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CRÍTICAS

Crítica – Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra

Crítica – Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
Divulgação
  • Publishedmaio 6, 2026

Os perigos da inteligência artificial, os efeitos causados pelo excesso de telas na sociedade, e a alienação promovida pelos conteúdos das redes sociais… Essa poderia ser a abertura de uma matéria do Jornal Hoje da Rede Globo, mas são apenas os temas de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don’t Die, 2025), nova comédia de ficção científica estrelada por Sam Rockwell, Zazie Beetz, Juno Temple, Michael Peña e grande elenco. 

Um viajante do tempo interrompe o jantar de frequentadores de uma lanchonete em Los Angeles, dizendo vir de um futuro distópico em que a inteligência artificial dominou o mundo. Ele informa que entre os clientes da lanchonete há a combinação correta de revolucionários que poderá salvar o mundo, mas como ele não sabe qual é a combinação exata, já é a 117ª vez que o homem volta para aquela exata noite com o objetivo de tentar formar a equipe que irá consertar o futuro. Desta vez, ele forma um grupo com Ingrid, Susan, Janet, Mark, Scott, e Marie, ilustres pessoas comuns que tentarão sobreviver à polícia, mercenários e à uma inteligência artificial maligna.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra chama a atenção por ser absolutamente instigante na apresentação de seus temas e de sua trama. A cena inicial na lanchonete é eletrizante e engraçada. O diretor Gore Verbinski, utilizando o roteiro escrito por Matthew Robinson, consegue nos fisgar e vender uma história com o potencial de ser extraordinária e divertida. O tom cômico do filme é muito bem acertado durante todo o longa, porque ele dá uma quebrada em alguns temas pesados discutidos pela história, além de amenizar algumas potenciais complexidades de roteiro ligadas ao aspecto da ficção científica. E nesse ponto é importante destacar as performances do elenco principal: Haley Lu Richardson e Juno Temple conseguem navegar muito bem entre o drama e a comédia, enquanto Michael Peña, Zazie Beetz e Asim Chaudhry são hilários. Amarrando e explicando todos os diferentes elementos do filme, sejam os diferentes personagens, seja a mitologia criada pelo plano de fundo desta história, está Sam Rockwell, entregando uma já esperada performance excêntrica e carismática, que faz com que as exposições do texto funcionem muito bem saindo de sua boca. 

O filme patina um pouco, entretanto, em sua estrutura narrativa e em como tenta desenvolver os temas tão bem apresentados. A estrutura narrativa de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é composta por uma linha no presente que é interrompida por flashbacks de cada personagem, que contextualizam tanto as motivações deles quanto o universo em que aquela história se passa. Esses flashbacks acabam travando o ritmo do filme de maneira muito incômoda, porque além de serem interrupções no que realmente interessa no longa, que é a história de um homem excêntrico do futuro liderando um grupo de heróis improváveis, são nesses flashbacks em que os principais temas do filme (já citados no primeiro parágrafo desse texto) são desenvolvidos – ou mal-desenvolvidos para ser mais exato. O roteirista, junto com o diretor, pegaram os maiores estereótipos das problemáticas ligadas à inteligência artificial e consumo de redes sociais, jogaram na trama de maneira superficial e não se deram ao trabalho de aprofundar as discussões. Essas problemáticas são muito ricas em potencial e de extrema importância, mas a forma com que Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra as discute é ingênua e obtusa.

Além de serem tratados de maneira ingênua, durante os flashbacks os mesmos temas ficam andando em círculos. Então se primeiro vimos como o celular emburrece as pessoas, no flashback seguinte vemos como o VR emburrece as pessoas, e no próximo como a inteligência artificial emburrece as pessoas. É o mesmo argumento sendo feito exaustivamente, só alterando o dispositivo. Quando o roteiro decide mudar um pouco o assunto, querendo discutir tiroteio em massa nas escolas estadunidenses, mais uma vez apresenta uma discussão rasa e óbvia. Analisando o longa como um todo, a impressão que dá é que essa superficialidade é intencional para deixar Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra o mais palatável possível à todos os públicos. É como se nos dissesse o tempo todo: “reflita sobre esses problemas que afligem tão fortemente a sociedade! Mas não precisa refletir muito não, o importante é se divertir”.

No entanto, apesar de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra parecer tratar de seus temas como uma matéria de jornal da tarde trataria, o filme ainda é muito divertido, seja por ser genuinamente engraçado, seja por ter uma estranheza irresistível proveniente de seus aspectos de ficção especulativa. Assim como almoçar durante a tarde assistindo ao Jornal Hoje, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é um filme divertido e delicioso, ainda que raso.

Written By
Guilherme Pedroso