Men At Work – Araújo Vianna
Costumo dizer que Porto Alegre é quase uma embaixada cultural da Austrália. Poucos lugares do Brasil abraçaram tanto o rock australiano como a capital do Rio Grande do Sul. Hoodoo Gurus, Spy x Spy, Midnight Oil, Australian Crawl, Ganggajang, e é claro, Men At Work, sempre estiveram presentes na trilha sonora do gaúcho e shows deles por aqui são sinônimo de casa cheia. Quando foi anunciado o show do Men At Work no Brasil, no fim de 2025, Porto Alegre foi o único local do Brasil que teve duas datas para a banda, tamanha devoção do estado para o conjunto de Colin Hay. E o NoSet esteve presente na primeira das datas, quarta passada.



Com lotação esgotada para as duas noites, o Araújo Vianna lotado esperava ansiosamente o grupo de Melbourne, na Austrália, que por seis anos de carreira empilhou hits no mundo inteiro. Bom, daquele grupo realmente não sobrou quase nada. Colin Hay, a voz e a cabeça pensante da banda, se juntou a um grupo de músicos e leva o nome e o legado da banda a apresentações repletas de nostalgia e sucessos. Em Porto Alegre não foi diferente e ao lado da esposa, a peruana Cecília Noel, na percussão e animação contagiante, do trio de músicos cubanos, Yosmel Montejo no baixo, Jimmy Branly na bateria e San Miguel Perez, e nos sopros a californiana Rachel Mazer, Colin Hay já ganha a gauchada falando no microfone “Bah gurizada”. Com a plateia ganha, a banda se deu o luxo de tocar canções menos radiofônicas no início, como Touching The Untouchables, a ótima No Restrictions e Broken Love da carreira solo do Hay. O Men At Work tem um punhado de músicas famosíssimas, mas tem muitas músicas que só os fãs de verdade conhecem. A banda tem uma discografia muito pequena, então, o disco Business as Usual e Cargo foram tocados quase que na íntegra. Não posso negar que com canções repetitivas como Come Tumbling Down e Can’t Take This Town, todas da fase solo de Hay, o show deu uma bela murchada, e se não fosse a luminosa performance da esposa do vocalista, Cecília Noel, o show seria extremamente morno.



A coisa começou a mudar com Down By The Sea, mas foi com o maior hit de Colin Hay, Into My Life, que o Araújo levantou pela primeira vez com o sucesso de 1990 que fez o cantor tocar na segunda edição do Rock In Rio, em 1991. E é incrível como a voz do cantor continua impecável, chegando aos agudos incríveis e afinação precisa. Mas a euforia durou pouco e logo o povo sentou com a sequência de canções I Can See It In Your Eyes, Looking For Jack e Blue For You. Colin Hay canta demais, mas pouco se comunica e parece uma árvore, tão estática que é sua performance de palco. Mas quem se destaca é a saxofonista Rachel Mazer, que nos solos vai pra frente do palco e faz uma bela dupla com Cecília, que não para quieta. Everything I Need You, Catch Star e No Sign Of Yesterday cumprem o protocolo com um público que conversava mais que curtia o show, até porque o som estava num volume que lembrava um radinho de pilha de tão baixo.
O show começou a esquentar mesmo com The Longest Night e Underground, mas foi com a canção Dr. Heckyll and Mr. Jive que a plateia timidamente se levantou e ainda baixou de novo com Helpless Automaton. Mas parecia que Colin Hay e sua trupe ficaram uma hora e meia enrolando para deixar pro fim o melhor do show. Como falo, o Men At Work tem ótimas músicas, mas umas cinco são muito famosas e como num passe de mágica, quando o riff do sax de Overkill foi tocado, o Araújo virou uma festa, como todos de pé e celulares a postos, uma celebração do pop oitentista e de desafinação da galera ao tentar emular a parte alta do pré-refrão da canção. E o baile seguiu com a excelente It’s A Mistake, cantada junto pelo povo, o que fez até a banda se soltar mais, Colin Hay, arriscou passos de samba, Cecília estava mais animada do que nunca e o trio de cubanos também se soltou. E ainda tinha Who Can Be Now e Down Under. Para acabar o show, a animada Be Good Johnny, mais um sucesso pra fechar a conta.



Com um set de 22 canções, uma estratégia duvidosa de deixar a melhor parte do show toda (mas toda mesmo) para o final, o show do Men At Work esbanjou competência, mas realmente não se sustentou bem com o público. Muitas canções parecidas, uma performance por vezes monótona, em que sair pra pegar chopp era quase um dever. Mas a meia hora final do show valeu a apresentação inteira, um carrossel de sucessos radiofônicos, que lembraram os saudosistas de quanto os australianos fizeram sucesso no início dos anos 1980. Hoje a banda não tem mais nenhum australiano, mas graças a Colin segue firme passando pra velhas e novas gerações o quanto a banda foi gigante, e diferente de muita gente da sua geração, continua cantando demais e não arrisca trocando arranjo ou com invenciones, toca o óbvio, que tanto agrada a quem prestigia a banda e tem saudades de 1983, 1986 e 1996 e de uma época em que o rock australiano comandava as ondas do rádio na terra do churrasco.


Crédito das fotos: Vívian Carravetta