A dramaturgia brasileira está de luto. Laura Cardoso, uma das maiores e mais respeitadas atrizes da história da televisão, do teatro e do cinema nacional, morreu aos 98 anos, na noite de segunda-feira (17), em São Paulo. A informação foi comunicada pela família.
Laura Cardoso não foi apenas uma atriz. Foi uma testemunha e, ao mesmo tempo, uma das grandes construtoras da história da dramaturgia brasileira. Foram mais de oito décadas dedicadas à arte, atravessando diferentes gerações, emissoras, estilos e transformações da televisão e do cinema.
Sua trajetória começou ainda muito jovem, no rádio, aos 15 anos. Depois, ela chegou à televisão em seus primeiros anos no Brasil, tornando-se uma das pioneiras da teledramaturgia. Ao longo da carreira, acumulou mais de 60 novelas e mais de 100 trabalhos entre televisão, cinema, teatro e outras produções.
Uma coleção de personagens inesquecíveis
É impossível falar da televisão brasileira sem lembrar de Laura Cardoso.
Entre seus trabalhos mais marcantes estão novelas como “Mulheres de Areia”, em que interpretou Isaura; “A Viagem”, como Guiomar; “Chocolate com Pimenta”, “Caminho das Índias”, “Gabriela”, “Explode Coração”, “Fera Radical”, além de inúmeras outras produções que ajudaram a construir a memória afetiva de milhões de brasileiros.
Em “Chocolate com Pimenta”, seu talento ganhou novamente destaque junto ao grande público. Em “Caminho das Índias”, dividiu a cena com grandes nomes da televisão, em uma parceria que marcou também a longa amizade profissional com Tony Ramos. Já em “A Dona do Pedaço”, em 2019, fez sua última novela.
Mas reduzir Laura Cardoso à televisão seria pequeno diante de sua importância.
Teatro, cinema e uma vida inteira de dedicação
No teatro, Laura construiu uma carreira igualmente respeitada, trabalhando com grandes diretores e protagonizando espetáculos que lhe renderam importantes reconhecimentos, incluindo dois Prêmios Shell de Melhor Atriz. No cinema, participou de mais de 20 filmes, entre eles Terra Estrangeira, Através da Janela e O Outro Lado da Rua.
Sua voz também ficou registrada na memória de gerações. Entre 1963 e 1966, Laura foi a dubladora brasileira de Betty Rubble, de Os Flintstones.
Ao longo de sua trajetória, recebeu algumas das principais homenagens da cultura brasileira, incluindo a Ordem do Mérito Cultural, em 2006, e o Troféu Oscarito, em 2023, pelo conjunto de sua contribuição ao cinema.
Uma artista que nunca deixou de amar o ofício
Mesmo depois de décadas de carreira, Laura Cardoso continuava falando sobre a profissão com o entusiasmo de quem estava começando.
Em uma entrevista concedida à Folha em 2023, a atriz resumiu seu sentimento pela vida e pela profissão ao afirmar que havia “amado” sua carreira e gostava muito de sua vida.
E talvez seja justamente esse o maior legado de Laura: ela nunca tratou a arte apenas como profissão. Tratou como parte de sua própria existência.
Em 2025, já aos 97 anos, ainda participou do curta-metragem “Dona Rosinha”, mostrando que sua relação com a interpretação permanecia viva. No mesmo ano, recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, reconhecimento simbólico de uma trajetória que ajudou a transformar a televisão brasileira.
Uma despedida para uma grande dama
Laura Cardoso deixa duas filhas, familiares, amigos, colegas de profissão e, principalmente, um país inteiro que aprendeu a reconhecer sua voz, seu rosto e seu talento.
Ela atravessou oito décadas de história sem perder a essência de atriz. Interpretou mães, avós, mulheres fortes, personagens humildes, sofisticadas, engraçadas, dramáticas e inesquecíveis. Em cada papel, deixava alguma coisa de sua própria grandeza.
Hoje, o Brasil se despede de uma de suas grandes damas.
Laura Cardoso parte, mas sua arte fica.
Ficam Isaura, Guiomar, personagens de Chocolate com Pimenta, Caminho das Índias, Gabriela, Explode Coração, A Dona do Pedaço e tantos outros trabalhos. Ficam os palcos, os filmes, as novelas, as histórias e as inúmeras gerações de atores que tiveram nela uma referência.
Mais do que uma atriz, Laura Cardoso foi patrimônio da cultura brasileira.
Sua vida foi dedicada à arte.
Sua arte foi dedicada ao público.
E seu legado agora pertence à história.
Descanse em paz, Laura Cardoso. Obrigado por uma vida inteira de dedicação, talento e amor à dramaturgia. O Brasil jamais esquecerá uma de suas maiores artistas.
