para o interior de sua própria alma. Então, o filme não poderia ser explosivo, porque Anabel também não é. Tudo o que ela sente está expresso nas entrelinhas, assim como todo o desconforto causado pelo filme está na forma e no subtexto. Cinco da Tarde, com sua linguagem, consegue transmitir a nós não só o que Anabel está sentindo, mas como ela está vivendo o seu luto.
Bárbara Luz (no papel de Anabel) e Sharon Cho (no papel de Meiko) carregam o filme com firmeza e elegância. Os papéis das duas são muito difíceis, porque ambas precisam demonstrar o que estão sentindo por meio de expressões escondidas, precisando transmitir ao público o que Anabel e Meiko não querem demonstrar uma para a outra. Tanto Bárbara quanto Sharon fazem um ótimo trabalho ao segurar cada cena com uma presença sutil e não verbal.

No entanto, o grande trunfo de Cinco da Tarde é sua cinematografia. Cada take é um espetáculo em preto e branco que comunica, com muita elegância, toda a dor e o amor que permeiam o filme. A fotografia de Mauro Pinheiro Jr. utiliza luzes e sombras para emoldurar Anabel e Meiko e colocá-las em um ambiente quase etéreo. É como se Cinco da Tarde se passasse em um sonho melancólico, já que Anabel e Meiko experienciam a vida como se ela fosse uma esteira em rotação baixa. Porém, não é tão simples quanto isso, porque, ao mesmo tempo em que vivenciam esse estado letárgico de luto, as protagonistas estão descobrindo entre elas uma relação completamente nova e excitante. Esse contraste é exemplificado na cena em que as duas decidem passar a madrugada ouvindo música: Anabel e Meiko dançando ao som de “Ska”, dos Paralamas do Sucesso, compõem uma cena linda, contrastada de maneira enérgica ao ritmo lento e silencioso do resto do filme. Essa dualidade fecha o ciclo de um momento de vida complexo daquelas personagens.
Cinco da Tarde é um filme de grande beleza, seja estética, seja textual. Não é um filme de fácil digestão, e nem poderia ser. É um longa que trata com muita dignidade de dores pelas quais todos nós iremos passar (ou já passamos) em nossas vidas. E, no final das contas, a arte chega ao seu ápice quando consegue discutir temas humanos com maestria.
