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Crítica: Coringa – O Filme

Hannah Arendt, filósofa alemã, judia perseguida pelo regime nazista, cunhou a expressão ‘banalidade do mal’’ em seu livro Einchmann em Jerusalém. Na obra, ao acompanhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, em Nuremberg, através de suas observações, tirou a conclusão de que aquele oficial da SS, um dos responsáveis pela organização e logística do Holocausto, era banalmente humano e apenas seguia ordens burocráticas que faziam parte de uma engrenagem chamada Partido Nazista. Logicamente Hannah recebeu diversas críticas: como uma judia poderia trair a raça e dar um tom levemente humanizado a um monstro que massacrou os judeus? Como aquele homem era apenas um estúpido ser humano e não um demônio com chifres e cuspidor de fogo? Comparo essa facilidade de desencadear o mal interior na versão de Todd Philips (Se Beber Não Case) com o filme Coringa. Um Coringa diferente do que conhecemos, mas não menos perturbado e doente, e como diria Hanna: humano que devido a um sistema cruel e aliado a suas perturbações mentais o transformam no arlequim do caos.

Em Coringa – O Filme (Joker), Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é um pseudo comediante. Vive de bicos como palhaço, tem acompanhamento de uma agente social devido a seus problemas mentais e mora com sua perturbada mãe, Penny Fleck (Frances Conroy) que vive presa em casa sempre mandando cartas a Thomas Wayne seu ex-patrão milionário, figurão de Gotham City. Arthur é humilhado a cada dia e sente na pele o desprezo da sociedade e juntando sua incrível falta de talento ao humor e seu incontrolável cacoete de dar risadas sem controle em momentos de ansiedade, vive cada vez mais desgostoso da vida. Após um surto de violência em que em uma noite mata três yuppies no metrô, pintado de palhaço após ser demitido, acaba sem intenção, provocando uma onda de protestos, violência e desordem na ingovernável Gotham City. Um estopim para se entregar à violência e liberar os fantasmas mais agressivos de sua mente se tornado Coringa.

Com certeza, apesar de todas as críticas negativas ao suposto excesso de violência e medo de que uma epidemia de malucos da vida real se inspire no personagem, Coringa – O Filme pode entrar no rol dos melhores filmes de 2019. Não precisa ser inserido em quadrinhos ou fã de super-heróis para entrar no drama e na vida caótica do personagem Arthur Fleck. Joaquin Phoenix cria um Coringa diferente de todos que passaram pelas telas. Desde o caricato e divertido Cesar Romero, ao psicótico e cativante Jack Nicholson, ao espetacular psicopata feito por Heather Ledger e até o fraco Jared Leto. O filme é todo do Joaquin, ele entra no personagem, um homem perturbado, que não entende seus fracassos e que sofre constantemente com o mundo caótico em que vive. Para isso Joaquin emagreceu um bocado, criou risadas irresistíveis e fez seu humano e intimista Coringa, mas que devido a seus traumas infantis e uma perturbação mental muito mal tratada, acaba revelando o pior que ele tem dentro de si. Uma atuação brilhante, intocável. Sobre o filme, mais um ponto positivo são algumas referências a filmes dos anos 70 como o clássico Laranja Mecânica nas cenas de violência em becos e principalmente Taxi Driver. Arthur tem uma porção de Travis Bickle, perturbado e sem perspectivas na sua melancólica e confusa vida. Aliás, falando em Travis, Robert de Niro está ótimo também como Murray Franklin, comediante e humorista, ídolo de Arthur que sonha constantemente com ele e com uma chance no seu programa (aí mais uma referência: a comédia do Martin Scorsese O Rei da Comedia, só que invertendo os papéis, no filme é Robert de Niro que é obcecado por seu ídolo comediante e quer uma chance mesmo que a sua maneira).

O filme se passa entre o fim dos anos 70 e início dos anos 80, Gotham City sofre com greve de lixeiros, violência desenfreada, ruas escuras, metrôs vandalizados, crise de governabilidade e econômica fazendo a grande massa de seus moradores viverem na penúria, nada mais que um retrato falado e filmado de Nova York daqueles tempos, uma cidade que assustava só em pronunciar seu nome. A trilha sonora é um dos destaques, trabalho marcante da islandesa Hildur Gudnadottir criando a atmosfera perfeita para a melancolia e a violência do personagem, além de contar com clássicos de Frank Sinatra, Guess Who, Cream, Gary Glitter e outros.

Coringa – O Filme pode ser encarado como um filme maduro, pessimista e sombrio, lembrando muito o cinema clássico norte-americano dos anos 70. Todd Philips surpreende: como um cara que é responsável pela trilogia Se Beber Não Case pode ter dirigido de forma tão intimista e eficiente a trágica transformação do perturbado palhaço de festinhas Arthur Fleck no violento e enigmático Coringa.

Antes mesmo da estreia, o filme já criou polêmicas. Dizem que não é propicio para o momento da nossa sociedade, que pode inspirar violência e massacres, que a humanização do maníaco pode gerar psicopatas, enfim a censura da hipocrisia sempre luta contra a liberdade artística e sendo que estamos falando de um filme de um vilão.

Talvez o que perturbe mesmo é quantos vilões poderiam ser evitados, às vezes com algum tratamento, apoio da sociedade, quantas pessoas que apenas com um pouco de ajuda e uma simples limpeza do meio nocivo em que vivem, poderiam não se tornar bandidos, psicopatas ou vilões. Sintetizando na frase do Coringa: ‘’O pior lado da doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse’’. E voltando à banalidade do mal, por vezes apenas uma fagulha pode desencadear um incêndio e o mal do ser humano pode se manifestar da pior forma e nem sempre essa forma é de um demônio assustador – e ela pode estar em qualquer lugar.

Sinopse: Coringa é uma história original do vilão nunca antes vista no cinema. A versão de Phillips sobre Arthur Fleck (Phoenix), um homem desprezado pela sociedade, não é só uma visão realista do personagem, mas também uma lição de vida.

Roteiro e Direção: Todd Phillips

Produção: Todd Phillips, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff

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