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CRÍTICAS

Crítica – Foi Apenas um Acidente

Crítica – Foi Apenas um Acidente
  • Publisheddezembro 7, 2025

Direto e reto: Foi Apenas um Acidente (It Was Just an Accident, 2025) é um grande lamaçal. Aparentemente inofensivo e quase cômico, ele, na realidade, conforme você se envolve com seus personagens, te draga mais e mais, para no final te afogar em desespero e agonia. Para além de um lamaçal, Foi Apenas um Acidente é também o vencedor da Palma de Ouro 2025 em Cannes; é o novo longa de Jafar Panahi, diretor iraniano condenado pelo regime de seu país por propaganda contra o governo; e, sem dúvidas, é um dos melhores filmes do ano.

Quando um homem com uma prótese na perna para em uma oficina para consertar o carro, que avariou após acidentalmente atropelar um cachorro, o mecânico e ex-prisioneiro do governo, Vahid (Vahid Mobasseri), reconhece imediatamente o ranger da prótese do motorista como o de seu antigo torturador, o agente de Estado Eghbal (Ebrahim Azizi), também conhecido como Perna-de-Pau. Ao decidir se vingar, Vahid sequestra Eghbal com o objetivo de matá-lo, porém, fica na dúvida se o homem é realmente seu antigo captor. Vahid vai então em busca de outros ex-prisioneiros de Eghbal para ajudá-lo na identificação do homem.

É surpreendente saber que Foi Apenas um Acidente foi filmado de maneira clandestina, já que Panahi não tinha permissão legal do governo iraniano para contar essa história. A clandestinidade da produção, entretanto, em nada impacta a qualidade do filme; pelo contrário, acaba servindo para que a obra seja uma incrível peça de resistência contra o autoritarismo. Porém, engana-se quem pensa que o longa se sustenta apenas por questões extratela: Foi Apenas um Acidente é deslumbrante em sua fotografia, atuações, montagem e, especialmente, em seu roteiro.

Panahi é efetivo em manipular as emoções do público quando escolhe apostar no mistério ao expor as informações da narrativa, principalmente no primeiro terço do filme. Até certo ponto, não sabemos exatamente a quais informações nos apegar nem em quem confiar. Conforme os outros personagens vão se juntando a Vahid em sua missão, eles acabam formando um grupo improvável que, por conta dessa improbabilidade, se torna muito carismático. Ao longo do filme, as interações dos personagens vão nos contando os horrores que aquelas pessoas passaram nas mãos do Estado, gerando uma conexão emocional muito forte entre eles e o público. Desta forma, a aposta vai sendo dobrada a cada problema em que o grupo se enfia, já que, a todo momento, podemos estar fazendo parte de uma resistência ou sendo cúmplices no sequestro de um inocente, a depender da identificação de Eghbal.

O roteiro também vai muito bem ao tratar com certa leveza as situações absurdas em que Vahid e seus parceiros se enfiam e na inabilidade que demonstram em lidar com as adversidades. A fotografia utiliza-se muito bem da imagética cômica dessas situações para relaxar o público. Além disso, o cinematógrafo Amin Jafari faz um ótimo uso do cenário de deserto para criar uma imagem deslumbrante e libertadora.

Essa leveza serve, porém, para acentuar a tensão que atinge seu auge no terço final do longa. Em seu clímax, o filme abandona toda a comicidade imagética, e o cenário libertador do deserto se transforma em claustrofobia e terror: Jafari escolhe se limitar à luz vermelha de um furgão para iluminar um personagem preso a uma árvore. O roteiro vai fundo na tragédia de uma vida manchada por uma perseguição governamental extremamente violenta. Esse clima opressor gera um ambiente perfeito para que Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi e Mariam Afshari possam brilhar, com atuações viscerais, em uma cena de uns bons cinco minutos sem nenhum corte.

Foi Apenas um Acidente resolve seu ciclo de tensão e relaxamento de modo a deixar um impacto intenso, promovendo incômodo e reflexão sobre quais são as formas válidas de lidar com o trauma de ter sido violentado por seu próprio governo. Panahi alivia a tensão, só para depois te puxar violentamente, fazendo-lhe afundar até a cabeça no lamaçal.


Written By
Guilherme Pedroso