Crítica: Vermelho Russo (2017) | Um exercício metalinguístico entre o documentário e a ficção

Não é exagerado alguém que acabou de assistir Vermelho Russo sair do cinema com a impressão de ter visto uma mistura de Persona com Encontros e Desencontros. Refletindo sobre as máscaras do ator e do ser humano, sobre a convergência entre artista e indivíduo, num ponto em que os rios representados por essas figuras se encontram, confluem e se tornam indiscerníveis, no contexto de imersão em uma nova cultura e em uma nova língua, Vermelho Russo é uma obra repleta de significados.

O filme executa muito bem o exercício metalinguístico a que se propõe, a ponto de o espectador se sentir em uma verdadeira inception. Temos, na tela, a história de duas atrizes, as melhores amigas Manu e Marta, que saem do país para fazer um curso para atores de um mês na Rússia, e acabam se desencontrando ao se entrelaçarem em uma rede de vaidades, máscaras e ambições. Tudo isso interpretado pelas atrizes que viveram, de fato, esses acontecimentos, Marta Nowill – que também assina o roteiro –, e Maria Manoella, acompanhadas por outros atores que interpretam, também, a si mesmos participando da vida das moças no período retratado. Em cena, atores interpretando atuações, e também encarnando suas próprias máscaras, e o diretor, Charly Braun, dirigindo atores dirigindo, como o professor de teatro da escola russa.

Documentário ou ficção? É difícil responder a essa pergunta quando vemos atuações tão naturais e espontâneas, combinadas, por vezes, com uma estética de documentário e uma montagem fluida. É mais difícil ainda respondê-la quando sabemos que o filme é baseado em uma história real interpretada por alguns daqueles que a viveram. Ao analisar a obra mais profundamente, no entanto, percebemos que um dos objetivos de Vermelho Russo é nos fazer refletir sobre as interfaces entre arte e vida e seus limites, através do principal questionamento formulado por Stanislavski, um dos mestres do teatro: como me tornar outra pessoa continuando a ser eu mesmo?

Em um dos pontos altos da obra, a famosa atriz portuguesa Soraia Chaves revela que resolveu fazer um curso de teatro em outro país para buscar inspiração e tentar se desapegar da personagem que interpretou durante toda sua carreira: a mulher fatal. Soraia diz que as características dessa personagem foram absorvidas por sua personalidade, a ponto de haver uma confusão entre a artista e a pessoa. Conforme o desenrolar do filme, também notamos essas interpenetrações: o desentendimento entre Manu e Marta se reflete nas personagens que elas interpretam na peça de teatro que estão ensaiando na escola russa. Assim, uma das cenas da montagem, em que as personagens estão brigadas e fazem as pazes, converte-se em uma reconciliação emocionante entre Manu e Marta.

Qual é a diferença entre a interpretação do dia a dia e a interpretação de um ator, pergunta o personagem-diretor da peça de teatro. Para ele, o ator é aquele que vive outras vidas e outros destinos; é aquele que é outro, ainda que sendo ele mesmo. É por isso que, em seu diagnóstico final a respeito da atuação de Manu e Marta, o professor de teatro esclarece que um bom ator não é aquele que esquece de si e encarna o personagem, mas sim aquele que consegue ser ele mesmo sendo outro. Esse ponto de equilíbrio, no entanto, não é alcançado pelas duas atrizes, pois enquanto Manu reprime demais suas próprias emoções ao interpretar, Marta, ao contrário, envolve-se demais com o personagem, a ponto de transformar a si própria nele.

Para além da metalinguagem do teatro, aparece também a metalinguagem da própria vida. As máscaras encarnadas por Manu e Marta não necessariamente correspondem a quem elas são. Marta é expansiva, extrovertida e quer ser amada, mas se sente insegura por acreditar que sempre faz o papel de feia, vitimizando-se. Manu é mais retraída e sensual, enquanto tenta se mostrar segura mesmo diante de um relacionamento fracassado. Nesse jogo de máscaras, segredos e revelações, Marta e Manu se desconhecem e se desencontram ao enxergar apenas a imagem que está diante de si, sem se aprofundar.

Apesar de abordar essas questões filosóficas, Vermelho Russo trata o tema com muita leveza e bom humor. O espectador não se dá conta de que está diante de indagações tão complexas, pois as mesmas são tratadas de maneira natural e espontânea, sem perspectivas excessivamente intelectualizantes. Desse modo, o filme é daqueles que não faz grandes promessas, mas acaba nos surpreendendo.

A tempestade que acompanha a viagem de Marta e Manu à Rússia e o belo nascer do sol que se segue não mentem nem fazem suspense: haverá desentendimentos, mas tudo terminará bem. Assim, Vermelho Russo  não se pretende misterioso ou cheio de grandes surpresas. O filme, pelo contrário, tenta acompanhar o ritmo da vida cotidiana, dos acontecimentos que nos marcam e daqueles que simplesmente passam, tentando tirar deles uma reflexão sobre a arte da atuação, do teatro e, também, da vida.

Título: Vermelho Russo
Direção: Charly Braun
Duração: 90 minutos
Classificação: 4/5

Trailer

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