Crítica: Nasce uma Estrela (Bradley Cooper, 2018) - NoSet
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Crítica: Nasce uma Estrela (Bradley Cooper, 2018)

Histórias sobre a ascensão, carreira e queda de músicos, atores e esportistas são um exemplo perfeito de um certo tipo de narrativa do herói e o seu poder em engajar o público sedento pelo arco do homem que saiu do nada, venceu na vida e alcançou o sucesso. Essa jornada típica funciona há anos – e continuará assim – porque o cinema produz um sonho vivo em duas horas, faz quem vê se sentir inspirado por gente talentosa e sair da sessão com aquela sensação de “todo mundo pode”. Foi assim em casos mais recentes (em termos de escala da história do cinema) como Ray (Taylor Hackford, 2005), 8 Mile (Curtis Hanson, 2002), Johnny & June (James Mangold, 2005), obras baseadas em pessoas reais, mas que servem de comparação em termos de forma. No entanto, isso já era contado bem antes: 1937 é a primeira versão (as outras de 1954 e 1976) de Nasce uma Estrela, agora dirigido por Bradley Cooper e com Lady Gaga como protagonista. A história vem lá do cinema clássico, mas é atemporal e se encaixa perfeitamente ao mundo contemporâneo. A nova adaptação tem mais jeito de tradicional, embora isso não signifique que seja anacrônico. É o famoso filme “redondinho”, que não arrisca muito, mas certamente é bem-sucedido no que se propõe.

A estrela da vez é Ally (Gaga), uma garçonete que compõe músicas e canta em bares no seu tempo livre. Desacreditada pela situação em que vive, acaba conhecendo Jackson Maine (Cooper), famoso cantor country rock, quando este a vê cantando após sair de uns de seus grandes shows. Uma conexão musical e emocional é logo construída entre os dois e suas vidas começam a ser modificadas um pelo outro; ela tendo sua chance de seguir a sonhada carreira musical e ele buscando resgatar a inspiração perdida nos anos de fama e álcool.

Se você já viu os exemplos que citei acima ou viu outros inúmeros similares, não esperará algo muito fora da caixa aqui. Diferente de obras como The Doors (Oliver Stone, 1991) e Não Estou Lá (Todd Haynes, 2007), que mergulham fundo na investigação psicológica de seus personagens e até privilegiam o exercício da linguagem acima da  rigidez biográfica, Nasce uma Estrela segue um padrão mais linear e confortável, o que a princípio não parece lá muito animador. A familiaridade na estrutura provavelmente não guardará muitas surpresas quanto à trama e os arcos principais, mas o que se pode afirmar é que definitivamente o longa tem “alma” própria graças à sensibilidade de Bradley Cooper como diretor e à ótima química com Lady Gaga.

Falando em sensibilidade, a obra lembra um pouco o trabalho do excelente cineasta irlandês John Carney, de preciosidades como Apenas Uma Vez, Mesmo Se Nada Der Certo e Sing Street. Ainda que não alcance o mesmo efeito de conectar perfeitamente narrativa com música em tons melancólicos, Cooper consegue ser aprazível na abordagem ao trabalhar bem a união entre as emoções da música e do cinema. Isto porque além de ser um musical (não no sentido original, já que as canções são todas diegéticas) é também uma história de amor bastante simpática e honesta. Sim, há clichês que poderiam ter sido suavizados, mas um bom filme é também aquele que dá peso a eles e consegue emocionar mesmo usando artifícios conhecidos para qualquer cinéfilo com mais bagagem.

O grande responsável para isso é o trabalho de atuação, tanto do elenco principal como o de apoio. Os melhores exemplos começam pela forma acertada como o roteiro – também de Cooper em parceria com Eric Roth e Will Fetters – dá importância para certos personagens sem que eles apareçam muito. Como o pai de Ally, Lorenzo, Andrew Dice representa o lado musical reprimido pelo sucesso que nunca veio, Dave Chappelle em uma participação pequena, mas com um dos melhores monólogos do filme, e Sam Elliot, excelente como o irmão de Jack – aliás, é dele uma das melhores cenas, quando a sutileza se mostra sempre superior ao clichê numa conversa dos irmãos sobre o passado, lembrando que é sempre fascinante ver alguém que costuma reprimir as emoções finalmente se entregando a elas.

Mas é mesmo na dupla principal que reside o ponto forte. Bradley Cooper cada mais surpreende com uma capacidade de criar personagens diferentes em cada filme que faz. Jack Maine é um artista com tempo de estrada e já há muito tempo está anestesiado pelo vício no álcool. Através de uma voz grave e ocasionalmente balbuciante, o ator transfere o peso da decadência ao olhar cansado e à falta de vontade na carreira do homem. Assim, quando ele finalmente conhece Ally, vemos seu rosto se iluminar e recuperar vida, mesmo com a aparência ainda desgastada, mérito de uma composição bastante orgânica e verdadeira. Além do mais, o ator, a pedido da própria Gaga, fez aulas de canto e dispensou a dublagem de outra voz para todas as cenas onde canta.

Já a parceira confirma a aptidão para a atuação em seu primeiro papel no cinema de grande destaque (ela já participou de outros filmes e séries), fora que sua escalação serve pelo lado obviamente talentoso (menos uma substituição para cantar o tocar piano) e como forma de referenciar a própria imagem da artista ao comentar sobre o mundo dos bastidores da música – nesse ponto, há uma interessante autocrítica do próprio universo pop e a luta constante para manter o lado “artista” junto com os negócios milionários. Além disso, ao usar a imagem “limpa” da cantora, sem as conhecidas excentricidades, o longa permite ainda mais vermos a vulnerabilidade da personagem ressoando com um inevitável paralelo com a vida real.

Lembrando também um pouco de Cameron Crowe (Quase Famosos, 2000), a direção preza pequenos momentos de sensibilidade que ajudam numa sensação agradável e romântica em relação à música. Mesmo que as canções eventualmente não se relacionem com o gosto de todos, é difícil não ser pego na entrega da dupla em transpassar a paixão dos personagens pela arte. Ajuda também a câmera que passeia entre closes nos olhares e nas expressões responsáveis por construir a intimidade entre a dupla, fora o uso de cores fortes e até flares que contribuem para uma leve sensação de estar num longo clipe musical. Porém, na estrutura geral o longa tem seus tropeços, principalmente na montagem (e provavelmente na concepção da história), que acaba criando alguns saltos temporais que tendem a dar um falso peso de importância na relação dramática entre Jack e Ally. Durante boa parte do 2º ato, vemos pouco do real impacto da carreira sobre ela e passamos por certas supressões acerca do relacionamento entre os dois que parecem tornar muito episódicas as diversas fases do casal. Mesmo assim, a redenção vem na mesma moeda através de um corte certeiro que acontece ao final do 3º ato (não darei spoilers), dando aquela “porrada” final no público, que certamente vai sair adorando o resultado.

Nasce uma Estrela não é uma obra-prima e nem chega perto de se arriscar como outras histórias semelhantes, mas é aquece tipo de filme feito sob medida para agradar todo mundo – nesse caso, não de forma negativa, já que mesmo reconhecendo suas limitações, fui um daqueles que saiu querendo escutar música e rever todas aquelas referências citadas lá no início.

Nota: 

Trailer

Data de lançamento: 11 de outubro de 2018 (2h 17min)

Direção: Bradley Cooper

Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, Ron Rifkin

Sinopse: O experiente músico Jackson Maine (Bradley Cooper) descobre a jovem artista desconhecida Ally (Lady Gaga), por quem acaba se apaixonando. Ela está prestes a desistir de seu sonho de se tornar uma cantora de sucesso, até que Jack a convence a mudar de ideia. Porém, apesar de a carreira de Ally decolar, o relacionamento pessoal entre os dois começa a desandar, à medida que Jack luta contra seus próprios demônios e problemas com álcool.

 

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