Chico César e Nova Orquestra – Aos Vivos 30 anos no Araújo Vianna
Filho ilustre de Catolé do Rocha, rincão distante 400 km de João Pessoa, o paraibano Chico César despontou para o Brasil logo no seu disco de estreia, Aos Vivos, de 1995. Com riquíssima poesia, mistura de tradição e modernidade, uma levada de reggae com xote e um mistura rica nas letras entre crítica social e lirismo, sucessos como Mama África e À Primeira Vista transformaram a vida do poeta e jornalista. Chico virou referência com uma discografia rica, tendo músicas suas gravadas por outros intérpretes e sendo um dos mais importantes e autênticos compositores e artistas de sua geração. Para comemorar os 30 anos de seu disco icônico (na verdade 31), o artista subiu ao palco do Araújo Vianna juntamente com a Nova Orquestra para celebrar as três décadas do disco que apresentou Chico ao mundo. E o NoSet teve lá para acompanhar esse espetáculo.
Pode-se colocar a culpa da escolha da data, um domingo à noite e com início às 21 horas, para o reduzido público no Araújo. Também a transferência da data, afinal o show seria em janeiro e que, segundo diziam, já tinha mais ingressos vendidos. Enfim, mesmo que abaixo da expectativa, quem é fã do trabalho do artista estava presente e por volta das 21h10min, uma orquestra toda surgiu num breu, apenas com óculos iluminados lembrando vagalumes, a maestra Ludhymylla Bruze também surge no palco com os óculos, e o filho de Catolé, munido de seu violão, abre o show como na ordem do disco, com a lindíssima Beradero, onde toda sua veia poética já abria com brilhantismo o disco de estreia. E nesse formato, violão e orquestra, ficou uma mistura sensacional.



Para a sequência, embala com o super hit Mama Africa, que mesmo nesse formato, não perdeu a essência e principalmente o poder da sua mensagem. Segue a ordem do disco com a lindíssima À Primeira Vista, canção essa que também fez muito sucesso na voz de Daniela Mercury e ficou divina na interpretação da Nova Orquestra, na minha opinião é uma das mais belas canções do cancioneiro nacional. Momento de magia e muito amor, como o próprio Chico anunciou, um show de muito amor.
O resto do show segue o script exatamente na ordem do disco, com Tambores e daí em diante Chico, que além de compositor, músico e poeta, mostra que é um grande contador de histórias. A cada música ele conta uma divertida história. Conta que queria ter sido o compositor de Alma Não Tem Cor, do amigo André Abujamra antes de tocar a canção. Segue o show com Dúvida Cruel, dele e do mestre Itamar Assumpção. Segue divertindo a plateia com seus causos, mais divertidos que muitos comediantes de stand-up, toca A Prosa Impúrpura do Caicó, trocadilho genial dele com o título do filme A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, manda ver canções como a triste Saharienne e embala a plateia com Benazir.




Chico e a Nova Orquestra é um show contemplação, plateia comportada e compenetrada, viajando nas ricas melodias da orquestra, letras incríveis e voz potente do Chico César, que fica melhor a cada ano que passa.
Com Mulher Eu Sei, ele brinca com a plateia para soltarem a voz como Teixeirinha e Mery Terezinha. Depois explica que na infância e adolescência trabalhava em uma loja de discos na Paraíba e que assim conheceu Teixeirinha, numa prova do alcance nacional do cantor gaúcho.
Segue contando histórias, cantando canções como Clandestino e Templo, e explica que mudou a letra da canção Paraíba de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Mesmo justificada pela época que foi composta, ele resolveu dar uma modificada na letra de teor machista para os tempos atuais. Fecha a execução do disco com Dança e Nato.
Depois de palmas animadas, com direito à apresentação da Orquestra, composta por jovens (com um figurino que lembra uniforme escolar) e aplausos merecidos, a maestra Ludhymylla Chico anuncia que ainda vai tocar mais algumas.


Segue com Estado de Poesia, canção de 2015. Tem problemas técnicos com o sumiço dos instrumentos com a canção Palavra Mágica, mas é ajudado pelo povo que cantou junto o refrão “Arengueira”. Uma das suas melhores composições, Deus Me Proteja, embala mais uma vez a plateia com aqueles versos sensacionais: “Deus me proteja de mim e da maldade de pessoas boas” e encerra o show em tom de protesto com Pedrada. Aquela do “fogo nos fascistas”, que foi cantada com muito vigor pela plateia, impulsionando gritos políticos, ainda mais nesse quente ano eleitoral de 2026, fechando com política e protesto o show.
Chico prova mais uma vez que é um dos melhores cantores e compositores do Brasil. E essa mistura de orquestra com seu potente violão fecha bem nessa homenagem incrível a um dos discos mais importantes dos anos 1990, além de provar que tem um domínio incrível de palco, um contador de divertidas histórias, característica que é um show à parte. Seu público fiel estava lá para curtir uma agradável e desopilante noite de domingo para dar um viva a esse artista com A maiúsculo, que não tem medo de se posicionar, mesmo tendo o risco de perder público, o que é uma bobagem tremenda que é desperdiçar a oportunidade de ouvir Chico César com sua poesia e voz maravilhosa.
