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CRÍTICAS

Crítica – Marty Supreme – Quando uma atuação é maior que o próprio filme

Crítica – Marty Supreme – Quando uma atuação é maior que o próprio filme
  • Publishedjaneiro 18, 2026

Confesso que, até alguns anos atrás, não dava muito para o Timothée Chalamet. Achava um cara de fuinha, por vezes pretensioso, que não iria decolar. Mas o que sempre sentia no jovem ator é que ele sempre quis sair de sua zona de conforto, fazendo papeis diferentes e cada vez mais complexos. De 2017 para cá foi ousando, empilhando grandes papeis, indicações a prêmios e se tornou, ao meu ver, o melhor ator de sua geração. E a cada ano só melhora, e graças a ele, Marty Supreme (idem, 2025), novo longa de Josh Safdie, o filme vale muito a pena.

O filme tem a história levemente inspirada no jogador de tênis de mesa Marty Reisman. No filme ele é Marty Mauser, um jovem e ambicioso judeu vendedor de sapatos de Nova York, conhecido pela arrogância e por ser muito abusado. Sua vida é frenética, fazendo indiscriminadas apostas, aplicando golpes e viajando o mundo como jogador de tênis de mesa, tornando-se um dos maiores jogadores do mundo, em uma época que o esporte não era levado a sério. Nessa sua saga, acaba se envolvendo com mulheres, fica na mão de empresários e com sua língua afiada e venenosa, vai levando sua vida entre a paixão pela adrenalina das situações em que se mete e seu amor e obsessão ao pingue-pongue.

Marty Supreme, ao contrário do que possa parecer, não é um filme sobre uma saga heroica de um esportista. O tênis de mesa é apenas um pretexto para a conturbada e agitada vida de Martin. Josh Safdie, que junto com Ronald Bronstein assina o roteiro, tem como inspiração a própria biografia do citado Marty Reisman, The Money Player: The Confessions of America’s Greatest Table Tennis Champion and Hustler (O Jogador de Dinheiro: As Confissões do Maior Campeão de Tênis de Mesa e Trambiqueiro dos EUA), publicado em 1974 e nunca mais lançado. Mas a vida de Reisman é apenas uma inspiração para o filme, uma comédia de erros, com situações que beiram o absurdo, mas que combinam perfeitamente com a personalidade de Marty. O diretor consegue mostrar situações surreais, como uma banheira despencando de um andar para outro, num hotel que é um muquifo, numa hilária cena. Ou quando Marty e sua amiga e amante Odessa, juntamente com um velho chato precisam resgatar um cachorro, transformando uma simples situação numa caótica cena de violência. Isso sem falar nos golpes que aplica nos ingênuos desafiantes em botecos, que geram fugas e perseguições dignas de filmes pastelão. Isso tudo com auxilio de câmeras nervosas e uma edição ágil, que fazem o filme com mais de duas horas prender a atenção o tempo todo. 

Mas o filme tem um dono. E ele se chama Timothée Chalamet. O jovem ator dá um show como Marty, abusando de ironias, tiradas políticamente incorretas de arrepiar, até pela época que o filme se passa, nos anos 1950. Sua determinação e amor ao tênis de mesa, seu jeito arrogante de ser, onde se acha o centro do mundo e o melhor de todos. Suas aventuras amorosas e sua turbulenta vida, com muito bom humor, por vezes divertida, outras vezes ácida demais, fazem da sua atuação e construção minuciosa do personagem um show à parte. Poucos atores transformariam um jogador de tênis de mesa dos anos 1950 num personagem tão forte e marcante. Favoritaço ao Oscar, apesar de ter um agente secreto e dois gêmeos caçadores de vampiros como concorrentes.

O elenco de apoio, digo apoio mesmo porque são meros coadjuvantes do Timothée, também brilha, com destaque a Gwyneth Paltrow como a atriz, já considerada veterana, Kay Stone, que se encanta com o jeito destemido e arrojado de Martin. Ela é casada com Milton Rockwell, interpretado por Kevin O’Leary, empresário que controla a carreira de Marty, também com papel de destaque. Elenco que ainda conta com grandes atuações de Odessa A’zion, Tyler Okonma e do diretor Abel Ferrara. 

Marty Supreme é uma deliciosa aventura, com um ritmo alucinante, que dá palco a um controvertido anti-heroi que acaba se metendo em diversas situações de tirar o fôlego. Marca muito pessoal da direção caótica e nervosa de Josh Safdie. Muito mais que um filme de jornada de um esportista em busca da glória, por mais que sua vida gire em torno de ser campeão e ganhar reconhecimento, a trama acaba girando mesmo é na personalidade e estilo de vida intenso de Marty. Esbanjando impetuosidade, atrevimento e jovialidade, e que desde os minutos iniciais ao som de Forever Young, sucesso de 1984 do Alphaville em uma trilha atemporal pra época do filme, já vemos Timothée brilhando como um artista na flor da idade, carregando o filme com seu hipnótico talento numa de suas mais incríveis atuações.

Written By
Lauro Roth