Crítica – A Odisseia
Em 1954, uma superprodução italiana, com a produção da dupla Dino de Laurentis e Carlo Ponti, transpôs para as telonas os clássicos poemas gregos de Homero, A Odisseia, para o cinema. O filme Ulisses, com Kirk Douglas no papel do título, Silvana Mangano no papel duplo de Penelope, mulher do heroi, Circe, a feiticeira, e com Anthony Quinn como o pretendente Antínoo, veio na esteira de Ben Hur e se transformou em um épico de muito sucesso na Itália, narrando os perrengues do Rei de Ítaca. Como curiosidade, Mario Camerini era o diretor principal, mas quem realmente assumiu a boleia foi o genial Mario Bava, na época diretor de fotografia e no futuro um dos maiores realizadores de filmes de terror de todos os tempos.
72 anos depois, foi a vez de Christopher Nolan, um dos diretores mais consagrados dos últimos anos, a resgatar essa inesquecível história, num filme que tem tudo para ser um dos maiores épicos de todos os tempos. Estreia essa semana o super aguardado A Odisseia (Odyssey, 2026), prometendo ser o maior evento cinematográfico do meio do ano.
O filme conta, através de memórias, a saga de Odisseu, Rei de Ítaca, que depois de lutar na Guerra de Troia, junto com seus soldados, ficou 10 anos penando para voltar para casa. Sua esposa Penélope, na sua ausência e com o trono aberto, penava com inúmeros pretendentes, já que na teoria Odisseu teria morrido. Telêmaco, o filho deles, resolve então buscar respostas para saber se o pai está vivo e parte para o mar a fim de encontrá-lo. E através de relatos do próprio Odisseu somos apresentados a fatos como o Cavalo de Troia, que foi essencial para o fim da guerra, e o relato fantástico da odisseia dele entre ciclopes, monstros marinhos, soldados gigantes, tormentas, sereias, ninfas e visita às profundezas do inferno no reino de Hades.

A megalomania e perfeição cinematográfica de Christopher Nolan parecem não ter limites. Depois do incrível Oppenheimer, mais uma vez ele cumpre todas as expectativas, num dos maiores épicos do cinema recente. Se a régua foi colocada muito para cima, Nolan consegue aumentar e com louvor. A Odisseia é um espetáculo. Totalmente filmado com câmeras especiais para o IMAX, inclusive instigou a criarem modelos mais leves que as usadas para facilitar as filmagens, Nolan faz cinema de verdade. Locações em locais como Marrocos, Islândia, Grécia e Itália nos dão um realismo de cenário que acabamos entrando em cheio na aventura fantástica proposta por Nolan.
A fotografia exuberante de Hoyte Van Hoytema sabe tanto usar a penumbra, como na fantástica passagem pelo inferno de Hades, como desenvolve grandes tomadas abertas em litorais paradisíacos e íngremes montanhas gregas. A trilha sonora de Ludwig Goransson causa um proposital desconforto, afinal estava vendo a batalha de um homem que largou tudo para uma causa quase suicida e levou um monte de gente nela. Aliada à edição de som numa projeção de IMAX, temos uma das trilhas mais fortes e bem encaixadas do cinema recente. E as cenas marcantes são tantas do filme que é muito difícil citar alguma, tamanha a profusão de passagens de tirar o fôlego!

Como o nome já diz, temos uma verdadeira odisseia, muito conhecida, o texto de Homero é uma referência que inclusive criou a jornada do heroi que alimentou diversas aventuras cinematográficas pelo cinema, tanto na parte dos perigos a serem enfrentados aos dilemas morais, crenças e decisões. E tudo isso A Odisseia tem de sobra, além da exuberância visual, as características do épico se misturam às marcas de Nolan, como a memória, rivalidades que movem uma ascensão pessoal, tempo, espaço, ausência de linearidade, além dos conflitos morais que criam pesadelos nos seus personagens. Mas o que realmente encanta é transformar todas essas marcas tão presentes em sua obra em imagens soberbas e inesquecíveis, repletas de detalhes e nuances artísticas da marca da direção do diretor inglês.
E logicamente, o super time de atores também é um caso à parte. Matt Damon como o sofrido Odisseu (Ulisses, se fosse na versão Romana) entrega uma atuação reflexiva e visceral de um homem calejado, que decide largar tudo, reino, mulher e filhos para uma jornada insana e se sente culpado por não proteger seu exército, em uma luta pessoal de crença e dúvida nos seus deuses. Anne Hathaway, como Penélope, tem a atuação mais forte do filme, como a mulher abandonada sempre na expectativa da volta do seu marido, e que tem que enfrentar um reino à deriva, um filho pronto para buscar seu espaço e uma horda de homens querendo ela e o reinado. Tom Holland é Telêmaco, o filho dela, em um papel discreto, até pela duração do filme, onde ele ganha destaque mais pra parte final e Robert Pattinson, cada vez melhor, é o canalha e covarde Antínoo, que cerca Penélope e tem um passado que o condena.

Zendaya é Atena, deusa da sabedoria, que sempre está presente nas indagações de Odisseu. Charlize Theron faz o papel da ninfa Calipso, que prende com seus encantos o heroi na sua ilha. Lupita Nyong tem um papel duplo como Helena de Tróia e sua irmã gêmea Clitemnestra. Que inclusive gerou reações racistas, questionado sua escolha com o papel de Helena. Elliot Page está ótimo também como o soldado Sinon, que lutou na guerra de Troia com o Odisseu e tem um papel marcante que liga seu passado e morte com Antínoo e Samantha Morton, em excelente papel como a feiticeira Circe, que transforma os homens em animais. Um dream team de primeira, escolhido a dedo e do tamanho do épico.
Nolan acertou mais uma vez com A Odisseia, não decepciona a grande expectativa que foi criada sobre a obra. É uma saga esplêndida de um homem que pode ser praticamente qualquer um, dependendo do tamanho dos seus fardos e karmas a carregar, suas escolhas, como elas podem determinar sua vida, dilemas morais e medos. E como certas ações têm o poder de afetar, mais que seu próprio mundo, e sim, tudo que nos cerca. Uma obra com toque artesanal e detalhista, mas com toda a modernidade e recursos que o cinema de hoje pode nos apresentar, uma megalomania com a cara do diretor, mas que nos recompensa com uma obra Épica com E maiúsculo, de uma obra que mesmo tão contada como no longinquoo 1954, consegue nos dar ares de novidade. Assistam às três horas sem medo, passam voando e de preferência no IMAX, que o investimento e a experiência estarão garantidos!
