Crítica 2: Boneco de Neve (Tomas Alfredson, 2017) é uma das grandes decepções do ano.

O cinema nunca foi uma arte de uma pessoa só.

É por isso que existe um certo fator de “injustiça” quando o mundo cinéfilo clama pelos nomes consagrados de grandes diretores e atores, lhes atribuindo todos os louros de uma obra, quando se esquecem dos roteiristas, dos fotógrafos, dos montadores, dos cenógrafos, editores de som e toda a equipe braçal (para constatar o que digo, recomendo ao leitor curioso sobre a história do cinema que leia o livro-artigo Raising Kane, da célebre crítica americana Pauline Kael, no qual a autora expõe o incômodo de atribuir a obra-prima Cidadão Kane apenas a Orson Welles). Claro, há uma hierarquia criativa e operacional numa linha de montagem cinematográfica (principalmente a hollywoodiana), mas o resultado final de um filme frequentemente pode escapar do talento de um diretor, ainda mais quando se envolve tempo e dinheiro – sinônimos, aliás.

O que me leva a Boneco de Neve, novo thriller/drama adaptado do livro homônimo do escritor norueguês Jo Nesbo. Tudo aquilo que disse sobre um filme escapar das mãos de um bom diretor se aplica definitivamente aqui. Afinal, não parece que o mesmo homem que comandou os ótimos O Espião que Sabia Demais e Deixe Ela Entrar (o original, de 2008) tenha entregado um exemplar tão mal costurado como este. Ao mesmo tempo que parece querer se livrar de convenções de gênero, também não consegue escapar de várias delas, além de falhar em desenvolver seus personagens e sua trama de maneira que o suspense faça valer a expectativa.

Qual não foi minha surpresa quando só fui descobrir, após o término da sessão, que o diretor Tomas Alfredson de fato teve vários problemas com a produção, principalmente relacionadas ao par sinônimo do qual falei antes. Sua tarefa era dar vida a história de um assassino serial violento que mata mulheres e que tem como marca registrada deixar um boneco de neve próximo às suas vítimas. Alcoólatra e deprimido, o investigador Harry Hole (Michael Fassbender) é designado, junto com a policial Katrine Bratt (Rebecca Ferguson), para tomar frente no caso, enquanto enfrenta problemas passados com sua ex-mulher Rakel Fauke (Charlotte Gainsbourg).

Com um prólogo que promete – embora um pouco já afetado – o longa tem êxito em despertar nossa curiosidade acerca do destino dos personagens cujas tragédias são mostradas no começo. Fica jogada pergunta: quem são essas pessoas e de que modo se relacionam com os principais personagens do filme? Quando adentramos no primeiro ato, conhecemos Harry e seus problemas evidentes – aliás, mostrados numa boa sequência envolvendo um tiro acidental, que mistura bem o desespero com um quase humor negro. À medida que avançamos na narrativa, os problemas começam a ficar evidentes. O diretor parece perdido e não consegue despertar nossa atração pela trama e pelos personagens. A relação de Harry com o filho é pincelada de forma rasa e seu passado não consegue soar tão traumático quanto o filme exige. O restante dos personagens até mostra um pouquinho de substância, mas a narrativa não se esforça para jogar as informações de maneira que não fiquem óbvias a uma observação um pouco mais atenciosa.

Em relação aos seus elementos de gênero, o filme se sai de maneira ainda mais decepcionante, já que o velho jogo de polícia-bandido que encontramos tão comumente nessas obras não tem recursos suficientes para despertar nossa curiosidade em adentrar no papel de expectador-detetive. A trama é insípida, o que faz a caçada investigativa ser tediosa desde o começo. E se já estamos aborrecidos com isso, piora o fato de que algumas subtramas adicionadas, como aquela que envolve o candidato a prefeito Arve Stop (J.K.Simmons), são subitamente esquecidas, fazendo a narrativa se inflar ainda mais. Mesmo se esquecêssemos toda a borda dispensável, ainda assim os elementos principais carecem de um tratamento baseado no nosso interessa pela expectativa. O assassino não chama muita atenção e não existem elementos suficientes nem para que o aspecto de suspense do filme funcione. É uma reação em cadeia: se não há personagens suficientes para se apegar, não há criação de empatia, e, por consequência, as poucas tentativas de se criar tensão em cima dela soam forçadas.

Quando aos aspectos responsáveis por construir a narrativa, fica evidente que Tomas Alfredson só pode ter sido sabotado pelas circunstâncias. Um dos problemas mais recorrentes certamente recai sobre a péssima montagem da dupla Thelma Schoonmaker e Claire Simpson, que transforma a condução da história num retalho esquizofrênico. Repleto de transições desajeitadas e cortes para outras subtramas, o equilíbrio e ritmo da narrativa são constantemente interrompidos nos piores momentos, chegando ao cúmulo de inserir planos que iniciariam uma outra sequência no meio de diálogos importantes. Além disso, ainda introduzem flashbacks de maneira brusca e desconjuntada – aqui devo dizer que esses momentos ficam involuntariamente hilários pela péssima participação de Val Kilmer, cujo personagem foi claramente dublado e maquiado digitalmente (sabe-se lá porque). Outro destaque negativo é a trilha sonora, que quase chega à beira do maniqueísmo hilário (que me lembrou de Os Guardiões e A Noiva, cuja crítica do NoSet você pode ler aqui), sempre comentando de maneira nada sutil e mandatória as reações que o expectador deveria ter naturalmente.

Vendo dessa maneira, a culpa parece ter sido toda da pós-produção, mas há também outros problemas envolvendo o roteiro e a completa falta de inventividade nas sequências mais tensas, principalmente as do 3º ato. Quanto ao primeiro aspecto, a adaptação, escrita a três mãos, falha em atribuir características que despertem a curiosidade do público em seus personagens (isso também inclui o próprio assassino) e também não consegue dar o peso que queria ao relacionar a condução da trama com o passado problemático de Harry (o diálogo final, portanto, soa bobo e sem impacto). E falando no protagonista, o roteiro está sempre indeciso quanto às habilidades de dedução do sujeito. Ora estamos diante de uma espécie de lenda – ou como diz em certo momento sua parceira: “nós costumávamos estudar seus casos” – ora ele parece incapaz de enxergar as conclusões mais evidentes postas diante do seu nariz.

Quanto ao segundo aspecto, a própria direção tem culpa em nunca ser eficiente em conduzir o expectador na direção da tensão, já que o filme já estava tedioso desde o começo e a execução das sequências mais tensas é, no mínimo, preguiçosa – nesse sentido, quase dá para vislumbrar o diretor dizendo “ok, pessoal, não temos mais tempo e nem dinheiro, vamos concluir do jeito que dá”, o que só assim explicaria, por exemplo, uma conclusão absolutamente telegrafa, mal executada e abrupta como a que acontece aqui.

Nem o ótimo elenco consegue salvar Boneco de Neve (ou o nome de Martin Scorsese nos créditos de produtor). Fassbender é muito talentoso e ainda consegue criar algum vislumbre de profundidade para o protagonista, mas o restante, com exceção de Rebecca Ferguson, só parece estar ali para figurar rapidamente em momentos pontuais. Assistindo aos longos 120 minutos deste filme, fica difícil acreditar que Tomas Alfredson tenha simplesmente se esquecido de como conduzir uma narrativa (só conferir seus trabalhos anteriores), ficando claro que numa obra há diversas situações que podem dar errado, nas mãos de centenas de pessoas envolvidas num projeto. De fato, não depende de uma pessoa só, senão certamente o resultado teria sido diferente.

Nota:

Trailer

Data de lançamento: 23 de novembro de 2017

Direção: Tomas Alfredson

Elenco: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, J.K Simmons, Chloe Sevigny, Val Kilmer, David Dencik, James Dárcy

Sinopse: Quando uma mulher desaparece, a única pista deixada para trás é um cachecol rosa encontrado envolta de um estranho boneco de neve. O detetive Harry Hole (Michael Fassbender) começa suas investigações e percebe que o crime parece obra de um serial killer.

 

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2 Comments

  • Infelizmente o filme é tudo isso mesmo. Comparar a trilha com a dupla russa não é exagero. Nem os bons atores salvaram. Fica complicado dizer até que ponto foi um erro do diretor ou os fatores orçamentários e de cronograma foram fundamentais, pelo histórico é possível mesmo que ele não tenha desaprendido, como de fato você ressaltou. A história base pareceu instigante, quem sabe um dia não temos um filme à altura…

  • […] – Boneco de Neve (Tomas Alfredson, RU) – crítica aqui […]

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