Crítica – A Noiva!
Quando foi lançado, há 91 anos, A Noiva de Frankenstein (The Bride of Frankenstein), pouca gente acreditou que uma continuação de um clássico do quilate de Frankenstein (1931) poderia se tornar um clássico tão imaginativo e de qualidade. Dirigido à contragosto pelo mesmo James Whale, a sequência da história do monstro criado por Mary Shelley em 1818, hoje pode ser considerado um dos melhores filmes de horror daquela clássica fase da Universal dos anos 1930 e 1940. Coube à atriz e diretora Maggie Gyllenhaal soltar a sua imaginação e criar a sua versão desse clássico no filme A Noiva! (The Bride, 2026), estreia aguardada dessa semana nos cinemas.
Na Chicago dos anos 1930, após ser possuída por pensamentos perturbadores da escritora Mary Shelley, a acompanhante de luxo Ida é assassinada por mafiosos e tem seu corpo enterrado numa vala comum. Dias depois, o monstro de Frankenstein, cansado de uma vida de solidão resolve procurar na cidade americana uma cientista, a Dra. Cornelia Euphronios, já que ela é a única que pode curar a depressão do monstrengo. Mas para isso eles precisam de um corpo, então desenterram Ida e com as técnicas que o velho Barão Frankenstein utilizava, acabam dando vida a ela, tornando-se a Noiva. Juntos se metem numa série de assassinatos e se apaixonam loucamente, enquanto são perseguidos pela polícia e a máfia devido ao passado da “falecida” Ida.

Maggie Gyllenhaal escreveu e dirigiu de forma livre e inspirada essa adaptação pessoal da clássica história da mulher do Frankenstein. E para isso ela não teve freio algum, parecendo que resolveu colocar todos seus devaneios, influências e pensamentos num grande liquidificador, bater e nos apresentou o divertido A Noiva! Acerta ao passar a gótica história da sombria Europa dos anos 1800 e transfere a trama para a efervescente Chicago dos anos 1930. Com todo aquele clima tomado por festas, o filme também é um road movie, com nossos anti-herois viajando pelos Estados Unidos, passando por Nova York e as cataratas do Niágara. Mas no meio desta louca escapada e caos organizado, o filme mexe com questões como autoconhecimento.

A personagem de Ida, a Noiva, na sua segunda chance de vida, acaba vendo seus conflitos internos aflorando, e mesmo entregue à paixão pelo Frank, cria uma personalidade muitas vezes impulsiva, mas que discute seu papel e sua independência e o quanto quer ser mais que apenas a Noiva do Frankenstein. Mas talvez um dos problemas do filme é que, além de um certo feminismo por vezes vazio e caricato, na figura das mulheres que se inspiram nela e cometem crimes (algo meio parecido com Coringa (2019), faltou realmente Ida ter dado um passo a mais e por mais que ela tente se livrar das amarras e se libertar, ela sempre acaba recuando, ou por amor ou por medo.

Nesse caldeirão de referências de Maggie, temos além do próprio Coringa, tanto o primeiro como o Delírio a Dois, porque A Noiva! consegue ser tudo o que esse não foi, fartas porções de Bonnie and Clyde, Jovem Frankenstein, homenagem a músicas dos anos 1930, com direito à dança dos monstros e galã do estilo, bares e boates que lembram Nova York dos anos 1980, metalinguagem em delírios, romantismo, estética gótica, atitude punk, terror clássico misturado a leves pitadas de gore, filmes de gangsters, Ida Lupino, cinema noir, detetives, em suma, uma mistureba que às vezes faz a diretora perder a mão. Sim, o grande problema do filme é que mesmo divertindo e criando uma viagem interessante de embarcar, devido a esse excesso de informações, algumas vezes até de maneira pedante, o filme desvia do rumo e acaba não chegando a grandes conclusões tornando-se uma ópera bufa pintada de romance existencial, mas que mais uma vez, repito, convence e diverte.

A trilha sonora de Hildur Goanodottir funciona bem, já não acontece o mesmo com as faixas originais de Fever Ray e seus experimentalismos, que acabam bagunçando ainda mais o filme. O time de atores é excelente, desde Annete Benning na pele da cientista Cornelia Euphronios, Peter Sarsgaard como o apaixonado e confuso detetive Jake Willis, Penélope Cruz como sua assistente, Myrna Mallow, muito mais atenta e competente que ele e que rouba cena quando aparece, o mano da diretora, Jake Gyllenhaal, Ronnie Reed, um galã de cinema popular e que Frank idolatra. Jake esbanja carisma e muitas vezes levanta o filme com suas aparições. Christian Bale é o Frank, ou o monstro do Frankenstein, que por trás daquela corpo gigante e cicatrizes demonstra toda a sua fragilidade e carência. Mas quem realmente esbanja talento e carrega o caos que é A Noiva! é Jessie Buckley como Ida, ou a Noiva. Desde a cena inicial, quando é possuída por Mary Shelley, até o final do filme, tem uma atuação visceral, física e intensa, quase não respirando no frenético e vigoroso papel da mulher que virou monstro. Em vias de levar um Oscar por Hamnet, Jessie emplaca mais um papel marcante na carreira.

A Noiva! por vezes beira o nonsense e o absurdo, quase tomba como um caminhão desgovernado, tamanha informação e no emaranhado de citações que montam o mosaico do filme e como a personagem vai seguir um caminho mais libertário na sua busca de identidade própria ou se entregar ao seu amado monstro que deu a nova vida a ela, essa indagação também permeia o rumo do filme no geral. Mas mesmo derrapando na deliciosa balbúrdia, por vezes confusa e indecisa do que é o filme, vale as duas horas sentado numa confortável poltrona, além de conseguir o feito de ser inclassificável. A mistura de gêneros faz de A Noiva! fugir de rótulos, além de ter tudo para se tornar mais um filme que vai dividir opiniões, o que para o cinema e para os debates é uma mostra que o filme cumpriu seu objetivo.
