Crítica | O Irlandês - NoSet
Cinema

Crítica | O Irlandês

Quem matou Jimmy Hoffa? Ou melhor onde foi enterrado o corpo de Jimmy Hoffa?

Essas perguntas há mais de quatro décadas intrigam os norte-americanos desde o sumiço do maior sindicalista americano da história. Jimmy era um homem simples, nascido no Brasil (cidade do estado de Indiana), caminhoneiro, que aos poucos foi ganhando simpatia dos seus companheiros, e que a partir de 1952 passou a  liderar o ‘’Teamsters’’ maior sindicato dos Estados Unidos que reunia a categoria dos caminhoneiros e também englobava frentistas, estivadores, mecânicos e uma centena de categorias e que, nas palavras do próprio Hoffa: ‘’Podemos parar a America quando quisermos‘’. Hoffa conseguiu diversos avanços para as categorias, aumento de salários, planos de saúde, carga horária mais humana, seguro desemprego além de controlar um fundo de previdência milionário. Logicamente que seu poder sobre multidões, o fez ficar de caso com a máfia, circulando entre figurões e aumentando sua influência ao mesmo tempo nutrindo ódio e inveja também dos seus inimigos. A lenda de Hoffa fazia com que ele fosse considerado o segundo homem mais poderoso da América, abaixo apenas do presidente, aliás presidentes como John Kennedy, que ele e seu exércitos de sindicalistas e a máfia ajudaram a eleger. Só não contavam que o irmão desse fosse um calo na sua vida: Robert Kennedy mandou investigar o sindicato e suas falcatruas, o que num futuro fez Hoffa pegar alguns anos de cana. Em 1975 já sem tanto prestígio, sumiu (melhor, sumiram com ele) e sua lenda aos poucos foi se apagando. Em 2019, Martin Scorsese tendo como gancho a história de uma suposta solução para o desaparecimento de Hoffa, nos apresenta sua nova obra prima O Irlandês (The Irishman), em épico de mais de três horas que condensa sem pressa umas quatro décadas da história norte americana.

O filme é narrado com as reminiscências de Frank ’’O Irlandes’ ’Sherran (Robert de Niro) veterano de combate na segunda guerra que de um simples caminhoneiro passa a ser um capanga matador da família Bufalino, tendo como padrinho Russel Bufalino (Joe Pesci), e que com a aproximação da máfia com Jimmy Hoffa (Al Pacino), ele é designado pela ‘’famiglia’’ para ser braço direito do sindicalista Hoffa, ao mesmo tempo que sua ascensão no submundo lhe traz louros e  poder, ele cada vez mais perde a confiança e respeito de sua família que não aprova seu meio de vida.

Poucos diretores ainda causam uma expectativa boa quando lançam seus novos filmes. Talvez Woody Allen, Tarantino, Almodóvar, Eastwood e é claro Martin Scorsese. Nesse seu novo filme com roteiro de Steven Zaillian, baseado no livro O Irlandes (Heard You Paint Houses), de um ex-investigador, Charles Brandt, Scorsese consegue com a maestria de sempre prestar uma homenagem madura a sua obra além de prestigiar seus velhos amigos atores. Robert de Niro, Joe Pesci, Harvey Keitel (num pequeno mas importante papel), seus grandes escudeiros estão juntos novamente e agora acrescidos pela lenda Al Pacino. Não tem como não funcionar juntar um dream team desses e ter como pano de fundo uma síntese da história norte-americana entre os anos 50 e 90, pelo ponto de vista de mafiosos. Ao contrário de sua obra prima do gênero, Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990), moderno e às vezes frenético e o glamouroso Cassino (idem, 1995), O Irlandês mostra um lado mais melancólico da máfia, onde medos, conflitos e reflexões fazem parte da rotina daqueles contraventores. Entre mortes encomendadas, sabotagens e envolvimento político existiam homens que tinham famílias, que sofriam e pensavam se aquilo tudo valia a pena ao mesmo tempo que eles mesmo questionavam o valor da honra e a verdadeira amizade.

Não tem como não comparar a obra como o cinema do movimento da Nova Hollywood devido a seu ritmo, clima taciturno, fotografia, roteiro e tons das atuações. Aliás todos os velhos amigos e o próprio Martin colaboraram e muito para salvar o cinema americano dos anos 70 sendo peças fundamentais desse renascimento. Pacino está ótimo como um perturbado e quase paranoico Hoffa, lembrando seus grandes papeis; Pesci faz um dos seus personagens mais sóbrios, reflexivo, mas com sua vida pontuada pela violência usando como estepe para as ações o Robert de Niro que mais uma vez dá seu show conduzindo a incrível história de Frank Sherran entre idas e vindas do tempo com aquele talento único, parecendo que certos papeis caem naturalmente para ele tamanha a facilidade com que ele interpreta. A montagem está perfeita pontuado esses regressos temporais, tudo de maneira sedimentada, sem cortes bruscos, câmeras nervosas tudo com muita sutilidade, mérito a montadora Thelma Schoonmaker. Outra característica do filme são os efeitos digitais, graças a eles os atores puderam ser eles mesmos pulando de jovens para idosos apenas atuando. Um efeito curioso, não perfeito, mas que mostra o Scorsese dos novos tempos, um artesão do cinema se rendendo para a tecnologia e com a benção da Netflix, que produziu o filme não poupando em recursos, além de a gigante do streaming, em comum acordo com o diretor, ter aberto brechas para sessões em cinemas antes de sua estreia no canal. Isso mostra que ela está cada vez mais ávida por premiações e quer ser referência também em grandes filmes. Uma sintonia que parece ter dado certo.

A questão Hoffa também ganha um desfecho, que até hoje não se tem certeza, mas que no filme ganha solução. Uma cena curiosa do filme é quando Sherran, já idoso numa clínica mostra fotos antigas pra uma enfermeira e em uma delas está a sua filha, que não perdoava os crimes do pai, junto a Jimmy Hoffa. Ele pergunta para a enfermeira se conhece aquele homem e ela responde que não. Sherran se surpreende por pensar como um cara que outrora comandava a América, hoje é esquecido, uma prova de que o tempo passa, os valores mudam e a idade custa a entender o porquê isso acontece.

Aliás, melancolia e crises existenciais do personagem principal, os fantasmas de culpa e o desprezo das filhas o atormentam demais, enfim a solidão de quem tinha tanto poder e dinheiro, mas não tinha liberdade pontuam o desfecho triste da vida de um ex-mafioso idoso. Mostrar o canto dos cisnes de velhos mafiosos que assombravam a sociedade e vão aos poucos morrendo de bala, doença, abandono e velhice fecham com chave de ouro uma obra prima. Scorsese mais uma vez prova que quem sabe fazer cinema, mesmo reciclando velhas ideias, utilizando velhos amigos, usando recursos modernos e novos colaboradores e que basta ter talento para tudo soar com ar de uma grata novidade, e isso tudo parece fácil para Martin Scorsese.

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