Crítica – Avatar: Fogo e Cinzas
Pandora certamente é o grande hiperfoco de James Cameron, e Avatar – Fogo e Cinzas (Avatar – Fire and Ash, 2025) é o mais novo veículo para o diretor dar vazão ao seu amor por este universo que, querendo ou não, já é um dos mais relevantes da história do cinema.
Agora parte do clã Metkayina, Jake Sully e sua família se esforçam para lidar com o luto da morte de Neteyam, filho do casal Jake e Neytiri. Neste contexto, durante uma viagem para levar Spider, um humano amigo da família, de volta ao acampamento de cientistas, eles sofrem um ataque do violento clã Mangkwan, liderado por Varang. As consequências desse ataque fazem com que os protagonistas precisem lidar com novos e antigos inimigos.

O grande propósito de Avatar – Fogo e Cinzas existir é para que Cameron possa expandir um pouco mais a cultura de Pandora, apresentando-nos novas tribos, novos seres e novos lugares, tudo isso empacotados em um espetáculo visual. Isso ninguém pode tirar de Avatar: o filme é deslumbrante. Técnicamente perfeito em termos de efeitos visuais, mixagem e design de som, design de produção e cinematografia, o filme transforma-se em uma experiência única de sala de cinema, principalmente se assistido em Imax. É uma imersão absurda e notável em um mundo fantástico comparável somente aos títulos anteriores da franquia.
Avatar – Fogo e Cinzas repete o seu antecessor em muitos aspectos, apenas aumentando a escala de espetáculo. Veja bem, não é fundamentalmente ruim você saber o que é e seguir por este caminho. A franquia Avatar, em termos conceituais, sabe exatamente o que quer entregar: uma aventura simplória e emocionante que serve apenas para apresentar um universo inegavelmente rico e um espetáculo cinematográfico. Então existe um mérito em ter a coragem de entregar muito eficientemente o que todos esperam de você. Entretanto, após três longas, com em média três horas de duração cada, Avatar se torna um pouco cansativo. Até porque, em uma segunda sequência tão longa o espetáculo visual pode ter seu impacto anestesiado, afinal se tudo é extraordinário, nada é extraordinário. Entretanto, dentro desse contexto, os fãs da franquia muito provavelmente serão felizes com o que o filme apresenta, e isso não deixa de ser relevante para a análise.

Porém, se Cameron sabe o que a sua obra quer entregar conceitualmente, não é possível se dizer o mesmo em termos temáticos. Avatar – Fogo e Cinzas tenta tratar sobre diversos tópicos como luto, insegurança, culpa, ódio, ignorância, porém, são tantos dilemas de tantos personagens, que nenhum se resolve de maneira perfeita. O tema do luto da família é abandonado ao longo do filme e as questões resolvidas são fechadas abruptamente, quase por conveniência de roteiro, sem a construção de arcos que tornariam os personagens mais complexos e multidimensionais. E esse aspecto, em relação aos protagonistas, se dá muito por falta de tempo mesmo. Cameron quer expandir tanto o universo, apresentar tantas coisas novas sobre Pandora, que ele deixa a narrativa em segundo plano, e não consegue de fato construir ciclos emocionais completos para seus personagens.
Em relação aos antagonistas, temos a volta do Coronel Quaritch, e a apresentação de Varang. A líder do clã Mangkwan é de longe o grande trunfo narrativo do filme, isso porque ela tem um background forte que embasa muito bem as motivações dela nessa história. A expansão do universo, com a apresentação dessa nova tribo de fanáticos pelo fogo e pela violência, também funciona muito bem na imersão em Pandora, além de trazer a reflexão (muito atual, por sinal) sobre o fanatismo à líderes personalistas. Já o conhecido Coronel Quaritch, apesar de esbanjar muito carisma como vilão, possui a mesma motivação de sempre de ser obcecado em capturar o Jake, não tendo nenhum aprofundamento além da rasa estereotipação do militar durão e sanguinário. Assim como todos os personagens humanos do filme, que também são tão estereotipados que chegam a transparecer um discurso até um pouco ingênuo por parte do roteiro.

Avatar – Fogo e Cinzas é uma catarse cinematográfica única que merece ser vivida numa sala de cinema. Ela certamente não será memorável por conta de sua narrativa ou pela apresentação de personagens complexos, porém, pode ser lembrada como uma experiência sensorial dentro do espaço físico do cinema. No final das contas, é isso mesmo que o filme se propõe a entregar, porém, se os seus temas tivessem sido melhor desenvolvidos, quem sabe não poderíamos assistir a uma obra ainda mais impactante? Como nunca saberemos, então nos resta aproveitar a experiência entregue por James Cameron.
