Mostra de cinema exibe Robocop e As Virgens Suicidas em São Paulo
Os fãs de Paul Verhoeven e de Sofia Coppola já têm compromisso marcado no CineSesc, em São Paulo, pelas próximas semanas, já que Robocop e As Virgens Suicidas fazem parte da programação da Mostra Farol, que ocorrerá entre 20 de março a 2 de abril.
Uma realização do Sesc São Paulo, o projeto articula dois eixos complementares: de um lado, obras de cineastas hoje consagrados, revisitadas como sementes de revoluções estéticas; de outro, uma seleção de filmes recentes, ainda inéditos comercialmente no Brasil, que circularam por grandes festivais e sugerem novas rotas para o cinema contemporâneo. Inspirada na ideia do farol, que orienta embarcações em mar aberto e organiza o percurso, a mostra propõe uma travessia entre heranças e apostas.

Robocop, filme revelação americano de Paul Verhoeven, levantou na época discussões políticas e sociais que continuam em evidência, como a crescente desigualdade econômica do neoliberalismo que desmantela o estado de bem-estar social, a privatização de serviços essenciais que transforma em lucro o que deveria ser serviço público, a transformação da violência em entretenimento pelas mídias e os limites entre tecnologia e humanidade. Na história, o policial Alex Murphy é morto em serviço e uma companhia privada de policiamento usa seus restos mortais para a criação da máquina que dá título ao filme: um policial robô que busca representar o que há de mais moderno em segurança urbana. Murphy começa a recobrar sua consciência e humanidade, dando novos rumos ao personagem e à trama. Temas como a ascensão do autoritarismo, o aumento da violência em grandes centros, o declínio de cidades industriais e o eterno estranhamento entre homem e máquinas que adquirem consciência, já estavam presentes na mente do diretor há quase 40 anos, antecipando acontecimentos que pautaram as produções cinematográficas das décadas subsequentes.
Já As Virgens Suicidas, de 1999, primeiro longa de Sofia Coppola, desloca o confinamento para o subúrbio norteamericano dos anos 1970. A vigilância dos pais sobre as irmãs Lisbon transforma a casa em vitrine melancólica, observada à distância pelos garotos do bairro. Mais do que um drama adolescente, o filme causou impacto pelo modo como aborda repressão emocional e idealização da juventude.

Ambos os filmes fazem parte do eixo memória da Mostra Farol, onde serão exibidos filmes que marcaram o início da trajetória de grandes cineastas. Dois exemplos são Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos – um dos maiores cineastas brasileiros – e Slacker, de Richard Linklater, ambos mostrando a realidade urbana. Separados por mais de 30 anos entre suas realizações e mostrando cidades bem diferentes, o Rio de Janeiro de 1955 e Austin, no Texas de 1990, as narrativas se encontram na falta de perspectiva com a qual os jovens olham, experimentam e enfrentam o entorno. Santos conta a história de cinco jovens negros de periferia em sua jornada para vender amendoins na cidade. Nas imagens e cotidiano dos garotos, ele contrasta o glamour da cidade maravilhosa com a cortante desigualdade social da qual a beleza procura nos distrair. Linklater volta seu olhar para uma espécie de geração nem-nem na Austin dos anos 1990. Jovens que não trabalham, nem estudam, ou que fazem o mínimo de esforço para sobreviver e vivem cheios de energia e imaginação, com poucas oportunidades de extravasar. Esse cenário os transporta para uma vivência permeada por apatia e rompantes de violência, em que tudo que os conecta é a escassez de futuro no território onde vivem.

A Mostra também realizará duas exibições em 35mm: Gosto de sangue (1984), de Ethan e Joel Coen, e Os Matadores (1997), de Beto Brant. Ambos são suspenses que se desenvolvem a partir do ponto de vista de seus personagens. No primeiro filme dos irmãos Cohen, quem está em cena está sempre um passo à frente do espectador, já que o que eles pensam e sentem nunca é revelado de maneira objetiva e quem assiste é levado pela história e fica à mercê das reviravoltas do roteiro. Na trama, um dono de bar descobre que sua mulher tem um caso com um dos funcionários e contrata um detetive para investigá-la e depois matá-la. Já na estreia de Beto Brant, acompanhamos a vida de um matador, primeiro do ponto de vista de quem conta sua história e depois através de flashbacks do próprio assassino, interpretado por Chico Diaz, estampando na tela um homem ambíguo, que alterna entre a violência e a generosidade.

Outros filmes da programação no eixo memória são Dente Canino, do cineasta grego Yorgos Lanthimos; A Maçã, estreia da iraniana Samira Makhmalbaf; Chocolate (1988), de Claire Denis; e I Will Follow, que marca a chegada de Ava DuVernay ao longa de ficção.
A primeira edição da Mostra Farol também apresenta filmes inéditos comercialmente no Brasil, mas que já rodaram grandes festivais; o CineClubinho, onde serão exibidos as animações Papaya e Branca de Neve e os Sete Anões; além de encontros formativos que abordam roteiro e a primeira cineasta da história.
Todas as sessões da Mostra Farol estarão com ingressos vendidos a R$20,00 (inteira), R$10,00 (meia) e R$6,00 (credencial Sesc) e as exibições na faixa das 15h são grátis, com ingressos distribuídos 1h antes do início. As sessões do CineClubinho tem gratuidade para crianças até 12 anos e ingressos vendidos a R$10,00 (inteira), R$5,00 (meia) e R$3,00 (credencial Sesc). A pipoca é R$2,00.
Confira a programação completa e demais informações em sescsp.org.br/mostrafarol