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CRÍTICAS

Crítica: A Maldição da Múmia

Crítica: A Maldição da Múmia
  • Publishedabril 16, 2026

A Blumhouse ultimamente anda apostando em revisitar clássicos do cinema de terror em novas roupagens modernas e com o padrão da produtora. Começou com o bom O Homem Invisível em 2020 e recentemente com o pavoroso Lobisomem de 2025. Dessa vez resolveram revitalizar maldições do tempo dos faraós viajando até o Egito e resgatar as icônicas múmias dos filmes dos anos 1940. E sem Brendan Fraser e com o irlandês Lee Cronin na direção, estreia nos cinemas do Brasil A Maldição da Múmia (Lee Cronin’s The Mummy, 2026).

Charlie, um jornalista estadunidense, trabalha em uma sucursal de uma empresa de TV como correspondente no Cairo. Lá, mora com a esposa Laia e seus dois filhos Katie e Sebastian. No dia em que Charlie está prestes a conseguir uma transferência para os EUA, sua filha Katie acaba sendo raptada por uma estranha mulher e sumindo sem vestígios. De volta aos Estados Unidos e morando no Novo México com a sogra, oito anos depois, sua filha foi encontrada. À princípio, a menina, que deve ter sofrido demais, volta completamente mudada e com comportamentos estranhos, catatônica e levemente atrofiada. Com o passar dos tempos, desconfiam que a menina está possuída, o que provoca uma revolução familiar que pode abalar tragicamente os Cannon.

Lee Cronin foi o responsável pela divertida e sanguinolenta continuação de Uma Noite Alucinante, com A Morte do Demônio – A Ascensão de 2023 e em A Maldição da Múmia, onde também assina o roteiro, não deixa a peteca cair e nos apresenta um dos filmes de terror mais perturbadores dos últimos tempos. Por que o gol de placa do realizador é, além de por mais de duas horas provocar asco com algumas cenas fortes com muito sangue, automutilação num terror por vezes físico, abusando do sofrimento dos personagens, o que causa reflexão é realmente os laços familiares. Desde a tal transmissão da maldição da múmia, que é algo hereditário e atormenta uma família egípcia detentora da praga, até a questão dos Connor, o filme trabalha sobre problemas como traumas familiares, distanciamento, insegurança e o principal, a eterna culpa de que eles não souberam cuidar (na mente deles) do seu bem mais precioso, que é a sua filha Katie. Todo esse legado de dor e luto em vida, com o sumiço da filha e a surpreendente volta dela oito anos após, bem diferente de como gostariam que fosse, tem papel fundamental na construção da trama e é um diferencial nas produções de horror recentes.

Mas muito além de um drama familiar que atravessa continentes, A Maldição da Múmia consegue nos premiar com uma eficiente história de terror. Unindo a tradição resgatando sarcófagos, infortúnios milenares e hieroglifos, consegue fazer com maestria a ligação disso tudo a uma pacata família típica dos Estados Unidos, e ainda dá uma pitada de latinidade e cristianismo, já que foram morar com a abuela Carmen, mãe de Layla, mexicana católica fervorosa. Uma ligação que funciona muito bem, com um filme que vai construindo uma atmosfera, que mesmo com a longa duração, consegue prender e manter algum mistério até quase o final do filme. Mesmo que abuse dos sustos fáceis, o filme é pancadaria pura, blasfêmia, possessão, e é claro, sangue para todos os lados.

O casal, interpretado por Jack Reynor e Laia Costa, consegue transmitir todo o drama e distanciamento que é provocado pela perda de um filho, ainda mais quando a dúvida se ele está vivo é pior que a perda confirmada em si, mas o filme não teria o mesmo impacto sem a atuação robusta de Natalie Grace. A menina faz uma versão 2006 de Reagan do Exorcista e causa desconforto desse a aparência sarcástica, seu poder de persuasão e suas contantes mutações, sofrendo horrores no papel da menina possuída pela maldição, fazendo de gato e sapato a atormentada família. Mesmo tendo referências visíveis de filmes como o próprio Evil Dead, Fome Animal, Arrasta-me para o Inferno, Exorcista e A Profecia, o diretor soube, com um roteiro razoável, bons efeitos visuais e excelente maquiagem, nos perturbar numa claustrofóbica casa no deserto do Novo México (dedo de James Wan, um dos produtores e que adora casas assombradas e famílias atormentadas), que entre traumas familiares viscerais, cenas que causam desconforto, nos apresenta um dos melhores filmes de horror do ano até então, pode até não se tornar um clássico, mas menina Katie já entrou pro rol de umas das melhores interpretações adolescentes do gênero. Pra quem gosta de horror, é pedida certa!

Written By
Lauro Roth