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Um pouco sobre Um Homem com uma Câmera, de Dziga Vertov

Um pouco sobre Um Homem com uma Câmera, de Dziga Vertov
  • Publishedjaneiro 3, 2026

Um Homem com uma Câmera (Chelovek s kino-apparatom, 1929) impressiona por sua técnica, espetáculo e linguagem. O seu ritmo, os seus planos, a sua metalinguagem, tudo parece estar à frente de seu tempo, funcionando tão bem hoje em dia (talvez até melhor) do que quando o filme foi lançado. 

O diretor soviético Dziga Vertov faz de Um Homem com uma Câmera um experimento cinematográfico. Ao filmar Moscou, Kiev e Odessa ao longo de um dia, Vertov captura a vida urbana como se as cidades fossem seres vivos, quase com vontades e motivações próprias. O início do filme mostra as cidades vazias, quietas, como que acordando de um sono profundo, para então, conforme a manhã e tarde vão avançando, o dinamismo chega a um ápice quase insuportável e angustiante, para só então, durante a noite, se aquietar novamente, como um animal exausto.

Para dar essa noção de velocidade, a montagem de Yelizaveta Svilova é crucial. O dinamismo alcançado pela montadora é invejável para muito filme lançado em 2025. Um Homem com uma Câmera consegue gerar um sentimento de ansiedade no espectador, o que é essencial para a imersão. E vale lembrar que é um longa do cinema mudo, obviamente que o filme era apresentado com o auxílio de uma orquestra, e as versões que são possíveis de se encontrar na internet vem acompanhada de música, mas mesmo se você preferir assistir Um Homem com uma Câmera em silêncio, o efeito é o mesmo, de tão efetiva que é a montagem.

Tão importante quanto a edição de Svilova é o material que ela tinha para trabalhar, e nesse ponto, é importante notarmos quem foi o homem com uma câmera na prática: Mikhail Kaufman. Os planos extremamente arriscados, como a tomada feita nos trilhos do trem, enquanto o veículo passa a centímetros da câmera ou a do próprio Kaufman subindo a viga de uma ponte em busca do melhor ângulo, criam imagens magníficas das cidades e de seus moradores. O senso estético da produção do filme é afiadíssimo, transformando o ordinário do cotidiano urbano no extraordinário captado pela câmera.

Ainda sobre o extraordinário, é preciso tomar cuidado. Esse extraordinário não é ensaiado ou construído. Vertov não tinha interesse em demonstrar nada além do real, a ponto de Um Homem com uma Câmera não ser filmado com atores e não ter cenas ensaiadas (com a exceção de algumas pequenas cenas, como a que vemos uma mulher se vestindo). Para Vertov, o extraordinário estava em tudo o que a câmera consegue registrar que o olho humano não consegue, entretanto é importante notar: a câmera ainda está registrando nada mais do que a realidade. 

No manifesto proposto pelo Conselho dos Três, grupo fundado por Vertov, é discutido o conceito do Cine-Olho: 

“[…] Portanto, tomamos como ponto de partida o uso da câmera como cine-olho, mais aperfeiçoado do que o olho humano, para a exploração do caos dos fenômenos visuais que preenchem o espaço.

O cine-olho vive e se move no tempo e no espaço; ele reúne e registra impressões de uma maneira totalmente diferente daquela do olho humano. A posição de nossos corpos enquanto observamos ou nossa percepção de um certo número de características de um fenômeno visual em um dado instante não são de forma alguma limitações obrigatórias para a câmera que, uma vez aperfeiçoada, percebe cada vez melhor.

Nós não podemos aperfeiçoar a feitura dos nossos olhos, mas a câmera pode ser indefinidamente aperfeiçoada. […]” 

De acordo com Vertov, enquanto o cinema ocidental, até aquele ponto, tentava imitar o olho humano em seus planos, Vertov acreditava que a câmera deveria dar um passo além. Enquanto que com o seu olho você não consegue enxergar o fundo de um trem em movimento, por exemplo, com uma câmera, você consegue acessar e registrar imagens para além da capacidade humana. Inclusive, o Vertov e sua equipe antecipa diversas técnicas cinematográficas que hoje em dia são comuns: a câmera acelerada, o Stop Motion, a sobreposição, o plano holandês e movimentos de câmera extremamente criativos. Toda essa técnica com a ideia de registrar a realidade da maneira mais fidedigna possível, registrando não só a imagem, mas as sensações do ambiente. 

Um Homem com uma Câmera, no entanto, não esquece de que, no final das contas, a cidade, o cotidiano, as técnicas cinematográficas e o cinema como um todo é construído por pessoas. O filme é construído de ciclos de aceleração e desaceleração; de tensão e relaxamento. Nos momentos de baixa de ritmo, Vertov faz questão de focar nessas pessoas que compõem aquelas cidades. Os trens só conseguem funcionar por conta dos maquinistas, as roupas só podem ser utilizadas, porque as costureiras as cortaram. Da mesma forma, Vertov faz um paralelo com o cinema: um filme só existe, porque alguém filmou e montou o material. Vertov a todo momento desacelera para nos lembrar que um todo é formado por muitas partes individuais tão importantes como o coletivo completo, da mesma forma em que milhares de fotos estáticas compõem o movimento de um longa-metragem inteiro. 

Dziga Vertov entregou ao mundo um dos maiores documentários já feitos, que antecipou as técnicas e linguagem utilizadas em filmes mais de cem anos depois de seu lançamento (alguns, inclusive, que Vertov desprezaria). Através de sua câmera que, além de olho, é uma janela para a realidade, e portanto, é também cinema, o diretor mostrou a vida de uma maneira nunca antes vista, revolucionando a percepção do mundo todo. 

Written By
Guilherme Pedroso