Crítica – Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
O cinema é feito de ousadia e coragem. Talvez essa frase não faça sentido se considerarmos apenas os blockbusters atuais, mas como conceito, o cinema nasce de pioneiros querendo contar histórias de uma maneira nunca antes vista pela humanidade. E mais, só continua tão forte até hoje, por conta de filmes corajosos o suficiente para fazer com que uma nova geração passe a amar o cinema como arte. É impossível saber se irá causar esse tipo de impacto que só pode ser medido com um distanciamento histórico, no entanto, em termos de ousadia, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You, 2025) certamente está no rol de obras corajosas.
Linda tenta equilibrar a sua vida profissional com os cuidados de sua filha doente, enquanto seu marido viaja a trabalho por longos períodos. Quando uma infiltração causa o desabamento do teto no quarto de Linda, a sobrecarga emocional de ter que administrar diversas crises na área pessoal e profissional chega à limites quase insuportáveis.

Da mesma forma em que a protagonista de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é o alicerce que tenta segurar todas as pontas de sua família, Rose Byrne é a pedra fundamental do longa. Em atuação magistral, Byrne constrói uma personagem à beira de um colapso de maneira tão convincente que é impossível não sentirmos todos os seus incômodos junto com ela. Ao interpretar esse tipo de personagem, é muito fácil a atriz ou o ator ir por um caminho de exagero ao forçar um choro, utilizar-se da gritaria ou apostar em tiques que podem até ser impactantes visualmente, mas são pouco convincentes. Não é o caso aqui. Rose Byrne cria uma personagem real, uma Linda que poderia existir na realidade. Desta forma, criamos uma forte conexão com ela, fazendo com que, por mais que as escolhas dela não sejam as mais aceitas pela sociedade de uma maneira geral, a sua linha de raciocínio seja completamente compreensível.
Entretanto, note que Byrne não carrega o filme. Deixando claro, ela teria completa capacidade de carregar com o seu nível altíssimo de atuação, caso fosse necessário. No entanto, a direção e roteiro de Mary Bronstein e a cinematografia de Christopher Messina complementam a atuação de Byrne, criando um clima claustrofóbico e angustiante ao longa. A câmera está muitas vezes muito fechada no rosto de Linda (principalmente no início do filme) como se ela não pudesse fugir nem ao mesmo de si mesma; a mixagem de som sempre coloca os barulhos feitos pela sonda da filha de Linda como ruídos insuportáveis e intermináveis que não dão brecha para um descanso; a própria escolha de a câmera nunca mostrar o rosto da menina desumaniza a criança, fazendo que a própria voz da garota acabe se tornando incômoda, por mais que isso seja fundamentalmente uma coisa horrível de se pensar. Fora os atores coadjuvantes, como Conan O’Brien e ASAP Rocky, que constroem personagens insensíveis, aumentando o nível de pressão e solidão sentidas por Linda.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria apresenta um roteiro muito corajoso, ao tratar sobre temas tão difíceis, ainda mais ao se colocar do lado em que uma visão social mais hegemônica entende como “errado”. Recentemente o tema da maternidade compulsória tem sido discutido com mais frequência na sociedade, e por óbvio, também no cinema em filmes como A Filha Perdida (2021) e até mesmo em Morra, Amor (2025), que apesar de não tratar exatamente sobre esse tema especificamente, o longa propõe reflexões que caminham nesse mesmo território. Entretanto, o diferencial de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é a forma tão clara e visceral com que o filme se posiciona. Não é uma observação fria e tampouco uma espetacularização do tema, é simplesmente Mary Bronstein e Rose Byrne te colocando na pele de Linda enquanto questionam: “você realmente agiria tão diferentemente da personagem nesta mesma situação?”.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um filme magistral, em que todos os seus aspectos funcionam muito bem. A ótima direção de Mary Bronstein aliada com a atuação maravilhosa de Rose Byrne constroem uma obra memorável com reflexões difíceis, no entanto, extremamente importantes.
