Show – Guns N’ Roses no Jockey Club – Porto Alegre
O Guns N’ Roses já tinham vindo em muitas oportunidades para Porto Alegre, mas eu jamais tinha visto Axl e sua trupe. Motivos como falta de interesse, formações descaracterizadas e falta de dinheiro, sempre fizeram que eu adiasse conhecer a que outrora era a banda de rock mais famosa e mais perigosa do mundo. E digo isso com autoridade, o Guns N’ Roses foi o último baluarte do rock and roll que furou a bolha, virou mainstream e se tornou popular, no sentido real da palavra. Conheci a banda no fim dos anos 1980, mas foi quando assisti com amigos o show deles no Rock In Rio de 1991, numa televisão de 14 polegadas, que meu mundo mudou. No dia seguinte, os oito piás da rua queriam fazer uma banda, no caso, um octeto, que se chamaria Rosa dos Ventos. A partir dali inventei, com 12 anos, que queria ser músico, tocar violão e depois baixo, para seguir os passos de meu ídolo, Duff McKagan. Então, a música virou minha vida, meu ar, meu sustento e minha inspiração. Lógico que a tal Rosa dos Ventos não deu muito certo, poucos seguiram a carreira, mas o Guns (que considero ter acabado de verdade no fim dos anos 1990) pode ter certeza que mudou minha vida. E eu tinha uma dívida com meu passado e uma curiosidade incrível de conhecer os meus outrora ídolos. Pois então, eles vieram ao Jockey Club de Porto Alegre semana passada e fizeram, para minha sorte, talvez o melhor show deles em terras gaúchas. Corrigi minha falha e estive presente, com mais de 25 mil pessoas, para prestigiar essa noite histórica.
O local era o Jockey Club, de péssima localização, que também foi palco de dois shows inesquecíveis, Kiss em 1999, e Metallica, no mesmo ano. No Kiss eu estive e ainda guardava na memória os desníveis do local, as pedras e a grama seca, além dos barrancos perigosos que levam ao acesso do lugar. E aquele filme, lógico que passou na cabeça, daquele dia de 1999, em que vi outros ídolos – e em breve estaria vendo meus heróis de adolescência. Hoje o Guns N’ Roses não assusta ninguém e o público é família. Uma lua linda e uma noite agradável recebiam muita gente de camisa da banda (talvez umas das mais vendidas no Brasil, junto com o Iron Maiden e o Ramones), casais felizes, muitas crianças, adolescentes e um clima de paz para assistir os velhos ídolos, hoje senhores comportados e limpos de substâncias. A banda de abertura foi o Halestorm, banda estadunidense com a ótima guitarrista e vocalista Lzzy Hale comandado e aquecendo a massa. Mas confesso que por melhor que seja a banda, ninguém ali estava muito afim para eles, nós queríamos o Guns N’ Roses, e não por falta de talento ou qualquer outro requisito, a música mudou e o Halestorm jamais será um décimo do que representa o Guns N’ Roses.
Costumo dizer que a popularidade de uma banda se mede por quem sabe quem ela foi, e desde o motorista da lotação que me levou, o fiscal de linha, os populares na volta, todos sabiam quem eram os Guns N’ Roses, repito, a última banda de rock que teve esse poder de ser considerada sinônimo de roqueira. Slash e Axl são duas entidades que pouca gente com mais de 30 anos não deve conhecer a icônica imagem da dupla.
E indo para o show, com apenas 20 minutos de atraso (teve show aqui com o Fake Roses que tivemos 4 horas de atraso), Richard Fortus na guitarra, Isaac Carpenter na bateria, o fiel escudeiro Dizzy Reed nos teclados, entram para dividir o palco com Duff, Slash e Axl Rose. Para começar os trabalhos e fazer o local ir abaixo, a guitarra cortante de Slash anuncia o hino Welcome To The Jungle. Catarse e emoção, inclusive a minha, de ver o trio esbanjando talento e aquele domínio de palco que só eles tem. A trinca inicial, com Welcome seguido por Live And Let Die, que fez uma geração conhecer os Wings e a carreira solo de Paul McCartney e Mr Brownstone, não deixa ninguém parado. Mas enfim, vamos falar de Axl. O popstar, mais magro, com vestes comportadas, dentes mais brancos que chão de hospital, continua com uma energia de emocionar e digo com autoridade: cantou muito bem. Não vamos mais esperar aqueles drives e vozes rasgadas que embalaram os anos 1980 e 1990, mas mesmo com falsetes, às vezes esquisitos, que lhe deram a fama de Mickey, ele manda muito bem, e com todo respeito… ele é o Axl Rose.
O set seguiu com Chinese Democracy, um cover do Velvet Revolver (banda que era o Guns sem o Axl), Slither e Is So Easy nos faz lembrarmos daquele vídeos em VHS dos anos 1980 nos inferninhos que o Guns tocava pelos EUA. A lindíssima Yesterdays tem sua inscrição antes da homenagem da banda ao Black Sabbath com Sabbath Bloody Sabbath. Hoje Guns lembra muito aquela fase Las Vegas do Elvis, desde uma caveira anunciando no telão músicas, um palco com telões ligados nos lugares de amplificadores, musicais em andamento mais lentos, mas tudo feito com muito esmero, num show impecável.
Pretty Tied Up do Use Your Illusion 1 segue o set, mas a ótima Dead Horse é que ganha a galera. Confesso que caiu lágrimas ao ouvir a canção. Double Talkin Jive e a fraca Nothin (Guns N’ Roses não precisa mais lançar nada de novo) abrem caminho para a icônica Civil War, com o assovio clássico do Axl Rose pontuando o dedilhado de Slash. Seguem dois abacaxis recentes, as péssimas Perhaps e Atlas, que foi aquele momento de ir ao banheiro, pegar cerveja e bater papo, já que o som estava relativamente baixo, o que é uma boa notícia para os ouvidos, mas estranho para um show de rock, enfim estamos vendo o Guns Las Vegas, né? Com You Could Be Mine a coisa ficou séria de novo. Trilha do Exterminador do Futuro 2, o Jockey se empolgou novamente com a canção de 1991, da época em que eles eram gigantes. Axl deu um banho de simpatia e falou mais em Porto Alegre nesse show que somados todos os shows que a Maria Bethânia e o Caetano fizeram por aqui. Vai que o povo de Indiana é mais simpático que alguns velhos baianos… mas enfim, Duff toma as rédeas e canta seu número, Attitude, cover dos Misfits, para logo em seguida Slash puxar mais um cover, esse que se tornou maior que a original do Bob Dylan, Knockin On Heaven’s Door. Slash arrasa com os inúmeros solos e ainda mostra porque é um dos maiores guitarristas da história e Axl comanda a massa nos refrões em mais um momento de cair uma lágrima quente do olho. Outro momento mágico foi vê-los tocando Estranged, super épico da banda.
Mas param as máquinas quando Slash puxa o solo de Sweet Child O’ Mine, todo mundo parou, seguranças, pessoal da copa, policiais, ambulantes, caixas, e é claro, 25 mil pessoas que foram hipnotizadas por umas das músicas mais conhecidas da história e no Brasil é mais famosa que muitas do nosso cancioneiro. Axl ainda chamou os gaúchos no meio da canção, causando celeuma. Posso afirmar, vi o Guns tocando Sweet Child O’ Mine na minha frente, uma sensação que indico para qualquer pessoa. Ainda nos recuperando desse momento lindo, Axl coloca um casaco roxo com lantejoulas, vai ao piano, e no seu melhor estilo Elton John, puxa November Rain. Mais um momento de puro brilho numa das canções mais lindas do mundo. Emoção nos rostos, mentes e olhos das pessoas, um privilégio de ouvir e assistir isso.
Depois desses hinos a banda volta aos primórdios com Shadow Of You Love, literalmente tirando do fundo do baú a canção que era do Hollywood Rose. Nightrain mostra que o hard rock nas veias ainda está presente e com Paradise City, depois de mais duas horas e meia de show, a banda termina em grande estilo um memorável show.
Muita coisa pensei nesses 150 minutos de frente com o Guns, aquele início, aquele amor pela banda, a vontade de deixar o cabelo crescer, quebrar barreiras e regras, ter atitude rock and roll e fazer música. Com quase 50 anos, fica a nostalgia, aliás o Guns é pura nostalgia, o poder da banda é transpor a gente para um tempo que o rock salvava, o rock era música de jovem e a megalomania dos excessos e alta qualidade das suas composições imperava. Hoje, por mais cara de Elvis fase Las Vegas, banda cover de si mesmo, andamentos mais lentos nas músicas e um Axl Rose longe de ser a sombra daquele sex symbol com a voz rasgadas, mesmo assim eles continuam sendo umas das bandas mais incríveis que passaram pela Terra e um dos shows mais fantásticos que vi. Meu obrigado a Duff, Axl e Slash por terem feito a história da música melhor e ainda nos proporcionarem momentos como esse.