Em 1984, surfando tardiamente na onda do sucesso de Superman, que depois do terceiro filme já tinha perdido a credibilidade, o diretor Jeannot Szwarc, que tinha dirigido desde Tubarão 2 até o cult Em Algum Lugar do Paraíso, levou a prima do Clark Kent para as telonas. Com Helen Slater como Supergirl, o filme, com intermináveis duas horas e meia de duração e gente do quilate de Faye Dunaway, Mia Farrow e Peter O’Toole, virou um dos maiores abacaxis dos anos 1980. Tudo deu errado e hoje é cultuado com nostalgia pelo roteiro bisonho e efeitos duvidosos. 42 anos depois, na nova fase da DC, com seu novo universo controlado por James Gunn, Supergirl volta à cena como o segundo filme dessa leva, com direção de Craig Gillespie, Supergirl (2026), e mesmo quatro décadas depois, a prima do Kar El ainda não ganhou uma versão digna para os cinemas.
Kara Zol El, ou nossa Supergirl, uma das sobreviventes de Krypton, vive uma vida errante de bar em bar, planeta a planeta e tragos e estragos a cada noite. Disposta a comemorar seus 23 anos se acabando, ainda pensa em como seu planeta foi destruído, com fortes cicatrizes emocionais da perda dos pais, a companhia do seu cachorro atrapalhado Krypto é um dos poucos consolos. Só que um dia cruza no seu caminho a menina Ruthie. Filha de um fabricante de espadas, viu sua família ser massacrada por bandoleiros liderados pelo sádico Krem, que além de bandido, faz tráfico de seres humanos. A garota, com uma espada em punho, jura vingança e convence Kara a ajudá-la a encontrar o canalha do Krem para juntas derrotar seu bando e acabar com o temível vilão, ainda mais que ele feriu o Krypto. Na jornada, as duas acabam conhecendo Lobo, um antiheroi alienígena casca grossa que pode ser útil para elas encontrarem e acabarem com Krem e sua trupe.

Craig Gillespie consegue errar em quase tudo. Supergirl é um filme que vai deixar tantos os fãs do universo de herois decepcionados, quanto os curiosos atrás de mera diversão que irão perder duas horas de seu precioso tempo. O roteiro foi escrito por Ana Nogueira, em um dos filme mais chatos do ano, sem dúvida alguma. O filme, uma mistura de Star Wars, John Wick (vingança canina), Guardiões da Galáxia, Bravura Indômita e Mad Max até a medula, nos dá uma sensação que tudo que vemos ali já foi feito. Até os tais dramas pessoais da orfã de Krypton não sensibilizam ninguém, é mal desenvolvido, explorando piadas sem graça e autorreflexão extremamente rasa.
Ao explorar um tom sombrio demais nas imagens, talvez com medo de ter seus efeitos questionados, a fotografia, com pouca nitidez, prejudica a atenção no filme, que com seu fio de roteiro provoca muito sono, destoando dos filmes do gênero e seus delirantes frenetismos, o que poderia ser um mérito se tivesse alguma coisa a dizer, o que não é o caso. Até a Supergirl, que quer apenas se divertir entornando bebidas nos melhores bares da galáxia, demora a empolgar como heroína, deixando toda a ação para a parte final do filme.
Mas aí entra o problema. Abusando de cenas em câmera lenta e efeitos visuais comuns, destoando das melhores produções, mesmo quando nossa super-heroína calça as botas e o veste o uniforme, tudo é tão pouco empolgante que a palavra que define a saga de Kara é apenas uma: decepção. Sem cenas que prendem o espectador, uma coadjuvante péssima ao seu lado, a menina Eve Ridley, que nos apresenta umas das atuações mais chatas de um filme de ação dos últimos tempos e até Jason Momoa, que mesmo trazendo dignidade e semelhança ao maléfico Lobo, parece que está sempre fazendo o mesmo papel e tirando piadas típicas, sua luz própria não acrescenta muito ao filme. E até o vilão não convence, Matthias Schoenaerts, mesmo com toda a banca de malvadão não passa de uma caricatura sem graça e que não mete medo.
O melhor do filme mesmo é Milly Alcock. Mesmo com críticas de imbecis preconceituosos que achavam que sua aparência considerada não ideal para o papel, para esses bolhas de fãs machistas, ela dá uma tom de humanidade à personagem, seus conflitos, forma de ver o seu mundo e quando tem que resolver na porrada os problemas, não mede esforços para provar que pode ser a prima querida de Superman.
Mas Supergirl é a prova que apenas uma boa atuação que cala a boca de críticos misóginos não é o suficiente. O filme não embala como história de vingança, tem efeitos fracos, cenas de ação triviais e até o humor que poderia ser algo diferente nessa nova fase da DC não ajuda, com piadas sem timing e que não causam nem risadas de canto de boca. Se o filme de 1984 ainda tinha uma certa pompa com grandes artistas tentando emular o clássico Superman de 1978 na versão da prima, mas que por inúmeras razões, falhas de produção e atuações fracas foi um fracasso, o Supergirl de Gillespie tem tudo para ser esquecido como o planeta Krypton, onde poucos sobraram para contar a história. Inclusive, história é o que falta nesse roteiro preguiçoso e desinteressante do filme, em que as pouco mais de uma hora e 40 minutos parecem uma eternidade, num dos já possíveis piores filmes de 2026 e isso que nem chegamos a metade desse ano…