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Stephen Hawking

Stephen Hawking chamou cedo a minha atenção. Eu estava no início da adolescência, quando percebi o estranho livro que o meu pai lia. Ele tratava de “buracos negros”, lugares no espaço onde tudo sumia sem deixar vestígios. Sobre o tempo e como ele variava de acordo com a nossa velocidade ou lugar. Sobre deformações no espaço e outros conceitos mais loucos e fantásticos do que as fantasias da incipiente ficção científica à disposição naquela época.

O fato de o primeiro livro de Stephen ter parado na cabeceira do meu pai, um advogado e funcionário público de meia-idade que, apesar de ler muito, não se interessava especialmente pela ciência ou pela ficção científica, demonstra uma das coisas que Stephen foi (e é): um fenômeno de popularidade. Um astro pop cientista, cuja fama somente é eclipsada pela do próprio Einstein.

Uma Breve história no Tempo foi escrito no início dos anos oitenta. Quando estava em processo de revisão, Hawking sofreu uma traqueostomia e perdeu a fala. Mesmo antes, já não podia mais escrever, em vista da paralisia crescente provocada pela esclerose lateral amiotrófica. A doença primeiro o prendeu em uma cadeira de rodas e, depois, dentro do próprio corpo. Ele não desistiu do livro, assim como não desistiu da vida. Foi duplamente condenado. Aos vinte e um, ao ser diagnosticada a esclerose, quando lhe deram de dois a três anos de vida, e em meio à pneumonia, quando os médicos sugeriram desligar os aparelhos.

Stephen sobreviveu e reescreveu o texto letra por letra, utilizando o software equalizer, que lhe foi dado por Waltz Woltosz. Clicava com os dedos através de um menu de palavras. Quando perdeu a coordenação dos dedos, passou a utilizar sensores ligados a um óculos e fazia a seleção por movimentos nas bochechas. Com esses sistemas, conseguia “redigir” de uma a três palavras por minuto.

[…] entrei em contato com um agente literário, Al Zuckerman, […] Entreguei a ele um rascunho do primeiro capítulo e expliquei que eu queria que fosse o tipo de livro que vendesse em livrarias de aeroportos. Ele me disse que não havia nenhuma chance de isso acontecer. (Minha Breve História. Editora Intrínseca, 2013, pág. 104)

Sob orientação do editor Peter Guzzardi, da editora Bantam, que publicava livros populares, Hawking refez todo o seu livro. Peter, um leigo, devolvia cada capítulo com a indicação das partes que não entendia e Stephen esforçava-se para explicar em outras palavras. Um trabalho de Hércules para um homem sem forças.

O livro permaneceu 147 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times e 237 na lista do Times, de Londres. Vendeu mais de 10 milhões de cópias e foi traduzido em 40 idiomas. Todas edições tinham Hawking na capa, já sofrendo as sequelas da esclerose.

Os trabalhos científicos de Hawking são complexos. O mais importante talvez tenha sido A Estrutura em Grande Escala Do Espaço-Tempo” (tradução livre do título The Large Scale Structure of Space-Time), publicado em 1973 e escrito junto com George Ellis. O estudo garantiu-lhe o convite para integrar a The Royal Society no ano seguinte. Os trabalhos seguintes ajudaram a compreender um pouco do que seriam, como se formavam e como se desenvolviam os “buracos negros”. Nos últimos anos, Stephen rechaçou este nome, dizendo que eles brilhavam por emitirem radiação (batizada de radiação Hawking.

É difícil resumir a vida exponencial de Stephen em um artigo. Além dos trabalho científico, dos livros que publicou tentando popularizar o pensamento científico (somam-se à Uma Breve História, o O Universo numa Casca de Noz, de 2001 e o Uma Nova História do Tempo, de 2005) e dos livros infantis (George e o Segredo do Universo, de 2007), ainda conseguiu se casar e separar duas vezes, com direito a traições e intrigas, além de ter três filhos. O primeiro casamento é retratado no filme A Teoria de Tudo, de 2014, que garantiu ao ator que o interpretava, Eddie Redmayne, o Óscar de melhor ator.

O título do filme traduz uma busca de Stephen que ficou incompleta: a unificação da teoria da relatividade a da mecânica quântica. Infelizmente, com ele perdemos uma das mentes que poderiam ter o insight para a solução desse problema.

Muitas das suas suposições não deram em nada ou se revelaram incorretas. Isso também é ciência – demonstrar o que está incorreto. Quando se prova a incorreção de uma teoria, avança-se em direção à correta.

Apesar das dificuldades de comunicação, as entrevistas de Stephen (algumas são indicadas abaixo) são ótimas. Ele não podia se dar ao luxo de desperdiçar tempo ou palavras. Sempre manteve um humor afiado e irônico, que incluía a capacidade de rir de si próprio. Sua filosofia de vida era simples. Concentre-se no que pode fazer e não naquilo que não pode fazer. A própria doença era uma fonte de concentração:

Uma das consequências de minha doença foi mudar toda essa visão. Quando você se depara com a possibilidade de uma morte precoce, percebe que a vida vale a pena e que há muitas coisas que você deseja fazer. (Minha Breve História. pág. 43)

Stephen viveu 76 anos. Mais de cinquenta depois que os sintomas da esclerose lateral amiotrófica se manifestaram. Nasceu exatamente no aniversário de 300 anos da morte de Galileu e morreu exatamente no mesmo dia do nascimento de Einstein. O que isso quer dizer? Nada! Não conspurque a memória de Stephen tentando estabelecer correlações supersticiosas e sem sentido. O seu legado foi exatamente esse: mostrar-nos que o sublime e o misterioso estão ao nosso redor, nesse exato momento, para serem enfrentados e desvendados com método, inteligência e muito, muito trabalho e persistência.

Sua partida deixa a tristeza para trás. Não por ele, que viveu uma vida plena, mas sim pela humanidade, que fica um pouco órfã.

Uma mente que se dedicou aos buracos negros e brilhou como um quasar. Agora, ela se funde ao universo que tanto amou.

 

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