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CRÍTICAS

Crítica – Cara de um Focinho de Outro – beleza visual sem molho emocional

Crítica – Cara de um Focinho de Outro – beleza visual sem molho emocional
  • Publishedmarço 4, 2026

Sempre quando temos uma estreia de uma nova animação da Pixar, logicamente a expectativa gerada é muito grande. E juntamente com a Disney então, a régua exigida para um bom filme tem uma dimensão muito maior. E quando essa animação inverte um pouco a lógica dos roteiros e são os humanos que através da tecnologia se comunicam com os animais, ao invés de um mundo fechado de animais falantes, estamos com uma novidade à vista. Falo do filme Cara de um Focinho de Outro (Hoppers, 2026) que estreia nessa semana,com direção de Daniel Chong, o novo e aguardado lançamento da Pixar-Disney.

Mabel desde criança era amante e defensora dos animais. Tinha como inspiração sua avó, que morava em um local que era um santuário da natureza, onde castores habitavam com suas incríveis represas naturais. Passado alguns anos, Mabel é uma estudante universitária e ativista ambiental que vive em conflito com o prefeito Jerry. Pensando em reeleição, ele pretende passar por cima de recantos ecológicos e construir uma moderna estrada. Mabel um dia descobre um projeto da faculdade que transfere a sua mente para um robô, no caso aqui, um exemplar perfeito de castor. A menina, então na pele de castor cibernético, acaba se envolvendo com os animais da floresta, descobrindo que estão cada vez mais acuados com o progresso e que se reuniram num local isolado, um paraíso utópico, onde vivem em harmonia (ou quase) e tem como rei um simpático e fofo castor, o rei George. Mas no mundo animal também temos uma ambiciosa lagarta rainha dos insetos que tem planos de vingança contra os seres humanos e Mabel precisa enfrentar tanto a ganância do prefeito Jerry quanto a raiva dos animais acuados.

Falar em qualidade e esmero técnico em filme da Pixar é chover no molhado. Mais uma vez sob a tutela de Daniel Chong, que dirige e escreveu a história, o cara que criou Os Ursos Sem Curso, no Cartoon Network, temos um espetáculo visual belíssimo, com animais dando o ar da graça, alguns extremamente fofos, outros perigosos, mas todos construídos com o esmero e o padrão esperado. O que talvez canse na história de cunho ambiental é que a personagem humana, a Mabel, é uma adolescente cheia de clichês da época, com suas causas impossíveis e protestos vazios na construção dos personagens. E por mais que o filme use mais uma vez como bengala, praxe nas produções da Pixar, o sentimentalismo familiar e a ligação entre personagem, no caso entre Mabel e o castor George, o filme não tem aquela pegada emocionante de outras produções, não convence nem com o relacionamento que é, contado de maneira apressada e vaga entre a menina e a avó e por mais que o castor George seja carismático e humano, a tal ligação com Mabel não conseguiu me tocar. Inclusive a menina é um personagem fraquinho e com pouco potencial de ser um clássico das animações.

O filme acerta no tom de trazer a ficção científica para a pauta. A criação da comunicação entre animais e seres humanos através do projeto da professora em que a mente é interligada num robô é uma tirada ótima e até plausível para a história e a pegada humorística do filme realmente não poupa ninguém, mostrando com realismo as força do mais forte no mundo animal e algumas piadas e situações até são digamos assim, pesadas, para um público sub-10, por exemplo, mas nada que impeça da criançada se divertir. 

Cara de um Focinho de Outro não decepciona, mas também é longe de ser memorável, o filme aposta no padrão refinado da empresa de animação, num humor ligeiro e numa crítica ambiental e os desmandos do progresso x preservação, mas tudo feito com muitos clichês e pouca emoção, que é um dos pontos fortes das produções da Pixar. A falta de uma personagem forte e uma ligação verdadeira e profunda entre os personagens acaba deixando o filme opaco demais, onde os animais e suas caracterizações que comandam o espetáculo e o personagem castor rei George é que vale o filme, com sua ingenuidade, fofura e otimismo. Uma produção  louvável, mas longe dos áureos tempos das animações incríveis da empresa de animação do abajur como símbolo.

Written By
Lauro Roth