Crítica – Antártida
Whodunit é um gênero em que o foco principal da história é a resolução do enigma de quem cometeu um crime. Quem conhece a obra de Agatha Christie sabe que muitas dessas histórias são protagonizadas por um grupo de pessoas isoladas em um lugar fechado. Desta forma, quando o crime acontece, ele necessariamente foi cometido por um dos integrantes do grupo, gerando uma tensão pelo fato de todos serem potenciais assassinos. Antártida (2026), dirigido por Bruno Safadi e roteirizado por Claudia Jouvin, é sem dúvida um whodunit moderno com um background bem interessante.
Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de uma violência. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos – inclusive as patentes mais altas: o Comandante Barros (Antonio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos). A subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão), então, assume a difícil missão de investigar o ocorrido, enquanto as mulheres da estação – Inês, Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena) – se sentem acuadas e precisam se unir para enfrentar o medo, o silêncio e a violência.

Antártida toma escolhas um pouco apressadas em termos de montagem e cinematografia. Em alguns momentos, a fotografia do filme se torna artificial demais, principalmente nas cenas de tempestade de neve; a montagem perde um pouco de sua fluidez; e os diálogos também parecem engessados. Todos esses aspectos acabam gerando distrações, sobretudo durante os primeiros minutos do projeção. No entanto, o longa, ao longo de sua duração, vai nos envolvendo em sua teia de tensões e urgências de tal forma que esses aspectos não incomodam por mais do que 15 minutos.
A premissa dos personagens estarem presos na Antártida é muito interessante por ser um cenário ao qual não estamos minimamente acostumados. O roteiro brinca muito bem com as dificuldades peculiares desse ambiente e com a forma como essas particularidades mexem com a sanidade dos isolados. De uma maneira geral, eu não gosto muito da ideia de o tipo de crime cometido em Antártida ser usado como recurso narrativo; porém, aqui ele serve para discutir temas muito importantes relacionados à violência contra a mulher. Os temas não são debatidos com muita profundidade, é verdade, mas o filme joga luz sobre o assunto, o que é sempre importante.
O roteiro é bem redondo e cria um arco muito bom dentro dessa lógica do whodunit: as engrenagens estão bem encaixadas para que os pontos de virada façam sentido; além disso, a história traz personagens com personalidades bem delimitadas e muito reconhecíveis. No entanto, o grande ouro de Antártida é o seu elenco. Andrea Beltrão, Leandra Leal, Lázaro Ramos e Antonio Calloni carregam o filme de uma forma impressionante. Todos eles têm uma presença de tela muito impactante, com interpretações cirúrgicas, balanceadas entre sutileza e visceralidade. O fato de ser um elenco estrelado ajuda a criar uma conexão imediata com os personagens, o que é essencial para a efetividade do impacto do longa. É chover no molhado, mas Andrea Beltrão é uma atriz fantástica. O leque de emoções que ela consegue atingir é extremamente amplo, o que faz com que entregue uma Elisabeth complexa e carismática. No papel de detetive de whodunit, Elisabeth precisaria nos passar confiança, e Andrea atinge esse objetivo com maestria.
Antártida é um filme que gera uma tensão interessante ao mesmo tempo em que abre discussões sobre temas muito relevantes. Não é perfeito em termos técnicos e não aprofunda tanto as discussões, mas é efetivo em nos deixar na ponta da cadeira por uma hora e meia.
